segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

E assim se conclui...

E assim se conclui a publicação de O Rodopio do Escorpião. Durante alguns meses, como prometido, aqui estive semanalmente convosco, partilhando as aventuras de Raul Veloso na segunda metade do século XXI. As visitas não foram relativamente muitas nem relativamente poucas, mas fico satisfeito por ter havido quem me tenha lido, ainda que este livro não tenha atingido a trigésima edição nem sido falado nos noticiários.
Agora, está na hora de regressar um pouco mais à minha criação poética, em Poesia para quem quiser, aí mesmo ao lado, único link, aliás. Tem andado algo descurada, mas não esquecida.
O Rodopio ainda por cá ficará algum tempo, antes que o apague e passe, como tudo o que passa, a viver apenas na memória de quem, à sua maneira, o viveu. Convido-vos a imprimirem-no, se assim o entenderem, a deixar-me os vossos comentários finais, se for esse o vosso desejo.
Um abraço e até sempre.

Jorge Simões

Epílogo

Passam hoje precisamente dez anos sobre aquela manhã grisalha de fins de Dezembro em que, pela última vez, vi Christine, António, William Allum e o Velho Mundo. Foi essa, de facto, a última, antes de me embarcarem numa viagem imprevisível, numa teleportação indetectada a provar até que ponto o regime estava podre e descuidado. Ou talvez também não se importassem de me ver partir? Todos os dias penso no que deixei para trás, nos meus pais que espero estarem vivos e bem, nas ruas de edifícios antigos e fachadas monumentais, na luminosidade amarelada do Porto e na luz branca do Sul, nas costas rochosas do Atlântico, nas esperanças, nos amores, nas ilusões e desilusões... Mas ainda que já consiga pensar em tudo e em todos com uma certa saudade, até em Anamaria ou em William Allum, é-me impossível renegar a decisão que tomei.
Vivo desde há seis anos no estado norte-americano da Califórnia, do outro lado do Ocidente, mais precisamente nas colinas de Hollywood, de onde posso vislumbrar a cidade com todas as suas misérias e todas as suas glórias. Agrada-me ter bom tempo o ano inteiro. Agrada-me o meu casamento e Rosemary, a nossa filha de três anos, a crescer em liberdade. Mas igualmente importante é o facto de ter voltado a escrever... Melhor, de ter começado a fazê-lo, já que deixei de ter que esconder em recantos obscuros os meus verdadeiros trabalhos. Dir-me-ão os meus compatriotas que vivo num lugar caótico e amoral... Que é isso exactamente? Ninguém conhece o que não conhece. Quanto a todos os portadores de chips, nem se fala... Pensarão o que se quiser que pensem. A minha apologia, entenda-se, não é a de um outro país. É antes a de um outro mundo, livre no meio de todos os seus pequenos ditadores potenciais, livre em todas as partes e também na Europa onde a democracia já chegou a ser forte. Sem restrições à alma humana, sem queijos obrigatoriamente quadrados, sem bifes obrigatoriamente redondos, sem imagens oficiais do resto do universo, sem marginalizações obrigatórias dos grupos marginais, numa palavra, sem prepotências obrigatórias. Espero que os meus antigos companheiros consigam concretizar a sua difícil revolução... Nessa altura, talvez recupere o desejo de regressar a casa, momentaneamente ou não, à casa que já foi minha.
Recordo agora, enfim, aquela estranha figura que encontrei junto à praça dos leões alados de Étampes, no cemitério coberto de poeira e honrado por tufos intermináveis de flores campestres, na cave sombria onde me entregava à imolação... Creio que nunca o chegarei a decifrar... Mas é a este tempo que pertenço e ainda bem que nele permaneci. Talvez um dia eu tenha sido aquele escorpião suicida... Talvez, como ele, tenha girado sobre mim próprio sem me encontrar... Mas ninguém vive de suposições. E creio bem ter concluído o meu derradeiro rodopio.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

XI

O que sucedeu a seguir é de tal forma bizarro que hesitei vezes sem conta antes de o relatar. Cheguei a imaginar variados e diferentes desfechos por mero receio de não ser tomado a sério: de uma vida realmente vivida na segunda metade do século XX, o que não teria deixado de constituir uma temática interessante e de me forçar a um bom trabalho de pesquisa, a uma recusa no último instante, seguida de uma participação pessoal numa revolta vitoriosa. Por fim, acabei por enxotar tais ideias e decidi-me a narrar a pura verdade para quem a desejar ler, acreditando ou não...
Estavam concluídas as despedidas. O silêncio, acompanhado de uma tensão surda e generalizada, recobria a experiência e todos os seus participantes como uma mortalha incómoda. Imagino que mais do que a qualquer outro dos presentes, o coração desatinara-se-me a desfilar numa cavalgada crescente de dúvida e temor. Sentia-o até no fundo das minha pupilas inchadas, nos dentes que me rangiam sem que para tal os comandasse, nas pontas dos dedos que me tremelicavam de forma bem perceptível e nas palmas das mãos que se me tinham alagado repentinamente. Estava encurralado como o actor novato no momento imediatamente anterior a ser empurrado para a estreia de um monólogo que lhe ocorre talvez não ter estudado com a necessária aplicação. William Allum e Christine tinham-se escondido na penumbra interior da sala e somente António se destacava no meu campo de visão, hesitando brevemente antes de me enviar numa odisseia nunca antes tentada. Tal hesitação, aliás, mesmo se então eu raciocinava mais por soluços intuitivos do que por verdadeiros encadeamentos de ideias, não contribuía em nada para me tranquilizar. Muito pelo contrário. Em que espécie de buraco me enfiava?
“Andem lá com isso!”, grunhi num volume de voz inacessível. Duvido que alguém me tenha entendido.
Quando o indicador direito de António dava o mergulho final em direcção ao que deveria ser o botãozinho fulcral da minha viagem, o lift-off derradeiro da minha existência conforme a conhecia, no momento em que as pálpebras se me cerravam com o peso de muitas atmosferas, uma silhueta surgiu do nada e impôs-se no centro da sala, confundindo-nos a todos. Em quase tudo a aparição era semelhante a uma simples teleportação, não fosse o facto de se encontrar rodeada por uma ténue luminosidade anilada em lugar da costumeira aura vermelha que só era habitualmente notada em ambientes escuros. Um estranho zumbido, semelhante a um enxame de vespas, desfazendo-se à medida que a personagem ganhava nitidez, carregava-a de mais um aspecto insólito. Tremi ao reconhecer a figura de Jesus e interroguei-me, num lapso instantâneo, se aquele não seria o traidor que William Allum mencionara no jantar da noite anterior, mas todos pareciam ainda mais surpreendidos do que eu e ninguém parecia reconhecê-lo de lugar algum...
Na sua ausência de expressividade quando me encarou, pareceu-me, ainda assim, descobrir-lhe um sorriso tranquilizador, como que telepático. Em não mais do que alguns instantes, dirigiu-se a António, surpreendido contra uma das arestas da mesa, retirou-lhe o aparelho das mãos sem enfrentar qualquer resistência, examinou-o de vários ângulos frente aos olhos e lançou-o ao ar com um movimento rápido. Para estupefacção de todos, a máquina, estranhamente volatilizada, nunca chegou a regressar da sua ascensão. Seguidamente, encarou-nos um por um, avançou calmamente em direcção à porta, subiu as escadas, lenta mas decididamente, e desapareceu no ângulo que estas formavam no topo. Pessoalmente, nunca assistira a tal demonstração de metafísica pura! Quanto aos meus companheiros, todos eles haviam mergulhado num estado de aparente apatia, silenciosos e estáticos, como se atingidos por uma estado de catatonismo inexplicável...
Quando enfim recuperei a fala, ninguém revelava qualquer recordação da ocorrência ou dos momentos que a tinham precedido. Mais ainda, ninguém pensava em máquinas do tempo ou na decisão de me enviar para um tempo passado. E, em lugar de manifestarem sintomas de confusão mental face a tão estranhas manifestações, todos patenteavam um entusiasmo inaudito pelo facto de nos encontrarmos ali reunidos para debater o futuro da revolução, no qual ninguém hesitava em incluir-me.
“Sentimos que tens muito que dar ao futuro da nossa causa!”, proferiu William Allum, num tom de voz quase eufórico.
“Chegou a altura de avançarmos em direcção a um desfecho favorável!”, acrescentou António, imerso num estado de espírito em tudo semelhante.
“Tenho andado a movimentar-me para que não sejas deixado de fora!”, explicou Christine, dando-me vigorosamente o braço. “Sei que não te recusarás a dar o teu contributo para a libertação da Europa”.
Enganava-se. Os últimos acontecimentos, depois de me confundirem, de me abandonarem a um estado de depressão negra e de quase me matarem para me fazerem renascer um pouco à toa, acabavam de me clarear o raciocínio. Se continuava a desconhecer o meu caminho, passara certamente a saber que não pretendia trilhar estradas já conhecidas. Não podia, isso era agora uma verdade absoluta, voltar ao passado nem reescrevê-lo. E nem o queria. Quanto aos meus companheiros daquele instante, precisávamos de um divórcio. William Allum era, para mim, uma personagem dura e impenetrável e, como sucede com todas as esfinges, temia que me devorasse. António revelara uma incongruência que, talvez mais por fraqueza do que por razoabilidade, nunca esperara. Não deixara de lhe admirar a capacidade de realização, mas passara a lembrar-me um molusco mole e isso é muito menos do que se deve esperar de um amigo. Quanto a Christine... Christine estava provavelmente casada com a ideia da revolução e eu, em todo o caso, nunca chegaria a passar de um segundo esposo, um concubino. Não que a movessem interesses ou que fosse despida de emoções mas, em alguma altura, nem sei bem quando, perdera-a e ela perdera-me. Se alguma vez nos tínhamos tido de todo... Exigia-se indubitavelmente um divórcio. Foi assim, mais por razões pessoais do que por discordar da necessidade de mudanças numa Europa em que as leis indicavam que todos os queijos tinham que ser quadrados, todos os vizinhos deveriam ser anexados e todos os cidadãos controlados, que me recusei de imediato a dar o meu “contributo para a libertação”. Decepção generalizada! Mas sentia-me forte como não me recordava de alguma vez me ter sentido. Irredutível. A noção que possuía, nascida mais do meu imaginário ficcionista do que das experiências da realidade efectivamente conhecida, dava-me a entender que uma vez envolvido nas malhas de uma organização assim não havia saídas agradáveis. E não me enganava por inteiro. Não restavam, de facto, saídas fáceis para mim. Mas também ninguém me prendeu. Uma vez certos da inevitabilidade da minha decisão, todos se ofereceram para me ajudar no que fosse possível. E essa foi quase a última vez que vi qualquer um deles.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

X (continuação)

Engoli o tagliatelle, demasiadamente espessado pelo molho que o envolvia como areia movediça, a contragosto. A tarte tinha um paladar de carne crua, amplificado pelas várias tonalidades de vermelho que nela reverberavam. O vinho escorria-me como sangue pela garganta abaixo. No final, depois de uma autêntica conversa de surdos, ou que assim me tinha parecido, durante a qual eu já nem procurava escapar a algum laconismo, despedimo-nos e segui com Christine para o quarto que ocupávamos numas águas-furtadas amplas e bem iluminadas por uma vidraça que, do tecto, as iluminava da luminosidade fantasmagórica da noite silenciosa que agora se estrelava sobre os nossos corpos. “Como no dia em que te conheci...”, ocorreu-me. Tínhamos dado um beijo de boas noites e Christine encontrava-se de lado, deitada com as costas contra mim, lisas e fascinantes como um vale de trigo maduro à espera da recolha. Era uma noite fria, dentro e fora de mim. Senti-me invadido por um arrepio de tristeza funda. Como era possível que tivessemos chegado a ignorar-nos daquela forma? Deixei que um suspiro se me esvaísse dos pulmões e ela enrolou-se de encontro ao meu peito. Então, acordou do sono leve em que navegava e sussurrou:
“Não dormes?”
“Estava mesmo a cair no sono”, menti.
“Mmmmmm”, ronronou, desenrolando-se para a posição anterior e abandonando-me aos meus pensamentos e à falta de sono.

O dia amanheceu espectral, como convém aos últimos dias dos condenados deste mundo. Foi Christine, aparentemente desperta já há muito, quem me veio roubar ao mundo dos sonhos. Abanou-me um pouco e manteve-se à espera o tempo necessário. Fingi que demorava mais do que efectivamente demorava a desentorpecer e aproveitei para a observar... Por detrás da sua firmeza, pareceu-me esconder-se uma expressão de grande e triste nostalgia. Sentiria ela amargura pela distância que irremediavelmente tombava entre nós? Agiria ela, de alguma forma, contrafeita em toda aquela história de me enviarem para outra época? Ou tratar-se-ia simplesmente de mim a interpretá-la a meu gosto? Quando esbocei o gesto de me levantar e antes que o fizesse, ela conteve-me com a palma da mão aberta sobre o meu peito:
“Espera...”
Pousou o indicador pensativamente sobre os lábios, como que a certificar-se de algo.
“É mesmo isto que pretendes fazer?”
Espantei-me. Depois de tudo, o que poderia importar-lhe?
“Porque é que me fazes essa pergunta?”
Voltou a hesitar, o olhar toldado por uma preocupação momentânea. Depois, soltou um suspiro conformado e murmurou:
“Só quero que saibas que isto não é nada de definitivo. Não tens que viver no passado para sempre...”
“Não?”
“Assim que a nossa hora soar na Europa, como há-de soar, resgatar-te-emos de imediato”.
Uma revoada de ideias brotou-me no pensamento.
“Desculpa...”, pedi, afastando-a. “Mas se assim é, se vocês estiverem no meu futuro e eu no vosso passado e se a vossa vitória se der no meu futuro, podem perfeitamente resgatar-me, como dizes, no preciso momento em que eu aterrar no século XX. Melhor ainda, não há sequer necessidade de eu partir para onde quer que seja!”
Aparentemente, aquele raciocínio não seria novo para ela. Talvez já assim tivesse pensado muitas vezes. Fitou-me, os olhos nos olhos, beijo fugidio e, segurando-me o queixo, frisou:
“Sabes bem que não é assim...”
Nesse momento, António bateu à porta antes de a abrir sem aguardar resposta.
“Com licença...”, disse, entrando pelo quarto dentro com um sorriso de orelha a orelha e os braços abertos para mim como se me convidasse para umas férias nos trópicos. Ou como uma aranha a abraçar-me a mim, a mosca! Era bem possível que, de tão satisfeito com a sua descoberta, realmente achasse que me mandava para umas férias... Instalou-se na borda da cama de onde ainda não me levantara e perguntou, esfregando as mãos de entusiasmo:
“Estás pronto para o grande salto?”
Compreendi que, por muito que lhe admirasse a inteligência, certamente superior, aquele era um claro caso de ofuscamento. Certamente que a maldade não o movia. E todos temos direito a momentos menos inteligentes. Mesmo eu, ao aceitar com tal facilidade o desterro em cima do desterro. Mesmo ele. Abanei a cabeça compassivamente para lhe dizer que sim. Mas lembrei-me de avançar uma interrogação que repentinamente me pareceu importante:
“Tu, que és o grande criador da máquina e que, além do mais, ainda participas, sem que alguma vez mo tenhas dito ou sequer dado a entender, na revolução, faz o favor de me responderes na tripla perspectiva do inventor, do homem de negócios e do revolucionário, a uma pergunta tão óbvia que não tem deixado de me atormentar desde ontem...”
“Não te atormentes... Não há motivos para tal”, interrompeu-me, particularmente satisfeito com a imagem do génio criativo preocupado.
“Não, não”, prossegui. “Porque não utilizamos a máquina do tempo para surpreender o sistema no futuro, roubando-lhe os seus segredos, conquistando-lhe os pontos fracos e derrotando-o dessa forma? Eu próprio estaria disposto a desempenhar o meu papel revolucionário, viajando entre épocas e contribuindo para a vitória! Não seria isso mais útil do que remeter-me para uma qualquer época passada na qual nada poderei fazer pela causa?”
Se a pergunta era evidente, António não pareceu demasiadamente embaraçado por se ver assim colocado diante dela.
“Não penses que me falas de algo em que não tenha já pensado...”, disse, com uma expressão circunspecta, coçando vagarosamente o queixo. “A questão é a seguinte... O futuro cria-se em cada momento presente, ainda não existe. E enviar-te para o futuro seria equivalente a enviar-te para lado nenhum”.
Dei-lhe duas pancadinhas desafiadoras na barriga.
“E o passado? Não estarei eu a mais no passado? A minha presença não alterará, de algum modo, o presente? Não o alterará totalmente até?”
Ele fitou-me pensativamente.
“A velha história da borboleta do outro lado do mundo, não é? A borboleta que bate as asas na Nova Zelândia e provoca um furacão na Península Ibérica... Mas isto não é nenhuma hipótese meteorológica! Ninguém pode ser tão importante que altere dessa forma a história! Com franqueza, se mudaste de ideias, tudo bem... Não serei eu quem te forçará”, enervou-se.
Parecia, agora, claramente contrariado. Como o pintor que um crítico acusasse de ideias a mais para inovação a menos. Christine fitava, espantada, a maneira como cruzara os braços rigidamente e se entesara todo, um pouco como uma criança amuada.
“Raul, é claro que não tens que partir. Apesar de te encontrares numa situação insustentável”, interveio. “Mas tu mesmo acedeste e até nos deste uma data. E, como disseste, é possível que a tua estadia venha a ser praticamente instantânea”.
Decidi apaziguar a tormenta:
“Está bem... Vamos lá. Sempre não deixarei de ser um pioneiro da ciência”.
E espero que vivo, pensei, lembrando-me que o aparelho não fora ensaiado em humanos.

Chegámos à vasta cave onde o avô de Christine dedicara tanto do seu tempo à pintura. Vazia agora, silenciosa, sombria. Quem senão ela, de entre as pessoas vivas, conseguiria ainda sentir a atmosfera plena de alegrias, tristezas e dos dias que por ali tinham passado? Um leve olor a mofo exalava dos poros enrugados das paredes cercadas pela humidade, de alguns cavaletes atirados para um canto de penumbra, de duas mesas vazias antagonizando-se em lados opostos, de uma velha lâmpada fundida, estática e nua de candeeiro, a destacar-se numa silhueta muda bem a meio do tecto. Christine retirou um trio de velas grossas de uma cavidade logo à direita da porta de entrada, a seguir à pequena escadaria descendente que estendia uma luminosidade débil e alongada pelo cimento carcomido do chão, a meio caminho até às vidraças, quebradas aqui e ali, que se lhe opunham de uma posição superior. Deixei transparecer a minha estranheza, tão divertida quanto as circunstâncias permitiam, diante do cenário escolhido.
“Estás a rir?”, indagou Christine.
“Primeiro preocupa-se e agora ri-se! Consegues percebê-lo?”, acrescentou António.
“Porque é que não vamos para um local mais claro? Tens alguma preferência por ambientes tumulares, meu caro aprendiz de feiticeiro?”, respondi.
“Questão de atmosfera!”, disse ele com uma expressão simultaneamente sisuda e divertida, tanto assim que enquanto uma sobrancelha se lhe carregava e lhe empapava a pálpebra esquerda e o olho apequenado, a outra elevava-se numa grande arcada que fazia pensar no pêlo de um gato assanhado. “Não é gótica, rapaz... É estrombótica. Reservada. Digna. Tem história. E prepara-se para vibrar de novo com um feito memorável do qual serás protagonista”. Apertou-me o ombro, sacudiu-mo com energia e exclamou: “Não tenhas dúvidas de que ainda hás-de ser falado! Muito falado!”
“Já o fui e com muito maior proveito... Mas que interessa isso agora? Que é feito do Allum?”
“O eterno pessimista!”, resmungou ele. E, voltando-me as costas: “Mas é verdade! Que diabo lhe aconteceu?”
De certo modo, ter-me-ia regozijado se William Allum, naquele preciso momento, irrompesse por ali dentro com um bando de clones e revelasse a sua verdadeira face, capturando simultaneamente o último foco organizativo da resistência, tanto quanto o sabia, e a máquina do tempo que se poderia vir a revelar uma verdadeira complicação para o futuro do regime. Infelizmente, já o poderia ter feito quando quisesse... A ideia, ainda que bizarramente agradável, era pura e simplesmente irracional. Christine ofereceu-se para o ir procurar e regressou, momentos decorridos, com o homem a fazer-lhe de sombra.
“Desculpem-me mas estava a terminar o meu pequeno-almoço, uma refeição que nunca dispenso”, explicou, acabando de trincar uma tosta enjoativamente barrada com demasiada manteiga de amendoim. “Então, estamos prontos?”
Prontíssimos. Imaginei-o a tropeçar na escada, a cair de cabeça no local exacto, no preciso momento em que a máquina fosse activada e a ser transportado para o futuro... O tal que não existe.
“Pronto!”, garantiu António, assumindo uma quase pose de militar diante do seu alto-comando. “Estive apenas a ajustar as coordenadas para que tudo corra na perfeição”.
“Seria péssimo se, por engano, enviássemos o nosso amigo para Étampes em 2034!”, gargalhou desagradavelmente o primeiro.
Christine olhou-o de viés com uma careta e o próprio António esboçou um sorriso amarelo ao concordar:
“Seria, realmente. Mas isso é algo que eu nunca arriscaria...”
“Certamente que não”, enfatizou William Allum, retomando a sua habitual expressão de eficácia e pertinência e ordenando, com um único bater de palmas: “Avancemos, portanto! Onde é que está o aparelho?”
António retirou de uma bolsa um pequeno cubo com apenas algumas teclas e um visor e pousou-o sobre uma das mesas. Seguidamente, depositou-me nas mãos um objecto frio, com a dimensão e a forma de um pequeno berlinde:
“Aperta isto firmemente entre as mãos. Só o poderás largar no teu destino. E conserva-o sempre contigo... Permitir-nos-á conhecer sempre o teu paradeiro e reencontrar-te de imediato mal chegue o momento”.
Ocorreu-me que talvez eu nem quisesse ser descoberto. Talvez preferisse desaparecer, transformar tudo aquilo numa espécie de reincarnação científica. Depois, ele apertou-me as mãos e, com um traço indisfarçado de comoção, desejou-me a melhor das sortes. Antes que eu pudesse reagir, Christine tomou o seu lugar, abraçou-me prolongadamente como fizera anteriormente, colou-me um beijo aos lábios e segredou-me:
“Ainda te quero!”
O próprio William Allum, que até então se mantivera passivamente encostado ao canto mais próximo da porta de entrada, observador e desejoso de um desfecho, deu dois passos firmes na minha direcção, estendeu-me a mão e saudou-me enfaticamente, exclamando:
“Gostaria de estar no seu lugar! Não deixaremos de o resgatar logo que nos seja possível”.
Instalou-se em mim uma doce confusão. Seria eu, de facto, o eterno pessimista? E decidi, intuitivamente, que afinal talvez até não me importasse de vir a ser repescado...

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

X

Quando, naquela noite, cheguei a casa, Christine aguardava-me sem aparentar aguardar-me, mexendo pacientemente uma colher de pau no forno a lenha da velha cozinha adornada de fuligem. Não me sentisse ainda atormentado pela repetição obsessiva de ideias que me vinha atazanando desde o cemitério e o aspecto doméstico e antiquado da cena ter-me-ia tranquilizado. Surpreendi-me por a ver já de volta e a cozinhar uma tarte de frutos silvestres de forma tão concentrada... Nunca a soubera assim cozinheira! Sobre a banca, os mirtilos, as framboesas e as groselhas misturavam-se como se obedecessem a uma estética pré-definida. A panela negra onde o creme engrossava era um pequeno vulcão em repouso, a borbulhar e a fumegar. A massa areada, já estendida numa tarteira, assemelhava-se a uma grande língua lânguida que varria de desejo frutos e creme. E a meia-luz bruxuleava as nossas silhuetas, exageradamente alongadas e a crescer do chão para a parede junto à porta. Numa situação normal, calçaria as pantufas e relaxaria a mente pensando em coisa nenhuma... Mas, naquele momento, tomei Christine pelos ombros e anunciei com alguma brusquidão:
“Queria contar-te uma coisa...”
“Conta, então...”, respondeu, sem deixar de prestar atenção ao que fazia. “Deixa-me só terminar”.
Sentei-me pacientemente num velho banco de palhinha, sentindo o frio da parede contra a nuca, e aguardei. Por fim, ajoelhou-se diante de mim, cruzou os braços de mangas arregaçadas sobre os meus joelhos e disse:
“Conta lá...”
Narrei-lhe o meu dia, procurando não deixar escapar pormenores, os dias que o antecederam, quase a minha vida toda, como não teria feito a mim próprio. Falei-lhe das minhas angústias, do mal que me corroía. Acho que, íntima e inconscientemente, esperava receber carinhos em troca...
“Sinto que deitei a perder a minha vida toda...”, lastimei-me.
“De maneira nenhuma!”, replicou-me. “Até uma certa altura, porque não? Mas deitaste tudo a perder quando optaste por lutar pela liberdade? Deitaste tudo a perder quando decidiste ficar comigo? O que é que isso significa, afinal?”
Só então me apercebi das implicações do que vinha de afirmar... Vivera uma vida de conforto e, por muito que me convencesse da importância das ideias, perdera tudo. Com Anamaria estava habituado a bom sexo e em quantidade e, digam o que disserem – dissesse eu o que dissesse! -, é nos corpos que os seres se encontram, porque a mente pode ser menos sólida do que a matéria. Há quanto tempo não tinha direito a uma sessão em condições? A partir de certa altura, Christine começara a esquivar-se e a mostrar-se demasiadamente reservada na cama para me satisfazer. E não podia deixar de estabelecer comparações... Senti-me confundido. No fim de contas, o que pretendia eu realmente? De resto, por falar em ideais de liberdade, não conseguia esquecer o facto de que mandara uma data de gente pelos ares sem que tal tivesse constituído uma opção para quem quer que fosse. E, na sequência de tudo, ainda perdera definitivamente o irmão que acabara de reencontrar. Abanei a cabeça como que para sacudir o raciocínio.
“Não quero dizer nada”, gani. “Só o que disse. O que se passa é que a minha situação não é das melhores...”
Christine fitou-me durante alguns instantes e acedeu com um gesto de braços.
“Não há nada que não se resolva”, garantiu-me. E acrescentou: “Hoje vamos receber visitas que te hão-de interessar”.
Naquele instante não compreendi a importância de tudo aquilo. De resto, estava de tal forma absorto nos meus pensamentos e dúvidas que nem me lembrei de lhe perguntar quem poderiam ser os nossos ilustres visitantes...

Não decorrera meia hora de silêncio quando alguém se anunciou na porta de entrada.
“Vou atender”, disse Christine, parecendo aliviada por se poder afastar dali por alguns instantes.
“Quem é, afinal?”, perguntei-lhe.
“Já vês...”, respondeu-me com um sorriso malicioso. E esgueirou-se porta fora.
Instantes decorridos, comecei a ouvir vozes que se tornavam mais claras à medida que subiam a escada e, depois, percorriam o corredor, confundidas pelo gemido das velhas tábuas do soalho.
“Posso?”, indagou finalmente uma das vozes, arranhando a porta. Sabia que a voz me era familiar mas, naquele momento, não fui capaz de a situar.
A porta abriu-se para dar lugar à silhueta de António de Tarancón, o desaparecido António que tanto procurara em vão contactar no momento difícil em que tivera de sumir de circulação. Não soube de imediato o que pensar... Amigo ou traidor? Nessa altura, erguera-me e ele, sem me dar tempo para raciocínios elaborados, acercou-se de mim e apertou-me num forte abraço. Logo, afastou-se um passo e, segurando-me pelos ombros, exclamou num sorriso simultaneamente aberto e triste:
“Que bom rever-te! Que óptimo aspecto!”
Christine observava-nos, discretamente situada a um canto da cozinha. Então, sem que lhe perguntasse não importa o quê, ele fez-me sentar, puxou uma cadeira para si e desfez-se em explicações:
“Espero que não estejas sentido comigo!”, quase suplicou com sinceridade aparente.
Que eu deveria compreender até que ponto a sua posição era difícil, como lhe custara não responder aos meus apelos, mas que me tinha sabido em boas mãos e que isso o tranquilizara. Que, certo dia, estivera a ponto de mandar tudo ao ar e encontrar-se comigo. Mas a razão falara mais alto... Por um lado, se ele próprio se envolvesse em sarilhos quem ganharia com isso? Por outro, os próprios sobreviventes do Revolução Humanista, em fase de reconstrução, tê-lo-iam encarado como um risco desnecessário e incompreensível.
“Custou-me muito abandonar um amigo ao desespero”, confessou-me. “Entretanto, tenho andado a trabalhar numa solução para o teu caso. E já encontrei uma saída...”
Fitei Christine em busca de uma confirmação e ela acenou-me que sim com a cabeça.
“Ouve o teu amigo”, disse-me.
“Bem... E então que solução é essa?”, indaguei com um misto de curiosidade e descrença.
Antes que António se começasse a explicar, Christine interpôs-se:
“Calma... Ainda devemos aguardar a chegada de mais alguém”.
“Ah, claro!”
“Então e eu?”, interroguei com alguma irritação.
Olharam-me em simultâneo, António encolheu os ombros e Christine pediu-me paciência.
“É importante que não fiques de fora”, frisou. “E é por isso que devemos esperar por mais alguém. Que não deve tardar, aliás”.
De facto, minutos idos, alguém mais deu sinal na porta de entrada. Christine apressou-se a descer, enquanto eu e António nos mantínhamos em silêncio, escutando os novos passos que se aproximavam com o crescendo dos guinchos no soalho e as palavras ininteligíveis que ouvíamos, trocadas em surdina. Finalmente entraram, sem se fazerem anunciar, Christine e William Allum que eu imaginava morto!
“Boa noite!”, saudou, fazendo tremelicar a cicatriz que não deixara de me impressionar.
Aproximou-se e estendeu-me um aperto de mão que se me afigurou excessivamente forte e prolongado.
“Eis-me de volta do reino dos mortos!”, satirizou especialmente para mim. “E como é que vai o nosso artista?”
Pela antipatia impossível de bloquear que continuava a despertar em mim e pelo facto de constituir mais uma acha para a fogueira dos meus enganos, não sabia bem se havia de o estrangular, se havia de lhe abrir a incómoda cicatriz à dentada. No entanto, pelo menos assim parecia, tratava-se de um herói. E os heróis não se estrangulam nem se descaracterizam as cicatrizes de guerra.
“Vou andando, vou andando...”, murmurei entredentes. “Um bocado desterrado mas andando. E você, que diabo!, peço desculpa mas imaginava-o, efectivamente, no reino dos mortos!”
O meu comentário não pareceu causar-lhe qualquer mossa. Pelo contrário, soltou uma breve gargalhada antes de comentar:
“Coisas da vida! É uma história a explicar...”
“Uma história que deves ouvir”, meteu-se Christine. “Entretanto, vamos para a mesa ou não arrefecem só os assuntos mas também a comida”.
Passámos à sala que se situava duas portas à esquerda, ao fundo do corredor que saía da cozinha. As luzes, alimentadas por um pequeno gerador, acenderam-se para salientar a grande mesa redonda em nogueira que quase nunca usávamos, recoberta por uma toalha branca de linho bordado e centrada por um ramo de flores campestres que Christine desencantara algures.
“Preparei-nos um tagliatelle carbonara. Simples mas delicioso”, anunciou ela, enquanto tomávamos assento nas cadeiras de costas largas e eu me entretinha a remexer nervosamente o prato que tinha à frente, esfomeado das explicações que aguardava. “Mas aqui está uma salada como entrada”.
Lancei-me à alface, já que alguém parecia ter-se esquecido de que eu não apreciava particularmente o tagliatelle. Christine sentava-se à minha direita e segurou-me a mão quando me perguntou se o tempero estava do meu agrado. Disse-lhe que sim. António, ao meu lado esquerdo, mastigava cuidadosamente as folhas tenras e voltou a servir-se, parecendo alhear-se da questão central que pairava sobre a mesa. Foi William Allum, bem diante de mim, quem primeiro terminou a entrada, empurrou o prato um pouco para o lado e se começou a explicar:
“Raul...”, principiou, “... tinha toda a razão em me crer morto. Foi essa a aparência que criei, aparentemente com sucesso”.
“Sim. Mas porquê?”, interroguei.
Não me respondeu de imediato. Antes, desculpou-se pelo facto de eu me poder sentir de alguma forma enganado ou posto de lado pelos meus mais próximos. Soltei um “pfff!” enfastiado, fingindo não dar tamanha importância ao caso. Se bem que a ferida palpitasse por dentro... Então, prosseguiu:
“A melhor forma de eliminar um vírus é a partir do interior. Por isso, desde há muito colocado num posto importante e insuspeito do poder, tenho efectivamente feito parte das cúpulas resistentes. Lamento, na verdade, tantas vezes ter tido que agir de modo extremamente desagradável para mim mesmo. Mas a isso me forçava o meu compromisso e, se isto é uma guerra, estou certo de que terá noção de que em tempo de guerra não se limpam armas”.
“Eu acabei por me ver um pouco apanhado no meio de um tiroteio...”, comentei, não ocultando alguma amargura.
“Não se vanglorie a esse ponto!”, repreendeu-me. “Diante do que aconteceu a muitos, bem merecedores de destinos diferentes, você nunca deixou de ser um autor de sucesso”.
Nova e ideal oportunidade para o esganar! Se o fizesse, no entanto, nunca chegaria a ouvir o resto da conversa, a qual me interessava mais do que as minhas pequenas raivas particulares. Esbocei um gesto para que prosseguisse.
“É muito simples”, enfatizou. “Após algum tempo, as máscaras gastam-se e começa a ver-se o que está por debaixo. Precisamente por alturas da tragédia de Bath, tivemos sinais certos de que existiam algures fugas de informação e pareceu óbvio que o meu próprio segredo poderia estar prestes a ser traído. Depois, o que aconteceu confirmou-o. Tristemente...”
“E então... Decidiu forjar o seu próprio desaparecimento”, aventei.
Ele ergueu o indicador em riste.
“Não forjei coisa nenhuma... Desapareci com o conhecimento de todos. Ou quase. O assassínio dos nossos companheiros, aliás sintomático da mais rasteira estupidez do regime, só veio revelar até que ponto tudo se tinha tornado mais difícil. Infelizmente, nunca chegámos a pôr as mãos no responsável directo”.
“Soube-se quem era responsável...”, atalhei.
“Sim, sim. Um espanhol que, como eu, se encontrava próximo de ambos os lados. Um Jesus Franco que trabalhava directamente comigo, servindo-me de intermediário”.
Estremeci. Para mim, o culpado poderia ser até o próprio William Allum, respeitabilidade na resistência à parte. Ou poderia tratar-se do misterioso Jesus com quem me encontrara naquele fim de tarde. Que fazia ele, de facto, numa cidade fantasma? Christine apercebeu-se do meu estremecimento...
“Passa-se alguma coisa?”, perguntou.
Hesitei na resposta, compreendendo que tudo poderia não passar de uma questão de simpatia pessoal pelo vagabundo que comigo partilhara as suas ideias e a sua bebida e de antipatia pelo meu interlocutor. E porque haveria de se tratar precisamente daquele e não de outro Jesus qualquer? Inclusive, para espanhol, falara comigo num francês sem mancha de sotaque. Se no entanto fosse o culpado, teria sido ele, antes de mais, o primeiro responsável pela morte de Paulo. E dos outros, claro. Além de que, se não falasse agora, ninguém me entenderia se mais tarde lançasse a mão à testa, exclamando “É verdade, encontrei lá fora um tal Jesus!”
“Como é que era esse Jesus?”, indaguei.
“Porquê? Conhece alguém com esse nome?”, interveio William Allum.
“Mera curiosidade”, retorqui.
“Bem, o que interessa então?”
“Nada, nada. Falava-me, portanto, da sua desaparição...”
“Sim. Durante todo esse tempo, eu fui uma espécie de número dois no seio da organização. Então, pedi a Christine que unisse esforços comigo para reagrupar e reorganizar toda a gente e é disso que nos temos vindo a ocupar no decurso destas últimas semanas. Se desapareci, foi para que a grande tarefa encetada pelo seu irmão não desaparecesse...”
Olhei indagatoriamente cada um dos meus companheiros de mesa e perguntei:
“Muito bem... E eu? Porque é que me ocultaram tudo e agora mo revelam?”
“Por minha causa”, pronunciou António, levantando os olhos do prato onde até então pareciam morar os seus pensamentos.
“Sim”, interrompeu William Allum. Percebemos que, de certa forma, se viu apanhado no meio de tudo e decidimos que não poderíamos abandonar um dos nossos”.
“Obrigado”, repliquei, com uma ironia de tal forma evidente que talvez ninguém a tenha acompanhado.
“Vamos ao tagliatelle, que ninguém ganhará nada se se estragar”, convidou António, enrolando uma garfada. E começou a falar de boca cheia, com o ar pachorrento que tão bem lhe reconhecia:
“Recordas-te do meu velho sonho de encontrar o segredo da máquina do tempo?”
“Hmmm-Hmmm”.
“Pois está encontrado! Depois de tantos anos, acabei de desenvolver um pequeno aparelho que te permitirá escapar para uma outra época onde ficarás a salvo dos esbirros que, sem dúvida, mais tarde ou mais cedo haveriam de dar contigo”.
“Uma época onde poderá reconstruir a sua vida”, acrescentou William Allum.
A revelação surpreendeu-me fundamentalmente pela negativa. Sendo verdade o que me afirmavam, tratava-se de algo admirável, mais revolucionário do que todas as revoluções. Mas o que me propunham era que eu, fazendo uso da descoberta, ficasse paradoxalmente fora dela. Em lugar de me enviarem para outra época, não seria aquela uma verdadeira bomba de que o inimigo não dispunha e que poderia ganhar a revolução para o nosso lado? Ocorreu-me que eu me tornara um empecilho e que aquela não era senão uma forma de se livrarem de mim. Voltei-me para Christine para a descobrir incapaz de suster o olhar. António abanava a cabeça afirmativamente, por certo ainda espantado pelas suas próprias capacidades. E William Allum fixava-me com o seu olhar gélido, aguardando que eu pedisse mais pormenores antes de me pronunciar por um óbvio sim. Pensei em aborrecê-los a todos com uma simples nega. Ou em criar algum suspense, abandonando a mesa e pedindo algum tempo para pensar. Mas, se o sangue me fervilhava nas veias, fervilhava-me ainda mais o espírito com as percepções que em mim despertara o episódio do cemitério. Bem vistas as coisas, era certo que não fazia falta alguma, que já nada tinha a perder e que só poderia ganhar com uma mudança de tal forma radical. Seria? Em todo o caso, surpreendi-me a mim mesmo quando, com um murro sobre a mesa, sublinhei:
“Contem comigo! E já sei onde pretendo renascer...”
“Onde?”, inquiriu William Allum com ar de satisfação.
“Sim, onde?”, repetiu António.
Christine continha as palavras. De forma pouco enérgica, pousou a sua mão na minha e acrescentou num sussurro:
“Deves compreender que o aparelho ainda não foi testado em pessoas. No fundo, ainda é um pouco teórico. Só o farás se realmente quiseres...”
Por momentos, hesitei. Mas reuni as forças que me restavam para salientar num tom de voz forjadamente seguro:
“Claro que sim. Mandem-me para 1962”.
Porquê 1962, precisamente um século antes? Andara a ler um livro sobre história do século XX e encontrara interesse numa série de acontecimentos que marcavam aquela época... A conquista do espaço, o apogeu e queda da diva Marilyn, o anúncio não anunciado de uma revolução de costumes com o surgimento dos Beatles e muiktos outros, a crença generalizada no progresso, por aí fora... Dir-me-ão, faits-divers. Sim e não. E daí? Dir-me-ão ainda que o facto de ter lido uma linhas sobre isso não equivale a perceber alguma coisa do assunto... Certo. Nunca ouvira tema algum dos tais Beatles, o progresso nem sempre era louvável e as pessoas e interesses de então eram agora veneráveis esqueletos. Mas percebia à minha maneira. Argumentarão também que poderia ter simplesmente voltado aos dias que tinham antecedido a revolução da minha vida, o que até poderia ser mais inteligente. Ou que poderia ter optado por 1961. Ou por 1963... É claro. Suponho que devo ter engraçado com o número. Um ano suficientemente exótico para captar a minha atenção e suficientemente distante da minha época para me libertar dela. Adaptar-me-ia eu a uma vida arcaica? Nem me senti com vontade de argumentar comigo mesmo...
“1962!”, persisti.
Satisfeito, William Allum soergueu-se na cadeira e pronunciou:
“1962 será, então!”
E voltando-se para os presentes:
“Poderemos proceder à transferência amanhã?”
“Amanhã ao nascer do dia”, respondeu António em voz baixa.
“Perfeito! Ainda bem que tudo se encaminha! Aproveitemos agora esta bela refeição de amigos...”


(continua)

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

IX (continuação)

Acordei com o coração em Mach 2 e uma sensação de peso que me começava no peito e se esgueirava, em veios finos, pelo pescoço acima, até às têmporas, antes de se espraiar, de forma mais potencial que real, numa espécie de raio largo que me descia da testa até à nuca. Pressenti que tinha vivido um grande pesadelo, daqueles que se infiltram na festa de um mundo que não é o seu, absolutamente virais e, mais ainda, conseguem ocultar perfeitamente a sua identidade no meio de tanta brutidão no estado puro. O facto de não me recordar de nada só contribuía para aumentar aquela opressão atordoada. Estaria de novo atacado da recorrência da piscina onde me afundava? Como sabê-lo? Ao meu lado, Christine dormia o sono profundo dos anjos após uma noite de boas acções. Mas eu via-me perfurado por um calor intenso e uma secura que se prolongava das entranhas à carne dos lábios fendidos. Toquei a boca com a ponta do indicador e retirei-a com um fio vermelho-claro de sangue fresco. Ainda ensonado, alarmei-me e dei um encontrão a Christine.
“Sinto-me mal...”, gemi.
Ela fitou-me e levou a mão à minha testa.
“Estás a ferver!”, exclamou. E levantou-se como se nunca tivesse estado, ainda momentos antes, a dormir. “Temos que tratar disso”.
Foi assim, com uma imensa gripe, que começaram os meus tempos em Étampes. E ainda bem! Durante os primeiros dois dias limitava-me a dormir, a dormitar e a gemer para quem tivesse a paciência de me escutar. Logo depois, tive a sorte de dar de caras com a biblioteca do avô de Christine... Recordo-me que comecei por me espantar com o espaço que tudo aquilo ocupava e como estaria mais bem aproveitado e acomodado em memórias artificiais ou em semis, como se chama aos computadores e psicoleitores cujo funcionamento imita o dos neurónios humanos. Mas precisamente todo aquele anacronismo, o odor que se desprendia daquelas folhas amareladas, a estética bizarra e imperfeita das capas muito bem conservadas, picavam-me no fundo de onde quer que eu guardasse a curiosidade. E dei comigo a manuseá-los, primeiramente, de seguida a folheá-los, então a ler frases soltas e a saltar páginas ou a começar por lhe ler o final e, finalmente, a lê-los com uma avidez que me ocupava o tempo e a gripe e que crescia a cada nova descoberta. Era, em tudo, algo semelhante à forma como de um perfeito desconhecido que ninguém nos apresenta, e que talvez até nem seja apresentável, se faz um amigo.
O certo é que, passados os primeiros momentos, a gripe parecia ir e voltar vezes consecutivas e, mais do que prisioneiro em Étampes, eu via-me encarcerado naquela casa, amarrado à minha convalescença. Uma prisão agradável, confesso... Seria fastidioso estar aqui a relembrar as miríades de autores com que travei conhecimento depois de, num primeiro momento, ter encontrado um exemplar do Spleen de Paris que fez as minhas delícias. Corri, assim, toda a galeria dos escritores presentemente desconhecidos ou apenas transformados em vagos ecos, aprendendo a reconhecer as culturas e histórias do proibido Médio Oriente através de nomes tão exóticos como Maalouf, descortinando as contradições do tradicionalmente inimigo gigante norte-americano em obras de Hemingway, D. J. Sallinger, Kerouac e tantos outros, aprendendo as lutas de classes de cores mornas dos mundos perdidos de Jorge Amado ou Erico Veríssimo. Mas já me alongo demasiadamente na descrição da minha descoberta fulcral daqueles tempos. E outras descobertas houve...
Embora sempre presente a meu lado, Christine encontrava-se fora frequentemente. Um dia, sentindo-me melhor, decidi sair ao exterior, ignorando o que poderia encontrar. A casa ficava próxima do que outrora deveria ter sido uma estação de caminhos de ferro. Segui à sorte pelas ruas que encontrava e dei com um pequeno largo centrado por um fontanário seco que me despertou a curiosidade. Onde vira já eu algo assim? Era um grupo de leões alados, de cor esmorecida, que pareciam rugir em uníssono uma marcação de território surda. Imobilizei-me por instantes na análise de cada pormenor da obra, simultaneamente simples e portentosa. Só então percebi que, precisamente no centro histórico do Porto, corria uma fonte em tudo igual, apenas de dimensões ligeiramente superiores! Qual teria brotado em primeiro lugar?
Descobri ainda que Étampes era uma verdadeira cidade fantasma onde o rumorejar da brisa contra as arestas das casas perfeitamente intactas de telhados escuros e inclinados podia soar como o anúncio de um tufão. A todo o redor do casario, sob as nuvens recortadas que compunham odes sinfónicas silenciosas, corria o mato desbragado no que já deveriam ter sido campos cultivados. Por vezes, alarmava-me o ruído súbito da moldura de alguma janela a ecoar sem aviso. Outras, sentia-me como um animal selvagem a quem tinham cortado a trela e não desejava mais do que continuar a perder-me pelo pequeno labirinto daquelas ruazinhas até que a escuridão da noite por iluminar me levasse de volta a casa.
Quando regressei, estava a noite mais escura que jamais vira. Uma luzinha tremeluzente de candeia fantasmagorizava a janela do primeiro andar, o que significava que Christine regressara. Até aí, concentrado nos meus acessos recorrentes de tosse e em devorar o que fosse papel que me caísse das prateleiras daquele casarão, nunca me interrogara particularmente acerca do que ela poderia andar a fazer durante o dia... Desta vez, porém, sentado à mesa de jantar, um pouco mais tarde, interroguei:
“Que tal te correu o dia? O que é que fizeste?”
Ela não poderia ter sido mais evasiva.
“Andei a tratar dos nossos assuntos”, respondeu.
“Estiveste em Lisboa?”, lembrei-me.
“Hmm-hmmm”, acenou-me no meio de uma garfada, sem realmente dizer que sim nem que não.
Estava demasiadamente cansado para insistir e fiz-me de satisfeito com aquela resposta.
Nos dias que se seguiram, como um belíssimo sol insistisse em romper o cerco aéreo das grandes muralhas cor de cinza, habituei-me à minha volta de reconhecimento vespertina. A paisagem repetia-se mas contentava-me, de tão diferente e pela sensação de que, no meio do vazio e dos ecos, tudo aquilo era propriedade minha. Foi numa dessas ocasiões, quando precisamente agarrava uns raios de luz, debruçado sobre o meu fontanário dos leões alados, perfeitamente convencido do meu isolamento protector, que a figura surgiu de uma esquina. Parecia-se, ao menos na minha vaga noção do que isso poderia ser, com um profeta luminoso de outros mundos. Irradiava um sorriso permanente, quase colado a si, à sua longa barba branca e sedosa, ao cabelo escorrido sobre os ombros que reflectia a luz do dia em muitas direcções, aos seus olhos claros, de um azul pálido mas estranhamente fundo, à sua contrastante pele lisa que o revelava mais jovem do que poderia aparentar, aos seus dedos longos e finos, de unhas redondas em meia-lua, bem recortadas, à longa túnica quase etérea, de um rosa muito pálido, quase branco também, que lhe percorria o corpo magro e lhe recobria os pés, transmitindo a sensação de que saberia perfeitamente levitar.
“Boa tarde”, dirigiu-se-me num francês de sotaque correcto em que me pareceu detectar um suave acento alemão.
Por instantes, não encontrei em mim o fôlego para lhe dar uma resposta. Depois, acordei.
“Boa tarde”, meio respondi, meio repeti, intrigado por aquela figura tão diferente de qualquer que alguma vez se me tivesse deparado.
“Está um belo dia para a região e para a época do ano”, disse-me, num tom vocal de quase confidência, sempre fitando-me directamente nos olhos com aquele azul estranho e aquele sorriso dificilmente decifrável.
Na verdade, não tivesse ele transmitido tanta calma e tanta paz, ter-me-ia irritado. Nunca me sentira à vontade com as pessoas que aparentam alheamento das coisas do mundo, que é como quem diz, dos meus próprios problemas no mundo, ainda que só recentemente tivesse começado a perceber o que poderiam ser... Senti, também, um certo ímpeto de o interrogar pelos colarinhos, saber o que fazia no meu território. Por outro lado, eu não passava realmente de um recém-chegado. Limitara-me a concluir, apressadamente talvez, que tomava posse de terra virgem. E era natural que me tivesse equivocado.
“Vive em Étampes?”, interroguei da forma mais diplomática que encontrei.
“Vivemos. Neste momento... Amanhã, quem sabe?”, disse muito vagamente, quase me perfurando com aquela mistura letal de olhar e sorriso.
Vivemos? Nós? Podia muito bem faltar-lhe um ultrabyte...
“Mora com alguém?”, insisti.
“Nós somos um”, retorquiu. “Todos somos um”.
Pausou. De seguida, como se farejasse algo na brisa que se erguia como um redemoinho, recuou um passo. Diria que se assustara com algo se aquele sorriso etéreo não contrariasse inteiramente tal possibilidade. Penteou a barba com a palma da mão em concha e estendeu-ma:
“Bem. Tenho que ir. Espero voltar a ver-te...”
E desapareceu por uma esquina diferente daquela por onde surgira inicialmente.

Nos dias que se seguiram, esperava sempre, no meu íntimo, reencontrar aquela criatura das estrelas e talvez prolongar um pouco mais a conversa, desvendar os seus mistérios, o que o trazia àquele local abandonado. Habituei-me, inclusive, a levar comigo um ou outro livro que me fizesse companhia enquanto esperava que surgisse de uma sombra qualquer... Mas, à mesma hora e a outras, a praça dos leões alados mantinha-se empedernidamente, quase misteriosamente, silenciosa face ao meu desejo.
Numa dessas ocasiões, naquela altura do dia em que o sol se amarela e as paredes brancas parecem enrugar-se em tons mate de fotografias pioneiras, um torvelinho de poeira atacou-me de um acesso de tosse insustentável e empurrou-me psicológica e fisicamente para além da praceta, ruas adiante, em círculos cegos, até aos limites do casario. “Conservatório de Música de Étampes”, “Pâtisserie”, “Bistro”... O silêncio que brotava dos letreiros gastos e tombados como se se recusassem a acordar de um coma de mil anos obrigava-me a prosseguir. Mentalmente, chamava por alguém que se escondesse entre alguma fresta de vento sibilante, mas os meus passos ressoavam demasiadamente alto na calçada como a única resposta possível. É verdade que as repetidas ausências de Christine começavam a abandonar-me a um estado de solidão latente que me vinha de encontro às têmporas em marteladas ainda apenas vagamente perceptíveis mas tenazmente crescentes... Finalmente, dei comigo a percorrer uma estradazinha ascendente de terra onde o silêncio era ainda mais agudo. A passos dados, cheguei a um local onde, à minha esquerda, além de um muro, se estendia um pequeno cemitério, muito branco e abandonado, cujo portão, que a ferrugem fazia ocre, guinchava num lamento balançado para cá e para lá. Estranho que nunca nele tivesse reparado... Uma nuvem escura encobriu momentaneamente o sol tardio e decidi explorá-lo enquanto a luz mo permitia.
As grades gemeram e fecharam-se atrás de mim com um ruído surdo. Havia ali algo de história de terror! Mas a mim, habituado que estava aos truques da escrita e devorado por uma curiosidade que me parecia a única forma de escapar ao ócio excessivo, isso não impressionava. Ia lendo as inscrições cobertas de musgo das campas, espreitando para o negrume interior dos jazigos... Algumas datavam bem de períodos dos quais algumas leituras que vinha fazendo me davam conta de que pouco conhecia de facto. Outras estavam mais próximas no tempo, mas todas me pareciam romanticamente arcaicas na imobilidade intocada da sua ruína. Quantas lágrimas se tinham vertido sobre o mármore daquelas sepulturas? Lágrimas de mortos, no entanto... E, para mim, homem da segunda metade do século, estavam tão secas quanto, por vezes, o meu estado de alma. Os jogos de rendilhados das nuvens que se adensavam lentamente derramaram um foco ténue sobre uma das campas. “Como um sinal num palco”, pensei. Afastei a poeira acumulada com a palma da mão e sentei-me, à procura de meditar.
Nas histórias, não poucas vezes, as coisas mais estranhas acontecem de repente, quando já nada nos levava a contar com elas. E o mesmo, concluímos depois de uns bons anos de cepticismo juvenil, se pode afirmar da realidade... Voltei-me em direcção ao portão do cemitério num impulso intuitivo. Logo diante de mim estava o desconhecido da praça dos leões, como que flutuando num sorriso beatífico, embrulhado na sua longa túnica branca, os pés descalços cobertos de uma fina película de pó cinzento do chão. Saudou-me com um gesto suave, simultaneamente pedindo silêncio, e sentou-se sobre uma sepultura próxima. Mantivemo-nos estáticos e silenciosos durante um período de tempo que não contabilizei. O sol parecia teimar em não se pôr e prosseguia o seu jogo de luz e sombra entre as ameias das nuvens altas. Depois, uma pomba branca surgiu de entre aquela natureza deserta, voltejou três vezes sobre si e foi pousar no seu ombro.
“Boa tarde, Espírito Santo”, disse-lhe o desconhecido.
Não me contive:
“Espírito Santo?”
Fitou-me directamente e estendeu-me a mão:
“Pois claro. Bom nome para uma pomba branca, não?”
Pausa.
“O meu nome é Jesus”.
Nova pausa.
“Desculpa não me ter apresentado antes...”
Conhecia o suficiente das superstições que acompanharam o homem europeu até ao tempo do cataclismo para compreender que só ali faltava Deus Pai Todo Poderoso. Mas esse, aparentemente arredado do mundo desde a época da criação, era pouco provável que aparecesse. Tinha finalmente satisfeito a minha curiosidade. A personagem intrigante que me deixara pensativo não passava de um lunático a quem alguém se esquecera de implantar um chip e que me parecia, ainda assim, perfeitamente feliz... Envergonhei-me vagamente do meu cinismo. Mas não o suficiente.
Jesus retirou de um bolso dificilmente apercebível uma pequena garrafa de metal baço e amarelado e, com um gesto, convidou-me a beber. Como eu tardasse em responder, indagou:
“Não és daqueles que se opõem terminantemente ao álcool?...”
Abanei a cabeça negativamente, estendi a mão e emborquei um gole que me ardeu garganta abaixo. Ele riu-se da minha careta:
“Bom, hã?”
“Sim. Bom!”
Ficámos ali a sentir o frio das sepulturas, a observar as figuras que as sombras das nuvens desenhavam sobre o terreno, a trocar goles e a conversar...
“Jesus não é um nome comum...”, disse eu.
O meu interlocutor acenou que não, manteve-se pensativo por um instante, sorriu e começou a contar:
“Não é, de facto. Mas não penses que sou um desses fanáticos religiosos, cobertos de dogmas e preconceitos, que se escondem pelos muitos cantos da Europa... O meu pai já se chamava Jesus e o meu avô, que era espanhol, também. É, ou era, um nome comum em Espanha. Digamos, uma tradição familiar. Assim como não nos escondermos. De resto...”, largou a pomba que desapareceu numa revoada, “... esta pomba, adoptei-a aqui em Étampes. Achei piada a que voasse por paragens tão desoladas e comecei a alimentá-la. Assim se fazem amigos. Também por piada, baptizei-a com o nome de Espírito Santo...”
Disse-lhe que não sabia nada sobre esses “fanáticos religiosos”, que nunca tivera o prazer de conhecer nenhum.
“Tens a certeza? Certamente que não correriam o risco de andar por aí a propagandear ideias quando isso só lhes poderia trazer problemas e perseguições. De resto, o que é que tu fazes por cá?”, respondeu-me.
Lembrei-me, antes de mais, de tudo quanto fizera, de como vogara bem nas águas do regime, de quanta propaganda lhe fizera sem medir as palavras e o que as subjazia, de como me sentira vaidoso de cada vez que um livro chegava a best-seller e importante quando recebia prémios e me homenageavam. Pensei em quanto me julgara feliz e realizado. Surgiu-me a imagem-relâmpago de Anamaria... Ria, gargalhava e abraçava-se-me muito, com os olhos semicerrados em meia-luas castanhas, a respiração quente e arfante a chegar-me à nuca. Estávamos alongados, certa noite de Verão, na areia fina da praia privativa de um conhecido. Conseguíamos ver as estrelas todas, a Via Láctea inteira, o disco enorme da Lua, mas eu só tinha olhos para ela. De seguida, o rosto de Christine surgiu e diluiu o éden. Que afinal era o inferno... Quanto mudara a minha vida desde então! Senti um carinho triste por Christine. Mas a tristeza brotava inteiramente da minha sensação de perda do paraíso... Quando os meus olhos se refixaram no momento, notei que Jesus aguardava uma resposta.
“Os pais da minha namorada viveram aqui e ela quis vir em busca de recordações”, semi-menti.
Ele abanou a cabeça concordantemente.
“É um bom local para procurar recordações”, disse. “Como uma velha fotografia em que um dado tempo se escondeu”.
“Porque o sítio é perfeito para alguém se esconder...”, provoquei. “O medo das radiações... Ninguém se lembra de cá vir”.
Jesus ponderou:
“Toda a gente se esconde de alguma coisa. Mas eu não. Estou aberto ao mundo e até às radiações deste mundo. Mas este mundo não é meu. Ou então... gosto de andar assim de um lado para o outro. De procurar, tentar compreender o mundo. Gosta da solidão e da sensação de encontrar alguém inesperadamente em locais inesperados”.
A pequena garrafa continuava a rodar ao ritmo daquela conversa um pouco hermética. De repente, Jesus abriu-se, como que iluminado por uma ideia que eu próprio não ousava verbalizar:
“Devemos ser mais ou menos da mesma idade... Como tu, ensinaram-me a só acreditar no que vejo. Trouxemos a religião à baila... Se alguém se atreveu a falar dela, ridicularizou-a. Quem não se tiver atrevido, omitiu-a propositadamente” – traçava abstracções no solo com o dedo grande do pé direito – “Mas eu sou naturalmente curioso. E é por isso que acabei por perceber alguma coisa de religiões. Não acredito nas grandes cerimónias políticas, sociais ou religiosas, mas creio no indivíduo enquanto potentado capaz de ascender numa direcção positiva, quero dizer, generosa e desinteressada. Acredito, portanto, na religião que pode jorrar do interior de cada ser...”
Parecia que me arrancava do coração as palavras que gostaria de ser capaz de pronunciar se algo dentro de mim não me forçasse a achá-las ingénuas e inadequadas.
“Não creio que se trate de um ponto de vista ingénuo”, surpreendeu-me o meu interlocutor.
“Não, claro que não!”, atalhei, quase atrapalhado.
Mas a curiosidade aguçava-se-me mais do que a atrapalhação e perguntei:
“Já lhe... já te aconteceu encontrares religiosos?”
Ele sorriu e coçou o queixo de forma que, a mim, me pareceu enigmática:
“Já. Mas eles não sabiam”, respondeu.
“Não se apercebiam?”, especifiquei.
“É. Mais ou menos”.
A garrafa esgotava-se agora, o que começava a dar-me uma hilariante vontade de confessar o que, de facto, fazia em Étampes, de me escancarar. Se se tratasse de um esbirro do regime, talvez já tivesse dado conta de mim, o que quer que isso significasse. E se fosse algum hipócrita pronto a dar com a língua nos dentes, estaria eu pronto a dar conta dele. O que quer que isso pudesse significar... Se, por outro lado, pertencesse a algum eventual grupo desconhecido de resistentes, só me ficaria bem. Vagueava... Não tinha a certeza de que o raciocínio estivesse correcto mas o álcool ajudava-me a achar que sim ou que pouco importava. Além do mais, se tinha alguma glória na vida, talvez fosse exclusivamente essa e não só precisava de desabafar como também de me sentir um herói. Senti até vontade de o convidar a ir lá a casa... Será que Christine lhe acharia graça ou, pelo contrário, zangar-se-ia com a minha indiscrição? “Se quiseres, convido-te para jantar. Posso servir-te Bordeaux”, pensei antes de falar mas, entretanto, Jesus ergueu-se, estendeu-me o último gole e interrompeu-me a tempo:
“Fiquei com a divertida impressão de que o meu nome e a minha indumentária te puseram a pensar se eu não seria uma espécie de Jesus Cristo ressuscitado... Não terás uma ponta de misticismo nessa cabeça?”
“Misticismo? Não acredito em balelas! Vivemos num mundo material, certo?”, defendi-me. “Acredito na ciência e na razão”.
Vi-o lançar um olhar esguio, com um traço de tristeza nostálgica, às nuvens que agora se moviam mais rapidamente sobre nós.
“Hmm, também acho que Jesus não teria clientela nos tempos que correm. Vá, bebe...”, disse.
No momento em que me preparava para levar o gargalo à boca, sobressaltou-me a presença repentina de um pequeno escorpião junto aos meus pés. Ergui-me de um salto, a garrafa escapou-me das mãos e uma mancha de álcool foi aterrar precisamente no dorso do aracnídeo que, de imediato, se lançou em rodopios enlouquecidos sobre si mesmo até, por fim, cravar o espinho do seu veneno no próprio corpo e definhar, definhar, até tombar inerte ao lado de uma cruz inclinada e lascada no topo, onde um líquen espesso ocupava o espaço vago. Uma rajada de vento trouxe-o de volta até junto dos meus pés que o empurraram num esgar reflexo de estupefacção. Por instantes, o meu olhar colou-se àquele pequeno pedaço de suicida incompreensível e atirou-se, como ele, pela poeira do chão sem destino.
Foi então que me senti tomado de um pânico súbito... Como se uma compreensão que sempre tivera presente mas sempre me escapara, também ela atirada à toa nos recantos da minha mente, subitamente desandasse a gritar e a ecoar, dolorosamente amplificada contra cada osso do meu crânio. Eu era aquele escorpião! Convencido do meu poder, da minha vontade, da minha capacidade, irracional e iludido a esse ponto, eu vivera a minha vida às voltas sobre mim mesmo e era, na verdade, suicida. Pior ainda do que aquele escorpião, porque falhara até no suicídio, eu era aquele escorpião! Procurei conter o coração que repentinamente me acelerara, racionalizar o sangue que subia e se me cravava no calor do rosto com tenacidade. Jesus deve, nessa altura, ter percebido que algo se passava, já que pousou a mão no meu ombro e eu, ainda que tenha sentido vontade de repelir violentamente aquele corpo estranho, não fui capaz de o fazer. Pelo contrário, o toque humano acalmou-me, trouxe-me de volta a mim, lenta mas seguramente. Creio que o tempo que tudo isto tomou deve ter sido muito menor do que aquele que efectivamente me pareceu tomar. Por fim, respirei todo o ar que os meus pulmões puderam conter e afastei a sua mão. Estava praticamente sob controlo, salvo pela descoberta súbita e dolorosa que se me colava ainda, não como uma segunda pele, mas sim como uma única pele impossível de apagar. O rodopio do escorpião! Era eu...
“Tens problemas com escorpiões?”, inquiriu Jesus com seriedade.
Limpei o suor que se me colava à testa com as costas da mão.
“Não... Sim, acho que talvez...”
“Não te preocupes... É normal ter fobias”.
A minha fobia, acabara de o descobrir, era eu mesmo ou aquilo que tinha sido. Mas, no fim de contas, não teria eu feito algo de útil, pelo menos a partir do momento em que me apercebera das injustiças do humanismo e agira, mesmo tendo perdido tudo dessa forma, o contacto com a família, os amigos e os conhecidos mais agradáveis, os meus bens materiais? Não. Nem isso... Até aí eu tinha sido arrastado e talvez nem me tivesse apercebido de imediato das consequências exactas das minhas acções. E, no fundo, estava farto, aborrecido, tinha curiosidade em conhecer a vida além da vida e nem sequer era capaz de mais do que de escrever textos proibidos e guardá-los nas frechas aparentemente mais seguras da minha casa... A minha verdadeira fobia, acabara de a descobrir... Eu às voltas comigo mesmo, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos, até me acabar. Com toda esta cascata de ideias a rodopiar-me no cérebro como o escorpião, só encontrei presença para responder:
“Obrigado”.
“Não tens nada por que agradecer”.
Estendeu-me a mão e senti-lhe o aperto firme, enquanto me dizia:
“Está a escurecer. Vou-me embora...”
E quando acabávamos de deixar para trás o ronco do portão:
“Como não nos veremos mais... boa sorte para o futuro!”
“Podemos sempre encontrarmo-nos por aí. Pelo menos, durante algum tempo...”, contrariei.
Jesus fixou-me por breves instantes com um olhar que, até então, não percebera de facto até que ponto era claro e penetrante. De tal forma que tive que desviar o meu próprio olhar.
“Não...”, disse por fim. “Basicamente já vi o que queria ver e está na hora de mudar de poiso”.
Encolhi os ombros. Agora que o conhecera um pouco, ficava com pena de não o poder vir a conhecer um pouco melhor. Mas apertei-lhe uma vez mais a mão e fiz meia volta desejando-lhe, por meu turno, boa sorte.
Não me tinha afastado uma dúzia de passos e voltei-me para trás com a ideia repentina de que poderia, eventualmente, querer dizer-me para onde iria a seguir. Se é que tinha um plano... As paredes brancas do cemitério, folhas secas empurradas pelo vento, o caos da vegetação verde-escura do fim de tarde, o caminho por onde chegara, o céu e as nuvens, o bulir sereno da natureza deserta, tudo estava no sítio como que para me garantir que havia uma ordem no universo... Tudo menos o homem de trinta e tal anos que acabara de deixar naquele mesmo local. Teria estado a falar com um morto?
“Bizarro”, pensei. E daí, talvez tivesse seguido por algum atalho...

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

IX

O meu exílio... Começou em Étampes, pequena vizinhança da ponta extrema da que outrora fora a cidade-luz, uns sessenta quilómetros ao sul da antiga Paris. E por uma boa razão: Christine ainda aí possuía uma velha moradia, refúgio perfeito ainda que a necessitar de obras, que pertencera ao seu avô, um artista contrariado em grande parte da vida, mas que obtivera algum sucesso relativamente tardio e desajustado. Na cave, um grande espaço dotado de largas aberturas a todo o redor, agora húmido e lar de famílias numerosas de baratas que me entretive a desalojar com uma ponta de asco, já perto dos quarenta instalara um atelier de pintura, era então o pai de Christine um menino em idade escolar. Aí realizara alguns dos seus trabalhos mais interessantes, composições abstractas na maioria, actualmente tombados no esquecimento.
Roger Couvrot... Ao não se fixar num estilo único, senão o da sua própria mão, começou por atrair a desconfiança de artistas plásticos comodamente instalados em ateliers, galerias e amizades. Depois, assistiu ao afastamento progressivo de antigos colegas de estudo que, por sua vez, se iam instalando em pequenos grupos e tendências, apadrinhados por alguns dos anteriores. O orgulho teimoso que patenteava enquanto jovem também não ajudava... “Se não gostam de mim, que é que querem que lhes faça?”, raciocinava. E assim começou a dividir o tempo entre um ganha-pão detestado, o de professor liceal, e a pintura, cada vez mais encarada como ocupação séria dos tempos livres – os únicos em que respirava e que, ao fim e ao cabo, já nem eram assim tantos! Chegou então o tempo de desventura para os que o haviam abandonado... Ou que lhe haviam permitido abandonar-se. Nessa altura, o abstraccionismo, odiado durante anos, engoliu as tendências neo-figurativistas em que se tinham envolvido. E Roger, que nunca desistira inteiramente de trabalhar e que ultimamente calhara de colocar de lado tudo o que, ainda que vagamente, o recordasse dos que considerava seus traidores, começou a granjear os favores de uns quantos iluminados, muitos deles altas individualidades que, ainda assim, talvez devido ao tipo de atitude vagamente antisocial que desenvolvera na sequência do seu falhanço de juventude, não chegavam para dele fazer mais do que um espécime interessante que vendia quadros subvalorizados para decorar paredes de casas ricas. “Tudo há-de melhorar! Ainda hei-de obter o reconhecimento!”, prometera muitas vezes ao filho único, com um misto de vontade e contravontade, enquanto este, silenciosa e admirativamente, se sentava a um canto, observando o pai distribuir pinceladas e golpes de espátula com precisão e energia. “Tudo se há-de compor!”, garantia. A democracia musculada, que não ainda a autocracia futura, instalava-se então já nos corredores da Europa. E o miúdo, depois adolescente e jovem, acreditava religiosamente naquela promessa. Quando, mais tarde, saiu de casa para estudar Ciências Políticas e Diplomáticas em Estrasburgo, um favor que o pai lhe conseguira por intermédio de um dos seus admiradores importantes, acabara por perder muito do contacto e da fé que tão longamente acalentara. Nas alturas em que chegava de visita, pleno de novas noções e pontos de vista, encontrava o pai mergulhado nas suas telas e naquela cave desmesurada, mas já não gastava mais de cinco minutos na admiração desassombrada daquela actividade irrealista.
Talvez como reacção à proximidade que antes existira, o relacionamento entre pai e filho azedara. Não é que o filho realmente desprezasse a atitude entre heróica e comodista do pai ou que lhe incompreendesse a arte. O pai, por seu turno, era suficientemente capaz de entender o afastamento do filho por um ideal, certo ou errado, de juventude. Mesmo se um travo amargo de traição calada não deixava de se intrometer entre ambos... As visitas passaram a ser mais breves e distanciadas, à medida que o tempo decorria e Jacques Couvrot, o filho, terminava os estudos com distinção e começava a dedicar todo o seu tempo à carreira, primeiramente como funcionário em Tóquio e, seguidamente, como cônsul em Ouagadougou e Brasília e embaixador em Gaza, a nova capital israelo-palestiniana. Nem mesmo a morte da mãe, de um tumor cerebral fulminante e ainda então incurável, fez mais do que aproximá-lo por uma semana da casa onde vivera a infância, para logo regressar aos seus afazeres diplomáticos e a um livro de memórias prematuro que nunca chegaria aos escaparates das livrarias, às estantes das bibliotecas ou aos ecrãs dos computadores.
Foi em Gaza que conheceu Marta, jovem professora de português na universidade Ben Gourion, descendente de judeus lisboetas de estirpe e mulher de espírito livre e aventureiro. Isso, antes de o país, israelitas e palestinianos finalmente unidos na medida do possível, desaparecer do mapa no ano de má conta de 2034... “A tua mãe soube apaziguar-me os piores ímpetos da juventude. Com uma facilidade tal e de tal forma inesperada que ser-me-ia impossível não a ter amado e admirado...”, confessara, certa vez, a Christine. “Foi ela que me convenceu a regressar a Étampes e a fazer as pazes com o meu passado e, mais importante que tudo, com o teu avô... Após seis anos em que simplesmente me esqueci de com ele trocar mais do que meia dúzia de palavras. E, se queres realmente que te diga, nem sei bem porquê...”
O que quer que Roger tivesse para engolir, engoliu. Como os pais normalmente se mostram dispostos a fazer com a sua prole, seja por algum traço geneticamente programado, seja por aquele golpe emocional a que geralmente chamamos amor. “Tive saudades tuas...”, limitara-se a comentar. “Querem tomar alguma coisa ou gostariam de dar uma olhadela às minhas telas mais recentes? Ou ambas as coisas?” Por essa altura, Jacques decidira-se a abandonar as suas itinerâncias e a instalar-se definitivamente num cargo administrativo do ministério dos Negócios Estrangeiros. Com os conhecimentos adquiridos no decurso dos anos mais recentes, não lhe foi difícil e sempre era uma forma de ficar mais perto do pai e de recuperar um pouco da identidade que, entretanto, sentira que tinha vindo a perder. Algo de tanto mais importante quanto, na época, a teleportação ainda não passava de uma experiência complicada de que muitos duvidavam e a que poucos se atreveriam...
As relações estreitaram-se. Não com a intempestividade de um raio fulgurante mas antes com uma naturalidade idêntica à que conduzira ao isolamento. Ao fim de algum tempo, aquela casa preenchia-se de novo com alguma alegria, à medida que o fantasma da mãe se diluía no dossier insondável das fatalidades incontornáveis e Roger retomava o fôlego criativo que lhe escasseara durante os anos anteriores. O nascimento de Christine constituiu motivo de um imenso júbilo e o avô prendou-a com uma pequena tela, preciosa e radiante, um dos seus poucos trabalhos figurativos desde a juventude, que vinha preparando ciosamente, pormenor a pormenor, quase desde que conhecera a gravidez da nora. A partir de então, multiplicaram-se as idas e vindas entre Étampes e Bruxelas, onde o serviço prendia Jacques, crescentemente desejoso de regressar a Paris e recuperar algo do que então começava a recordar como os melhores anos da sua vida. Tornava-se mesmo uma ideia fixa... Contra algumas reticências inesperadas tanto do pai como da mulher, começara já a tratar dos papéis necessários à sua transferência para um subcomité parisiense mas vira a sua candidatura recusada. Que a sua experiência fazia mais falta na capital, que francamente um papel menor não lhe cabia, que deveria pensar duas vezes e logo se veria... Repetiu a tentativa duas, três vezes, até acabar por se sentir em Bruxelas como numa prisão. A resposta não variava. Chegou a pensar em abandonar a carreira e recomeçar do zero. Mas seria, talvez, tarde demais para tal... Rico não era. E, de novo, os que lhe eram mais próximos faziam-lhe sentir, ainda que cautelosamente, que agora tinha uma responsabilidade maior e que ela se chamava Christine.
“Quando Paris rebentou, em 2034...”, Christine pousou o olhar, brevemente perdido num ponto qualquer além de mim, a quem contava e confessava toda aquela história, tão familiar, dolorosa e simultaneamente já tão distante, “... eu era pequena e nem me recordo com clareza...”
Quando Paris rebentou, em 2034, a família gozava quinze dias de descanso numa estância da Martinica, entre mares de esmeralda e manchas gritantes de flores, aromas e sonoridades. O estrondo soou nas imagens de noticiários norte-americanos. Paris, Bruxelas, Berlim, Copenhaga, Londres, Madrid, Viena... não eram já mais do que poeira radioactiva da história. Sabe-se lá por que milagre, de entre as inúmeras capitais estaduais, apenas Atenas, Dublin e Lisboa haviam escapado ao cataclismo universal que não poupara nem almas nem a jovem alma europeia.
“Recordo-me de que a confusão se estabelecu em meu redor, lembro-me disso... De ver a apreensão contida na expressão subitamente pesada do meu pai, de sentir a respiração ofegante da minha mãe e de lhes escutar muitas interrogações entrecortadas das quais nada compreendia. Lembro-me de que comecei a chorar e que a minha mãe demorou muito tempo, ou assim me pareceu, antes de pegar em mim ao colo. Depois do que me pareceu uma eternidade, abraçou-se-me e assim ficámos, embalando-nos mutuamente, mais tempo ainda do que a própria eternidade...”
Só as esperanças mais irrealistas permitiriam ainda acreditar que Roger e o mundo que representava não estavam definitivamente perdidos. Ainda que Étampes, como outras localidades suficientemente distantes do epicentro da explosão, se mantivesse orgulhosamente de pé, a radioactividade não pouparia os seres vivos que tivessem tido a infelicidade de se encontrar no plano da ressaca mortal e incompreensível.
Logo, todos os acontecimentos subsequentes se atropelaram. Num esforço sem precedentes e aparentemente impossível, a revolta árabe foi esmagada num contra-ataque inesperado e a capital viu-se transferida, sem argumentações e com carácter de urgência, para Lisboa. Porque não Dublin? Porque não Atenas? Porque não outro local? Alguma escolha teria de se fazer... Quando, após uma espera infernizada, a família reencontrou a Europa após um voo especial, esta já era um sítio mais diferente do que algum dia se poderia esperar. Jacques conseguiu uma espécie de transferência por que tanto viera lutando, precisamente quando dela já desistira e de forma abrupta e indesejada. Informaram-no mal se apresentou nos ministérios recém-instalados... O Estado via-se forçado a uma profunda remodelação dos seus quadros. Ele próprio, atingido por essa vaga, não seria, explicaram-lhe, prejudicado pela mudança. Manteria um salário equivalente ao que normalmente auferia, um estatuto que ninguém sonhara retirar-lhe, mas ficaria, por assim dizer, enclausurado numa espécie de reserva sem retorno.
“Transformaram-me, então, numa estatueta decorativa!”, queixara-se, certa vez, sem mais, à filha. Mas a vida não tem travão e não tardou a encontrar novos prazeres e actividades. A começar pela família. A continuar na cultura, tendo-se dedicado a criar uma biblioteca completíssima que dele fez um homem novo.
“Pode afirmar-se que, actualmente, o meu pai é uma espécie de aristocrata do conhecimento que disso não faz qualquer alarde. Ele tornou-se muito calmo e reservado, percebes?”, disse-me Christine num tom discreto mas marcado por uma ponta indisfarçada de suave orgulho.
Fixeia-a alguns momentos em busca de palavras adequadas àquele momento de descoberta e partilha de uma vida familiar que ela nunca chegara a aflorar. Mas tudo o que encontrei para dizer foi:
“Compreendo...”
Depois, porque senti necessidade de emprestar mais algum sentido à minha pobre reacção, acrescentei:
“Compreendo e amo-te por me contares”.
“Não tens que me amar por isso”, respondeu-me com os olhos ainda húmidos da emoção que algumas das recordações que ali me revelara e certamente muitas outras por revelar, misturadas às primeiras, teriam acordado. “Eu conto-te porque te amo...”
Escutar aquelas palavras, naquele momento, foi das melhores coisas que me poderiam ter sucedido. O amor retomou o seu lugar, sorrateiro e insuspeitado. Não como um dia de tempestade nas escarpas do Atlântico, mas como um dia de calmaria no coração de um Pacífico sonhado...


(continua)

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

VIII (continuação)

A Direcção Regional de Finanças, directamente dependente da Direcção Central de Finanças, do ministério das Finanças, do Banco Central e do Comité de Ministros, em Lisboa, ocupava a totalidade do horizonte visível na área onde outrora se situara o Hospital de S. João e um conjunto de pólos universitários onde se formara muita gente importante da velha guarda. Dali saíra Pedro Alcarva, um importante teórico da economia e o primeiro português a conquistar um Prémio Nobel na área. Eis a razão porque o mastodonte, todo alternado de sóbrio betão e largas áreas espelhadas, se chamava Palácio Pedro Alcarva. O homenageado, entretanto, sempre manifestara satisfação pela homenagem com um sorriso que a mim me parecia disfarçadamente amarelo. Imagino que fosse um tanto tímido e não um real apreciador das coisas mundanas... Quase nonagenário, neste momento, morava teimosamente só numa mansão de estilo aproximadamente gótico, toda em madeira, não longe da marina de Espinho, a uns 30 quilómetros do velho centro do Porto. Das poucas vezes que o vi surgir em público, geralmente no canal nacional europeu de economia, o 111, normalmente para aconselhar e alertar quanto a algum perigo financeiro que pudesse vir pairar sobre as nossas cabeças, pareceu-me até incomodado com tal exposição. E conformado, simultaneamente, como a sua idade permitia. “Se eu realmente fosse capaz de prever o que será a economia europeia daqui a cinco minutos, poderiam passar a olhar para o céu quando quisessem falar comigo...”, ouvira-o dizer, certa vez, simples e obviamente, enquanto compunha um par de óculos vetustos sobre umas espessas sobrancelhas branco-neve e um sorriso enrugado mas fluído. Nunca mais me esquecera...
Uma vez mergulhados nas entranhas do animal, poderia parecer complicado descobrir aonde nos deveríamos dirigir... Não é que tudo não estivesse tão agoniantemente organizado e indicado que nos pudessemos perder... O progresso também era isso: delimitação. Mas eu, guiado até pela ilógica da situação, carregava um pressentimento às costas que me entorpecia os passos...
Ao fundo de um longuíssimo corredor que, como uma rija espinal-medula prolongada em cauda, atravessava longitudinalmente o edifício, entrava-se para uma sala cujo pé direito deveria ter, pelo menos, cinco metros. Uma funcionária controlava a totalidade do sistema a partir de uma mesa central circular ocada no meio e observava, ocasionalmente, através de um olhar habituado de soslaio, o funcionamento das máquinas onde filas de contribuintes se distribuíam para uma consulta ou um pagamento. Acenei-lhe de atrás do vasto balcão de mármore.
“Tem que ir para a bicha como todos”, indicou-me, no momento em que a minha persistência já a começava a incomodar.
Olhei-a incrédulo... Seria uma clone? Não. Demasiadamente indelicada para tal. E não suficientemente intimidante.
“Precisava muito de um esclarecimento”, lancei, sustentando um tom de voz suave e educado.
“Acerca de quê?”, interrogou, mecanicamente, apoiando o queixo sumido sobre os nós dos dedos.
“De um pagamento”.
“Então, tem que ir para a bicha. Como todos”.
“Desculpe, mas não creio que...”
A funcionária deixou cair os braços sobre a mesa, revirou os olhos de forma afectada, suspirou alto, tudo de uma só vez, ergueu-se vagarosamente e veio ter comigo...
“Diga lá, então, o que pretende...”, falou, concedendo um ênfase forçado a cada sílaba, como alguém que há muito estivesse a falar para máquinas e não para humanos.
Abasteci-me da minha paciência mais humana e expliquei... A comunicação. A soma abusiva. Ridícula. O prazo impossível.
“Tem-na consigo?”, interrogou-me com um olhar lateral.
“Sim”, respondi de imediato. Talvez pudessemos chegar a uma conclusão. “Christine, importas-te de me passar o holofax?”
Ao mesmo tempo que Christine me entregava o fax, já a funcionária estendia ambas as mãos num gesto compulsivo de recusa:
“Não, não. Fez bem em trazê-lo. Mas terá que se deslocar ao gabinete de Reclamações. É lá que lhe poderão, eventualmente, resolver a questão...”
Inúmeros corredores, salas, passagens adiante, postava-se o gabinete. A entrada, um portalhão de vidro com a largura de uma varanda quase terraço, permitia vislumbrar a paisagem interior, em tudo semelhante à sala de onde acabávamos de chegar. Um balcão circular no centro e, a toda a volta, uma vasta linha de mármore escuro e pontilhado por terminais de consulta automática. A sala dormia na semi-obscuridade de venezianas cerradas. Mas nada nos elucidava quanto aos motivos do encerramento. Estaríamos fora das horas de expediente? Pressionei o rosto contra o vidro, em busca de alguma explicação menos bem colocada. Silenciosa e vazia, a própria sala dava-me todas as respostas mais fundamentais.
“Vamos perguntar a alguém”, propôs Christine.
Concordei. A poucos passos, um ecrã de informações, encimado por meia dúzia de linhas explicativas do seu funcionamento, dominava a lisura da parede. Desligado, em todo o caso. Experimentei e voltei a experimentar o teclado, mas o ecrã mantinha-se morto, cinzento e silencioso. Em redor, nem vivalma. O corredor era um longo espaço oco, ainda que nos soubessemos observados pelos olhos ocultos de muitas câmaras que ninguém se esforçara particularmente em ocultar... Uma, na quina do topo de uma viragem. Outra, bem sobre a porta da sala vazia. Outras ainda... Do lado de lá, alguém analisaria os nossos gestos ou estariam todos a dormir?
“Acho que deveríamos voltar à primeira sala e perguntar...”, puxou-me Christine.
“À primeira?”, exclamei.
Entretanto, ocorrera uma avaria nos sistemas. A primeira sala amontoava-se, agora, de longas filas de gente incógnita, cansada, atarantada, enervada, consoante... A funcionária, pouco habituada àquele tipo de movimento, misturava-se idealmente com os cansados, os atarantados, os enervados. Movimentava-se quase espasmodicamente, suspirando alto e piscando os olhos com indisfarçado nervosismo e ia avisando a turba crescente que a avaria não tardaria a resolver-se. “Um pouco de paciência”, pedia, claramente impaciente.
Vendo-me avançar na sua direcção, começou por procurar esgueirar-se. Mas não dispunha de muito espaço para o fazer. E talvez um vago sentido de dever a tenha impelido a dar-me atenção:
“Resolveu o seu problema com as reclamações?”
Falei-lhe da sala encerrada, da ausência de explicações, de alguém que as pudesse fornecer. Espetando o indicador pequeno no queixo de forma quase caricata, pareceu ponderar uma solução e lançou-me o seu primeiro sorriso:
“Então, não lhe poderei resolver o problema. Peço-lhe o favor de regressar amanhã...”
“Quando?”, irritei-me.
Com uma expressão séria, quase ofendida, repetiu:
“Amanhã. Não somos máquinas”.
“Nem nós”, replicou Christine, adiantando-se-me. “Que é que há com as reclamações, afinal?”
A funcionária encolheu os ombros, visivelmente incomodada:
“Como é que vou saber? Mesmo que pergunte, as comunicações avariaram...”
“Mas esta é uma situação muito urgente!”, persisti, esticando-me sobre o balcão.
Christine puxou-me de volta. Estendeu o disc bem diante dos olhos da funcionária e perguntou num tom imperativo:
“Não seria possível dar uma vista de olhos e transmitir uma opinião?”
O topete de tamanha insistência paralisou a funcionária. Depois, reagindo, arrebatou-lhe o disc das mãos, examinou-o pensativamente e fez o gesto de o devolver.
“Lamento sinceramente, mas as hierarquias não me permitem ser-lhes de maior utilidade...”, desculpou-se.
O disc balouçava entre as mãos das duas mulheres, numa situação de empate técnico que acicatava a curiosidade. Enfim, com um gesto de brusquidão disfarçada, a funcionária retirou a mão e o objecto caiu, numa pirueta desamparada, sobre o mármore. Alguns olhares inexpressivos das filas mais próximas. A funcionária fixava-nos decididamente embora sem vontade, só técnica e nenhum sentimento:
“Desculpe”.
Quando Christine me viu colocar-me em pontas de pés para desbragar a minha indignação, colocou-me a mão no ombro, ocupou o meu lugar e falou, numa delicadeza quase ostensiva:
“O que deveremos fazer, então?”
A funcionária sorriu de boca, imitando-lhe as maneiras:
“Infelizmente, terão de regressar amanhã...”
“Com certeza”.
Não podia crer em tamanha rendição!... Agora, Christine seguia em frente, porta fora, corredor adiante, edifício até ao fim, com aquele ar empinado de decisão, a cabeça elevada e os ombros lançados para trás, que fazia dela uma resistente decididamente sensual a qualquer status quo. Eu acompanhava-a espantado:
“Então... Ficamos assim?”
Respondeu-me sem se deter:
“E o que é que querias? Gastar as férias ao balcão das Finanças?”
“E voltar amanhã resolve a situação...”
“Certamente que não! Vamos conversar com o William Allum”.
Já quase não me lembrava do jogo do censor... A duplicidade da personagem, no entanto, bem ao contrário de me sossegar, espoletava em mim uma maior perplexidade, uma maior desconfiança. E a história da cicatriz... Uma imagem que, estupidamente, não me largava. Procurei um tom diplomático:
“Confias nele a esse ponto?”
Creio ter falhado no tom... Mas Christine não se zangou mais do que seria de esperar:
“Sim. Não leves a mal, mas ainda tu andavas a escrever panfletos felizes e já ele arriscava a vida pela causa”.
Deu mais uns passos. Pausou e respirou. Sorriu-me e acrescentou:
“Na verdade, não confio em ninguém. Mas se tiveres uma solução melhor...”

Christine era assim... Tão decidida, tão tipicamente Carneiro, que gastou o resto do dia em tentativas infrutíferas de encontrar William Allum para lhe expor a situação. Desalentadamente encostado a um canto da parede do meu escritório, atirado no chão, eu via-a insistir e insistir com secretárias, telefones directos que iam dar a secretárias, serviços que a passavam para outros serviços e para outros... Ainda que a esperança dificilmente morra, a minha já estava definitivamente necessitada de alguma fé – que palavra interessante, tão arcaica, tão afastada do nosso modus vivendi! – na vida além da vida. Por fim, desistiu. Já era tarde e mais ninguém respondia. “Amanhã, falamos-lhe!”, anunciou com um ar desenvolto. Acreditaria na afirmação?
Combináramos acordar cedo e fazer todos os possíveis para falar com o homem. Quando dei por mim, no entanto, um raio de luz trespassava uma frincha da janela e vinha lamber-me as pálpebras de forma desconfortável, estava só. Ao meu lado esquerdo, em apalpões desacordados, descobri que os lençóis azuis, amarrotados, onde Christine dormira já estavam frios. Sem razão aparente, assustei-me e despertei de vez. Olhei as horas... Quase meio-dia! Embrulhado no cansaço dos acontecimentos, dormira demais. Onde estaria ela? Chamei-a três ou quatro vezes, a pausas cada vez menores. Não parecia sequer estar em casa. Afastei a cobertura da cama num gesto rápido, levantei-me e percorri as divisões à procura de alguma nota que se tivesse dignado deixar-me. Nada. Reprocurei e nada. Da mesma forma que me causava admiração, era capaz de me irritar aquele espírito independente que ignorava as necessidades gregárias dos seres mais precisados de explicações. Suspirei conformado. Àquela hora, deveria estar já em Lisboa...
Lembrei-me: há quanto tempo não escrevia? Há algum já. Poderia tentar contactá-la e até seria esse o meu primeiro impulso. Por outro lado, sentia aquela saída sem satisfações para aqui ou para acolá, sequer um esboço de palavra, como uma espécie de ofensa. Atrás dela, eu? Que aparecesse quando quisesse! Mesmo que estivesse a tratar de problemas meus... Era, de facto, verdade que se poderia ter dado ao trabalho de me resolver o problema sem me forçar a acordar e andar de um lado para o outro, apoquentado, e pronto. E pronto! Que aparecesse quando quisesse... Se voltasse a escrever, ocuparia o meu tempo de forma construtiva. E sobre que escreveria? As minhas experiências mais recentes, achava eu, dariam pano para mangas... Dei duas voltas às ideias e comandei a janela para permitir a entrada de mais luz. Uma cor pesada de chumbo iluminado e intenso varreu instantaneamente a parede fronteiriça do escritório e a janela voltou a fechar-se sobre si mesma, fumada como o dia escuro não permitiria. Recomandei... A mesma luz veio embater no meu rosto, apequenando-me as pupilas e logo, teimosamente, o vidro regressou à posição inicial. Malvada avaria que ainda não me decidira a mandar arranjar!
Mais avariada andava a minha cabeça, oca como uma noz chocha, oca de ideias que eu bem gostaria de ter encontrado. Ou antes, ideias havê-las-ia até! Um funcionário do Estado que descobria o amor e a revolução através de um encontro ocasional com uma jovem de formas generosas e sorriso doce... Um cidadão comum que encontrava em si um insuspeitado implante cerebral após principiar a ouvir um zumbido que alastrava e crescia de intensidade e depois de consultar um médico um pouco incomum... Um empresário que descobria o segredo da viagem no tempo e se via perseguido pela sua descoberta... Um escritor a quem, inexplicavelmente, desaparecia a identidade em todos os registos e que, assim, se via transformado numa personagem inexistente... Tudo desconjuntado, incapaz de formar um conjunto coerente de ideias e histórias! Além de impublicável... Ou talvez aquela ausência inexplicada de Christine me enchesse de um sentimento de posse primitivo e me roubasse a coerência... Por onde andaria?
Seis da tarde e nem sinal... Por essa altura, já estava capaz de contactar todos os hospitais mais próximos à procura de quem soubesse dela. Podia sempre dar-se o pior... Mas a paranóia começava a apossar-se de mim e a falar mais alto. Antes de mais, havia que impedi-los a todos de recordarem a minha existência! Certo mesmo era que nunca mais lhes permitiria encarcerarem-me como haviam feito anteriormente. Por onde andaria Christine? E se ela me tivesse vendido? Improvável... Mas ela mesma afirmara não confiar em ninguém. Por que razão haveria eu de confiar em alguém? Esquecera-me, entretanto, de almoçar e só agora, à hora do lanche, me lembrava disso... O tempo arrastava-se como uma lesma gigante e pesada em forma de universo. Começou a atacar-me uma sonolência irresistível... De repente, encostado a uma pilha de almofadas que já dispusera pelo chão, sobressaltei-me diante da noção de poder adormecer. E se me voltasse aquele sonho recorrente da festa, da piscina, das perseguições? Nem pensar em dormir! Então, senti abrir-se a porta da rua e acorri a ver quem era, automaticamente pronto a zangar-me e a reconciliar-me de seguida...
Christine surpreendeu-me e assustou-me ao entrar espavorida casa dentro. O que se passava? O que não se passava? Ela segurava-me a manga com força pela dobra do cotovelo.
“Tens que sair daqui depressa!”, exclamou. “Já!”, sublinhou diante da minha impassividade admirada.
Para que não me restassem dúvidas, empurrou-me porta fora para o corredor e segredou-me imperativamente:
“Não há tempo para levar nada! William Allum desapareceu. Sumiu-se. Volatilizou-se. Acho que o devem ter matado! Neste momento, um par de clones, tropas especiais, encontra-se ao fundo da rua e é a ti que querem!”
“Mas...”
“... nem meio mas! Desta vez não tens segunda oportunidade!”

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

VIII

A seguir ao morticínio de Bath, a preocupação tomou conta das nossas vidas. Despojado de todos os seus principais líderes de uma assentada, podia-se considerar que o Revolução Humanista praticamente, se não totalmente, deixara de existir. Uma espécie de paranóia, não sem alguma justificação, apoderou-se de nós e principiou a tolher-nos as mais simples movimentações. Ir a um café, um bar, um restaurante, quase passara a representar uma aventura. De qualquer canto, por máquinas ou seres humanos, poderíamos estar a ser observados. Quem escutava as nossas conversas? Quem auscultava os nossos actos? Para piorar tudo, das várias vezes que tentei contactar António para uma partida de ténis relaxante, um copo à beira mar ou uma simples conversa de amigos, nunca ele se encontrava em casa e mesmo o seu videomóvel dava permanente sinal de interrompido.
“Deve estar a ser pressionado...”, concluiu Christine.
Acabei por concordar.
Pior do que tudo o resto, no entanto, para já não falar da mágoa de a cada dia me lembrar de Paulo reencontrado, sabendo que nunca o voltaria a ver, para já não falar na necessidade que sentia de dar a notícia aos nossos pais somada à inutilidade aparente do acto que um gesto de cobardia me levou a colocar na prateleira várias vezes, foi quando me comecei a aperceber de que ela se me esquivava a um ritmo crescente e que, quando enfim cedia às minhas arremetidas de macho contrariado, a sentia em todos os lugares excepto comigo, onde quer que nos encontrássemos. Seria eu incapaz de apimentar suficientemente a nossa relação? Ter-se-me-ia a imaginação consumido de vez? Mas porque me haveria de caber a mim temperar o sexo de que os dois desfrutávamos? Talvez eu fosse menos bonito ou interessante do que tivesse chegado a crer... Talvez me estivesse a tornar possessivo e a reparar em coisas que antes me escapavam... E que seria feito de Anamaria? Essa, era boa na cama! Em desespero de causa, colocava a concentração em movimento e procurava conclusões: seria possível que, na verdade, não tivesse deixado de gostar dela? Sempre tínhamos tido uns bons anos juntos... Mas não podia permitir que Christine sequer suspeitasse dos meus exercícios de dúvida metódica. Tanto mais que, um dia, por mero acaso, encontrei Anamaria na rua, cumprimentámo-nos e trocámos meia dúzia de palavras circunstanciais e cheguei a sentir vontade de a encontrar um daqueles dias para um cafezinho. Mas ela traíra a minha confiança, que diabo! Que moleza era aquela? Ao vê-la afastar-se na sua roupa colante, fiquei a observar-lhe as curvas e os movimentos que as acompanhavam e respirei de alívio... Não. A saudade não era muita. Pelo menos, não justificava complicações. Mas o alívio só em parte se justificava... Mantinha-se o problema com Christine. Seria, quem sabe, uma fase tão escura como o momento que vivíamos. E o corpo a falar mais alto do que o cérebro!... Mesmo assim, remoído de despeito e comido de desejo, decidi aguardar que as coisas se compusessem naturalmente.
Foi num desses dias de má memória que recebi um holofax das Finanças. Um contacto desses nunca é coisa boa, por muito que nos tentem fazer crer o contrário, e a minha primeira intuição foi de o mandar perder-se janela fora. Estava sozinho em casa, sem o bom senso de Christine para me salvar. Salvaram-me a minha curiosidade e o meu masoquismo. E rezava assim a comunicação:
“Exmo Sr, revistas as contribuições de V. Exa relativas aos últimos dez anos fiscais e efectuada uma análise comparativa aos depósitos, investimentos e despesas por V. Exa realizados, concluíram os Serviços pela existência de um desfasamento entre as somas referidas. Deverá, assim, V. Exa dirigir-se aos nossos balcões no prazo limite de trinta dias a contar da data de envio desta convocatória, no sentido de restituir a quantia em dívida de 1,5 milhões de euros, acrescidos de juros de 32% a favor do Estado no valor de 480 mil euros, num total de 1 980 000 euros. A dívida não poderá ser liquidada em prestações. Se V. Exa o desejar, poderá, no entanto, realizar o pagamento através da banca virtual. Caso o prazo de pagamento não seja respeitado por V. Exa, o Estado procederá à execução de bens de V. Exa segundo as normas legais e no valor correspondente à dívida em questão. Ficará ainda V. Exa sujeito a detenção, caso não possua bens em valor passível de satisfazer as exigências legais. Sem mais de momento, com os melhores cumprimentos. De V Exa, muito atentamente, uma rubrica ilegível”.
Regressando algumas linhas atrás, devo ter estado a ironizar quando falei na salvação! Talvez na perspectiva negra de Belzebu, um velho demónio de barbicha mal lavada que torturava seres humanos para se deleitar com os seus gritos de agonia... Na minha perspectiva mais imediata, porém, o que poderia ser aquilo senão uma partida de mau gosto? Eu que, com tantos intermediários a beber do meu trabalho, nunca atingira ou me aproximara, sequer longinquamente, do estatuto de multimilionário... Eu, que sempre cumprira escrupulosamente os meus deveres fiscais... Eu!
Entre desandar em voltas compulsivas por meia dúzia de divisões, como um tornado de trazer por casa, e errar brevemente pelos domínios impávidos da catatonia, calhou-me a segunda via. O gole de vácuo só terminou abruptamente no momento em que Christine regressou e se debruçou sobre mim para me cumprimentar. Num gesto mudo e automático, passei-lhe a comunicação.
“Lê!”, mandei.
“O que é?”
“Lê...”
Enquanto lia, eu observava-a, pasmado com a ausência de surpresa e choque solidários que gostaria que tivesse demonstrado. Ao terminar, proferiu:
“Estás a ser pressionado”.
Pressionado... Sim. E como! Mas as contas estavam todas erradas. Não haveria nada a fazer? Alguém a quem me dirigir? No fim de tudo, não me haviam de apanhar novamente nas masmorras... Maldito o dia em que me deixara enredar em patéticos imbróglios revolucionários! Christine cortou-me o rosário de queixumes e protestos mentais com a lâmina fria da lógica:
“Tens as tuas coisas em dia? Facturas, recibos, contratos, despesas, isso tudo...”
Atingia-me num meus calcanhares mais vulneráveis.
“Dos últimos dez anos?”
“Naturalmente”.
A catatonia rodou para o histerismo. Rebentei a esbracejar e a falar em simultâneo, provavelmente em voz muito elevada, esganiçando-me de medo de perder o contacto com as ideias:
“Claro que não! Porque é que havia de ter? Claro, sei porquê, mas não. Sou desorganizado, ok?, desorganizado, pronto, é uma chatice mas não tenho nada! Nada. Nada, percebes? Tenho para aí qualquer coisa e o resto... sei lá! Nada!”
Christine olhou-me de tal forma que me senti como um daqueles bassets que baixam o focinho e nos fixam com um olhar de tal forma triste que dá vontade de os abraçar, afagar e pedir desculpa. Isso deve ter transparecido... Logo a seguir, sorriu-me exageradamente, segurou-me pelo cotovelo e fez-me sentar consigo.
“Desculpa... Sabes que também ando muito nervosa com tudo o que nos aconteceu”, murmurou.
Lançou um olhar viajante além da vidraça mais longínqua e acrescentou:
“Precisávamos de férias longe daqui...”
Falou com aquele sol nos lábios que me despertava calafrios e me obrigava a sorrir também. Há já algum tempo que não lho encontrava... Mas puxou-me do fundo do sofá e encarou-me com decisão:
“A verdade é que não é possível. Agora mesmo, deveríamos ir às Finanças e pedir explicações”.
Como sempre, eu sofria do síndroma do adiamento compulsivo que me obrigava a tratar do assunto no dia seguinte. Ou na semana seguinte... Mas Christine nunca adiava o que quer que fosse. Antes de sairmos, lembrou-se de algo, regressou uns passos e projectou a comunicação das Finanças.
“De que é que estás à procura?”, procurei saber. Era eu, agora, quem não entendia por que razão deveríamos perder mais tempo a rever coisas já revistas. Ela afastou-me com um gesto, sem sequer me tocar. Encerrou a leitura e comentou com irritação:
“Não percebo porque é que continuam a usar holofaxes quando já ninguém o faz!”
Olhei-a espantado. Que tinha isso a ver com o caso?
“Nada. O que me enerva é a data”.
“Que é que tem?”
“A quanto estamos?”
“Vinte e três. Porquê?”
“O fax diz que deves pagar a dívida no prazo de um mês a contar do envio. E a data de envio é 1 de Setembro. O que, em todo o caso, te dá uma semana para tratares de tudo!”
De facto. Não só me pressionavam como, uma vez mais, me perseguiam. A minha vida transformara-se numa roda da fortuna à mercê de algum demónio indeciso de caquético.
“Vamos lá, então...”, suspirei e rosnei em simultâneo.


(continua)

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

VII

Finais de Setembro. Depois de um mês infernal em que, não raro, os termómetros tocaram os quarenta graus e os vinhedos amareleceram na província, não das geadas mas da canícula, o céu toldara-se subitamente. Já desistira de uma saltada ao Sul do Brasil, onde o contraponto das estações tornava o clima mais suportável... Os teleportos já estavam lotados de gente com igual lembrança. Do Norte da Europa, onde me poderia deslocar livremente, estava farto. E aí, de qualquer modo, as temperaturas também não se compadeciam. Mas agora, após uns quantos dias em que alguns farripos tímidos se começavam a esgueirar ao longo da linha do horizonte, a chuva desabara forte sobre o Oeste peninsular, arrastando consigo as temperaturas. Aliviado, estendi-me sobre algumas almofadas distribuídas pelo chão e embrenhei-me na leitura de um romance há muito adiado. Precisamente da forma mais original: em silêncio e no papel.
Marcara com Christine às cinco mas já me perdera das horas, de tão mergulhado que me encontrava nas linhas de O meu Pé de Laranja Lima, um clássico de um autor do século XX que António descobrira algures entre as suas raridades. “Lê-o que não te arrependes”, convencera-me. “É dos poucos livros que me comoveram ao ponto de me trazer lágrimas aos olhos. E eu tenho-o em papel. Lê-o em papel...” “Para dar ambiência de época, não é?”, brincara. Não imaginara até que ponto estava certo... O texto não se limitava a transportar-me ao mundo como era cem anos atrás. Sentava-me directamente diante da representação vívida de uma certa infância de toda a gente. E uma ou outra lágrima chegava a aflorar-me ao canto dos olhos. Como uma melodia triste. Secreta, salgada e imersa em emoções.
Seis da tarde e Christine arrancou-me ao meu sonho. Tocou-me à porta três vezes seguidas...
“Esqueceste-te de mim?”, disse-me, acompanhando-se de um sorriso amarelo mal disfarçado.
Apercebi-me, de súbito, que a mudança do tempo poderia ser o que se considera um prenúncio negro. Esquecera-me dela! Estaria a perder o interesse? Se assim fosse, a simples ideia de uma zanga não me abriria daquela forma, em pleno centro do estômago, um enorme poço por onde não passaria uma sílaba...
“Desculpa...”, balbuciei. Que mais se diz nestas alturas, de improviso e sem meter os pés pelas mãos? “Estava tão distraído...”
“Bem... Não fico chocada”, respondeu-me com um tom de voz capaz de enregelar um morto.
Agora, sentia-me frustrado perante aquela indiferença inesperada. Se é que era indiferença... De qualquer forma, ainda guardava esperanças de que uma crítica mordaz ou uma queixa mais sentida viessem aquecer o ambiente.
“Ainda não me deste um beijo”, queixei-me.
Christine beijou-me ao de leve, deixando-me um gosto a pastel sem açúcar na boca. Agarrei-a pelo cotovelo:
“É só?”, insisti.
Ela ofereceu-me um beijo mais satisfatório. Mas faltava-lhe algo. Logo percebi porquê... Estava, de novo, com aquele ar profissional de ocasião.
“Tenho que te acompanhar a Bath”, disse. “Há uma reunião importante à qual terás que estar presente. Assim como os dirigentes de todos os ramos nacionais. Tanto quanto sei, reservam-te uma missão importante...”
As minhas reservas eram mais que muitas. Não esquecia facilmente a vergonha que sentira no dia do referendo e, mais ainda, a sensação de ter sido eu a espoletar a bomba. Durante o espaço de tempo que mediara entre os dois momentos, aliás, entráramos Rússia dentro sem resistência maior do que a de algumas escaramuças localizadas, Moscovo e São Petersburgo tinham passado a completar o grande mosaico europeu e a respectiva população congratulava-se, em geral, tanto com o facto como a maioria de nós, que sempre vivêramos do lado de cá da “muralha de aço”, como antes se chamava eufemisticamente à divisão fronteiriça que isolava cada um dos lados. Uma acção desastrosa descambara num desastre mudo. De resto, não fazia a mínima ideia quanto a que papel me reservavam. Christine também o desconhecia, ou afirmava desconhecê-lo. E eu preferia achar que, de facto, assim era. Sabia apenas que a ideia me provocava um desagradável formigueiro interior e que, ainda assim, desejava muito levar a coisa adiante. Acima de tudo, para provar a mim próprio – e a Christine – que não era de modo algum um falhado.
Materializámo-nos junto a um pequeno bosque, nas colinas que rodeavam a velha cidade termal do Oeste inglês. À parte um ou outro edifício estatal às faldas da cidade, esta mantinha todas as grandes características de séculos passados, derramadas em escadarias de vivendas perfeitamente restauradas, precisamente as que haviam alojado a alta sociedade da época em que ainda havia um império britânico. Ao fundo do vale, junto à velha catedral e às conservadíssimas ruínas dos balneários romanos, corria o rio Avon – na verdade Rio, na língua dos povos célticos que ali precederam o poderio de Roma -, calmo como um dia solarengo na província. Quem poderia adivinhar que ali se preparava alguma reunião conspiratória de um dos principais grupos rebeldes de todo um continente homogeneizado?
Descemos desapercebidamente uma escadaria construída sobre o local por onde corria a velha estrada de alcatrão, ainda no tempo dos veículos movidos a derivados do petróleo e, mais tarde, a electricidade, hidrogénio e electromagnetismo. Onde passara o ronco rouco dos motores, escutavam-se agora chilreios cristalinos ou a voz de algum passante que, ao cruzar-nos, nos dirigia uma saudação.
Uma vez no centro da cidade, enfeitada por cestos de palhinha que pingavam flores por sobre o pavimento, juntámo-nos aos grupos que visitavam os antigos balneários, assombrados por estátuas de nobres romanos que vigiavam , debruçados do topo de um terraço interior, a pequena piscina de água tépida e opaca que brotava algures no interior da construção que ladeava. Descemos um pequeno conjunto de escadas e mergulhámos na semi-penumbra de pedra arruinada, apenas iluminada por pequenos focos fantasmagóricos. Ao fundo, banhada por uma forte luz amarela, destacava-se a fonte de água sulfurosa, quente e borbulhante. Christine fez sinal a um funcionário a quem, mal chegado junto de nós, segredou meia dúzia de palavras. O homem, uma criatura robusta de barba ruiva encanecida e algum metro e noventa, olhou-me de soslaio e encaminhou-nos para um canto do compartimento.
“Aguardem um instante...”, pediu-nos numa voz muito grave e marcada por um sotaque cerrado, algures do Norte de Inglaterra.
No primeiro momento em que a sala se esvaziou, num local onde não imaginara haver senão uma parede, abriu-se uma passagem para dentro da qual o homem quase nos empurrou.
“Depressa, depressa!”, mandou, olhando por detrás do ombro. Quase instantaneamente, a parede retomara a posição inicial. Do interior de um fundo túnel descendente, escuro e húmido onde nos encontrávamos, via-se perfeitamente a chegada dos grupos de visitantes que acabavam de entrar e distinguiam-se os seus comentários de espanto ou curiosidade.
“Desçamos”, disse Christine, apertando-me a mão com firmeza e levando-me consigo. “Porta-te bem, certo?”
O túnel descia cada vez mais fundo, crescendo em frio e humidade com o avanço dos nossos passos. Christine mantinha a sua mão na minha, mais como uma iniciada responsável que guia um neófito do que como uma amante.
“Sabes onde estamos?”, perguntou, quase não chegando a descolar os olhos do caminho.
Respondi que não tinha a menor ideia.
“Ninguém tem”, comentou. “Estamos numa cidade subterrânea com cinco pisos. Os habitantes construíram-na quando previram a invasão romana. Aqui, ainda que longe do elemento natural que caracterizava os seus cultos, eram livres de não se romanizarem, de não prestarem atenção aos ditames do poder nem aos seus deuses de pedra”.
“Ninguém, ninguém sabe da existência disto?”, admirei-me.
Ela riu:
“Os mestres do presente não tiveram mais sorte do que os romanos!”
“Se calhar nem se lembraram de procurar...”
“Se calhar”.
Adiantámo-nos uns passos.
“Então, os celtas é que construíram isto?”, insisti.
“Porquê?”
“Tanto quanto sei, eles construíam umas palhotas...”
“Construíram”.
Ficámo-nos assim. Por fim, ao fundo de tudo, abriu-se para nós uma grande sala de tecto abobadado e comido por musgos e alguns líquenes ressequidos. O silêncio e a penumbra faziam-se sentir como gigantes míticos de enormes pés descalços. O mínimo som repetia-se em vagas obsessivamente incontáveis, até descobrir a saída de um corredor e ir-se perder algures noutro local. Conseguia ouvir distintamente as nossas respirações, como se ascendessem até à curva do topo, rodassem e regressassem em queda livre.
“Onde vamos, afinal?”, procurei saber.
“Chiu...”, fez Christine, exercendo pressão no braço que me segurava ainda.
Olhou em redor, indagadora, carregando subitamente a expressão:
“É estranho, todo este silêncio...”
Por mim, poderia até ser pesado, mas, ainda assim, perfeitamente normal. Não conhecia o local e a noção de normalidade é perfeitamente variável. Mas o que lia no fundo dos olhos da minha companheira começava a preocupar-me...
“É estranho porquê?”, indaguei.
“Nada, nada...”, sossegou-me. “Vamos”, disse, apontando a passagem de um novo corredor.
Bem me podia procurar acalmar... Agora, uma tensão leve e fina como agulhinhas, do género que costuma preceder as catástrofes – ou os agouros enganosos – passara a seguir-me como uma sombra sublinhada pela escuridão muda do corredor que, cada vez mais, me parecia interminável. A dada altura, atingimos uma bifurcação. De um lado, o caminho estreitava-se, não permitindo a passagem de mais de uma pessoa de cada vez. Seguimos por aí, onde a pedra rugosa nos roçava as mangas enquanto avançávamos em passos rápidos, confundindo o percurso monótono com o flip-flap provocado nesse jogo de toques soltos.
Chegámos a um local onde se apercebia distintamente o gorgolejar da água, despencando em algum pequeno charco escondido atrás da rocha. Christine fez-me sinal de paragem e ficou à escuta.
“É aqui”, disse.
Desenhou um movimento circular de mãos e, como antes, no ponto onde a parede aparentava maior solidez revelou-se uma passagem por onde nos apressámos a entrar. Logo em frente, mostrava-se uma porta discreta, metálica. Ela adiantou-se-me e deu três toques sonantes com os nós dos dedos. Logo depois, postou-se à escuta. Como do outro lado ninguém respondesse, repetiu o gesto e aguardou um pouco mais. Vi-a impacientar-se indisfarçadamente, encostar o ouvido ao metal, impacientar-se mais.
“Que se passa?”, perguntei.
“Não sei, não sei”, respondeu-me, com uma tremura pouco perceptível na voz. “Acho que estou com um mau pressentimento...”
“Experimenta empurrar...”, aconselhei.
Coloquei a minha mão sobre a dela e pressionámos a porta em simultâneo. Esta abriu-se com enorme facilidade, enquanto nos encarávamos, intrigados pelo negrume que transbordava do interior.
“E agora?”, interroguei.
Pelo esgar que se acentuara no rosto de Christine, sabia agora que ela teria razões certas para se sentir apreensiva.
“Entremos...”, disse, depois de um silêncio.
“E agora?”, ressoava-me ainda no cérebro, quase alheio à atmosfera de pesada realidade que pairava no local. Na escuridão, senti Christine lançar um gesto breve em direcção a um sensor. A sala iluminou-se de uma luz amarelenta e mortiça.
Christine soltou uma exclamação surda, levando instintivamente as mãos frente ao rosto. A imagem era digna de qualquer câmara de morte. Não menos do que trinta corpos amontoavam-se no chão de pedra, como se atacados de um sono muito fundo. A luz, ténue e carregada de sombras finas, desenhava rugas imaginárias nas expressões quietas e escurecia-lhes as pálpebras por vezes cerradas.
Primeiro febrilmente, Christine percorreu-os, revirando um, examinando o rosto de cera de outro, enquanto eu, mudo e de braços caídos, a observava da porta. Nunca nos meus rasgos mais inspirados, ou menos consoante o gosto, chegara a materializar semelhante cena na escrita... Então, pareceu-me reconhecer alguém num canto discreto de sombra e avancei um par de passos largos na sua direcção.
“Estão todos mortos!”, exclamou Christine, com uma lágrima mais rebelde a toldar-lhe a vista.
Eu já dificilmente a escutava. O corpo, caído à toa, que acabara de reconhecer pertencia ao meu irmão. Tinha, agora, o seu rosto bem diante do meu. Mantinha-o seguro pelos ombros, contendo alguma repulsa instintiva, e percebia-lhe claramente as pálpebras lisas, serenas e imóveis, os lábios ligeiramente gretados e roxos, uma madeixa de cabelo descuidadamente tombada sobre a testa, tudo embalado numa expressão de bebé adormecido.
Senti-me chocado por algum distanciamento da minha própria reacção, enquanto Paulo jazia imóvel nos meus braços. Nenhuma dor ou revolta. Nada. A sua cabeça escorregou-me e foi-se acabar sobre as minhas coxas. Fixei-o longamente. Depois, desviei o olhar em busca de Christine, que se deixara tombar, sentada no meio da onda paralisada de cadáveres, e enterrava a cabeça entre os joelhos. Os seus cabelos longos roçavam o solo e balouçavam ao ritmo quase imperceptível da cabeça. Abandonei Paulo ao seu sono e acocorei-me junto dela.
“É melhor sairmos daqui...”, sussurrei.
Christine, a minha forte e indomada Christine, não demonstrava qualquer reacção. Parecia contaminada pela causa desconhecida que transformara aquele subterrâneo no palco de um bizarro morticínio. Talvez, no decurso dos dias que se viessem a seguir, os noticiários anunciassem que os líderes fanáticos de um pequeno grupo rebelde se haviam reunido para praticar o suicídio colectivo... Talvez até procurassem ligar os presentes a crenças primitivas de povos há muito desaparecidos, como o dava a entender o local escolhido... E a Nação salvar-se-ia! Ou talvez ninguém estivesse interessado em trazer tal história a lume... Quanto a nós, devíamo-nos afastar dali tão rapidamente quanto possível, isso compreendia-o bem. Sacudi Christine:
“Vamos! Temos que nos escapar daqui!”
Ela fixou-me com os olhos marejados de grossas lágrimas.
“Todos mortos! Todos mortos! Todos!”, repetia-se.
Encostou a cabeça ao meu ombro e principiou a soluçar baixinho. Naquele instante, de algum modo, os meus próprios sentimentos contidos explodiram, como o mar profundo face a um dique enfraquecido, e abracei-a quase ao ponto de a magoar. O rosto inanimado do meu irmão vinha assombrar-me os pensamentos, contaminados por milhões de recordações desencontradas do passado. Não sei por quanto tempo, certamente muito ou menos do que a memória me indica, chorámos livremente sobre o ombro de cada um. Por fim, secaram-se-me as lágrimas e insisti:
“Temos que ir...”
Christine acenou concordantemente. Alisou-me os cabelos com a palma da mão numa concha tensa e suspirou:
“Somos adultos, não é? Talvez já não tenhamos direito a sonhar...”

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

VI (continuação 3)

Imaginei contar com, pelo menos, um bom tempo de afastamento de toda a confusão. Nos dias que se seguiram, os media calaram quaisquer referências directas à destruição do Fórum. Em lugar, Álvaro Cabral emitiu um comunicado em que lamentava “ a perda de vidas e de um símbolo da Nação às mãos criminosas das hordas terroristas”, prometendo “justiça a todo o custo”. “É certo que nenhum cidadão pôde ficar alheio ao drama vivido no domingo passado”, sublinhou. “E é precisamente em nome das vítimas inocentes, dos seus familiares e amigos e de todos nós, ultrajados no âmago, que faço meu o desejo claro de todos os europeus: o processo de anexação seguirá em frente!”. Fiquei sem palavras. Em qualquer outra altura, a decisão ter-me-ia soado a um puro acto de justiça e uma honesta homenagem a todos os que, directa ou indirectamente, haviam sentido as consequências da destruição e os perigos futuros que esta espoletava. Agora, no entanto, tudo se me afigurava uma mera farsa... A anexação estava decidida muito antes da convocação de qualquer referendo.
A minha família mais próxima, coitados, manifestava o sentir do seu “espírito humanista” no apoio garantido ao chefe de Estado. Inclusive, a minha mãe decidiu participar numa marcha de velas através das ruas da cidade, recordando as vítimas da explosão e louvando a determinação da capital. Tanto insistiu em que me juntasse a ela, que me vi forçado a acompanhá-la... Da Maia às Antas, das Antas à Ribeira, da Ribeira à Boavista. Uma caminhada interminável que não se me apagará da memória, marcada por rebentamentos patrióticos de populares e por palavras de ordem repetidas exaustivamente, exigindo justiça e apoiando a concretização da “Grande Europa”. Em cada canto do continente, aliás, repetiram-se manifestações semelhantes, secundadas por multidões fervorosas. Quanto aos amigos que me haviam esquecido durante o período da minha detenção e que, agora, se reaproximavam entusiasmados pelo sucesso recuperado, não me expunham a menor mancha de reticências diante da atitude do Governo. Pelo contrário, revelavam-se ainda mais firmes e exigentes, arvorando pequenos discursos inflamados com os quais me via forçado a concordar. O que, então, mais me preocupava, vistas bem as coisas, era o verdadeiro tiro pela culatra que representara a acção do Revolução Humanista. Que espécie de revolução pretendiam fazer estalar contra a vontade geral dos europeus? Claro que nem de outra forma as coisas se poderiam passar... Por mim, cada dia concordava mais naturalmente, ainda que de modo absolutamente secreto, com a acção. Se não com as tácticas, ao menos com os princípios. E divertia-me tristemente com a noção de que tanta daquela gente, tanta gente, vivia satisfeita e concordante por intermédio dos chips cívicos que nunca imaginariam guardar em algum canto do cérebro...

Um fim de tarde, cansado da solidão e de companhias mais ou menos forçadas, decidi ir espairecer ideias no longo passeio marítimo da Foz, o Palmeiral, próximo do local onde o rio Douro, descendo de Espanha em alegre cavalgada, ganha calma e se mistura com o Atlântico. Tantas das minhas melhores recordações se reportavam aos seus bares e esplanadas, aos seus areais banhados pela energia dourada de dias quentes ou pelos dias impiedosamente belos de tempestade! Nos meus primeiros e mais entusiásticos tempos de escrita, costumava estirar-me indolentemente a uma mesa do Some Song, uma bela esplanada com guarda-sóis azul-eléctrico, um esplêndido ecrã circular e música ao vivo quase o dia inteiro. Aí encontrava ideias... Carmen, uma cabrita lindíssima com olhos azuis de tigreza, que namorara e nunca mais se me varrera da memória, conhecera-a numa dessas ocasiões. Outras mulheres ligavam-se, também, àquele espaço amplo e salgado, muitas delas já bastante diluídas no cálice de distorções do tempo. Mas as situações, os lugares, mantinham-se tão nítidos como se tudo se tivesse passado na semana anterior.
Liguei ao António e surgiu-me a sua imagem, gravada naquele tom semi-afectado de quem deixa uma mensagem para qualquer ocasião: “Estarei em Chaniá até 15 de Setembro. Por favor, deixe a sua mensagem e o seu contacto”. Também, não me ocorria muito mais gente com quem me apetecesse estar... Que horrível percepção, a de nos encontrarmos rodeados de tanta gente a que pouco nos liga além de ténues pontes de tédio!
Como tais pontes dificilmente possibilitariam a travessia para qualquer Citera, dei comigo num lento percurso entre o antigo forte do Castelo do Queijo e as casa baixas da Foz Velha. Atrás de mim, o parque Fernando Gomes, com os seus passeios calmos, riachos atravessados de pontinhas côncavas, o parque marítimo que se estendia por túneis quilométricos lançados sob as águas costeiras e o seu zoo, um dos melhores da Europa, que já fechara portas, abandonando-se à desolação nocturna de umas quantas almas penadas que a luz do dia, ciosamente controlada pelas autoridades municipais, dificilmente revelava. Já ao longo do Palmeiral, o panorama era todo outro... Muita luz. Sons cruzados. Ciclistas improvisados, ginastas de fim de dia, patinadores velozes, artistas de rua, grupos ruidosos de amigos e pares apaixonados. Em plena Europa, onde as ruas adormeciam à hora do jantar, o Sul não permitia que lhe roubassem a festa. Faltava apenas a correria atabalhoada de alguns cãezinhos de estimação, retirados das ruas da cidade por uma velha lei dos anos quarenta. Mas eu corria a um ritmo diferente, feito de melancolia nostálgica e prazeres inexplicáveis... À falta do Some Song, remodelado num irritante playcenter de viagens virtuais pelo espaço sideral, estiquei-me bem no centro de um banco de madeira pintada em vermelhão descascado, estendi os braços como se me acompanhassem duas belas mulheres e concentrei-me na visão do sol poente. Sempre banal e sempre tão sugestivo, inventando imagens na superfície invulgarmente plácida das águas!
Um molho de dedos suaves roçou-me a nuca e perdeu-se além dos meus cabelos. Um toque delicioso, ainda que não familiar. Voltei-me. Christine, quem mais?, observava-me do cimo de um puro sorriso, os braços cruzados sobre uma túnica leve, laranja-vivo, que lhe salientava a generosidade feminina de formas.
“Por aqui?”, interpelou-me.
“Sim”.
Ofereci-lhe assento:
“Senta-te. E tu, que fazes?”
“Vim passear. Aproveitar o bom tempo”.
Seria possível que ela também passeasse? Onde é que iria ser o atentado? Pensamentos só meus...
“Eu estava por aqui a olhar o mar e a lembrar-me de coisas... Bonito, não é?”, disse-lhe.
Ela fez que sim. Nunca a vira ou sentira dona de uma tal leveza e gostava do que via. Bonita... Mais bonita, até, do que naquela noite em casa do António, rodeada do aroma das flores e da luz serena do luar.
“Estás sozinho?”, perguntou.
“Agora já não. Se bem que com o mar nunca esteja só. Gosto muito do mar...”
“Eu também. Transmite-me a sensação de um mundo enorme...”, concordou, numa voz plena de meiguice. “Sempre tive vontade de conhecer o mundo, sabes?”
Temi que, se não me controlasse, começaria a tremelicar. De paixão. Olhava-a e ocorria-me um pensamento incontornável e recorrente... “Amo-te tanto!”, pensava. Estava perdido, conquistado, fora de jogo se não tivesse mão em mim. Seria algum vírus que sempre me atacava na orla do Palmeiral?
“Eu já me contento em conhecer-te a ti”, atrevi-me, antes que pudesse pesar muito as minhas palavras.
“Hã?”, voltou-se ela, divertida.
“Acho-te muito bonita. Elegante e graciosa”.
Semelhantes afirmações, que a alguns poderiam parecer uma jogada de ataque, para mim já sabiam a retracção. Automaticamente, racionalizava a minha confissão, concluía que talvez não nos adequássemos um ao outro e colectava um milhão de pequenos contras hipotéticos. Fazia parte do meu temperamento algo obsessivo. Por mim, já não avançaria mais um passo... Engates, tudo bem. Amores, transformava-me num bezerrinho de mama. Mas nada nos impedia de passarmos juntos um momento agradável...
“Já jantaste?”, interroguei.
“Não. Podíamos jantar juntos...”, convidou, antecipando-se à minha deixa seguinte. Que alívio, poupar-me assim à iniciativa!
“Claro, seria uma óptima ideia!”, entusiasmei-me. “Gostavas de ir a algum sítio em particular?”
“Escolhe tu...”, pediu. Voltava a passar-me a bola. Conhecia locais e locais, mas não me decidia quanto ao que conviria ao momento sublime em que partilharíamos uma refeição. É interessante, se pensarmos até que ponto comida e sexo se ligam no nosso inconsciente... Escolhi a saída mais fácil: “Há montes de bons restaurantes ao longo do passeio. Se quiseres, vamos andando e escolhes o que te chamar mais a atenção...”
Caminhámos vagarosamente, lado a lado, fazendo dos maiores silêncios pedaços de conversa. Ocasionalmente, roçava-lhe com o ombro o seu ombro desnudado. A noite estival lançara o seu manto suave a todo o nosso redor.
Uma música suave de violinos zíngaros fluía de uma porta entreaberta que repartia a luminosidade do interior em barras finas que se lançavam pelo chão. A não mais do que uns cem metros dali, do outro lado da rua, ficava um óptimo bar e restaurante, sobriamente íntimo, frequentado por alguns dos nossos melhores artistas de diferentes áreas. Um grupo ruidoso saltou de um restaurante tirolês, sobre cujas mesas eu já dançara numa noite mais alegre mas menos feliz... Felicidade era a palavra mais exactamente capaz de descrever o meu estado de espírito.
Acabámos num restaurante cretense, em cujo interior a chama de velinhas vermelhas aparentava balouçar-se ao som discreto de uma música langorosa. Era perfeito. Cada sala, com não mais do que meia dúzia de mesas convenientemente isoladas por painéis pintados de motivos minóicos, estendia-se sobre a parte externa do areal e o mar que vinha marulhar sob os nossos pés. Pelas vidraças avistava-se, além da curva distante do oceano, uma miríade de estrelas tremeluzentes e a lua, rodeada por uma auréola fantástica, pálida e fantasmagórica. Sentia que teria que ser então ou nunca mais... Nunca conhecera uma mulher que não apreciasse a capacidade de decisão num homem. Ao menos, se estivesse apaixonada, enfim, se gostasse dele minimamente... E eu gostava de me imaginar correspondido. Recapitulei mentalmente: iria começar a tremer, a gaguejar, a falar por meias palavras e deitar tudo a perder? Nem pensar! Aquele era o momento. Para relaxar, fui intercalando a nossa conversa mole com rodadas de um tinto suave do Alentejo. Observava o mel colar-se-lhe aos lábios e escorrer ao longo do interior curvo do copo e só queria beber do mesmo copo. E dos mesmos lábios.
“Estás a tentar pôr-me zonza?”, brincou Christine.
“Eu?”
Parei para avançar ou recuar e fiquei-me pelo meio.
“Estamos apenas a partilhar uma noite muito agradável...”
Ela olhou-me divertida.
“Deita mais”, mandou.
Assim fiz. Quando me inclinava para pousar a garrafa no tabuleiro lateral da mesa, ela segurou-me o pulso e depositou-me um beijo molhado na bochecha, já perigosamente perto da boca. No momento seguinte, colava os meus lábios aos dela. Como era quente e delicioso aquele contacto de bocas, com gosto a vinho mole do Alentejo! Não estivesse num local público e nunca lhe teria posto fim... Sei que quase parece uma tirada de um romance cor de rosa, mas foi assim mesmo. A partir de agora, pensei, independentemente dos momentos maus que ainda me possam aguardar, nunca mais deixarei de me sentir completo...

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

VI (continuação 2)

Desembocámos na mesma sala onde anteriormente reencontrara Paulo. Notei que, desta vez, a janela falsa não mostrava qualquer imagem. Somente paredes. E o Paulo, que já lá estava, perna cruzada e ar sisudo, à nossa espera. Nada das efusões do encontro precedente.
“Como estás?”, cumprimentou.
Parecia vagamente alheado, como se ainda procurasse as melhores palavras, a atitude mais correcta. Talvez não lhe fosse fácil conciliar a necessária frieza de um dirigente político e militar com o afecto do irmão que nunca deixara de ser, imaginei... Julguei entender-lhe perfeitamente o dilema. Era verdade que me enviara a mim, marinheiro de jaccuzi, para as águas revoltas do alto mar... Mas entendia. Por isso, poupei-o a mais dúvidas:
”Não sei como me hei-de desculpar do erro que...”
“Chh!”, mandou, estendendo-me o braço e a mão com a palma virada para mim. “Sentem-se os dois, se fazem favor...”
Obedecemos sem discussão. Repartimo-nos, um trio silencioso, em redor de uma mesa oval, medindo-nos mutuamente e ponderando discursos. Qualquer palavra ou gesto poderiam ser, eventualmente, inadequados. E eu sentia-me inadequado. O ruído das respirações, uma unha que sulcava o tampo, uma sola de sapato a arrastar-se devagarinho e o farfalhar da roupa que lhe acompanhava o movimento, tomavam-me conta do espírito. Por fim, Paulo quebrou o silêncio. Recostou-se com aquele ar enigmático, nem satisfeito nem insatisfeito, que sempre me pusera os nervos em franja quando de situações menos agradáveis e, com um gesto firme em direcção à parede redonda do fundo da sala, convidou:
“Vejam... O noticiário que gravámos há coisa de uma meia hora”.
A janela iluminou-se num clarão, dando lugar à imagem, diluída pela sala, de uma jornalista arruivada, casaco estreito e gravata fina. Eis que colocava aquele tipo de expressão dramática que sempre adoptam em situações especialmente sérias:
“Ao início da tarde de hoje, um cobarde atentado de um grupo bombista ainda por identificar demoliu o Fórum Vasco da Gama, na capital, onde se encontrava sediado o centro de escrutínio relativo ao referendo para anexação da Rússia aos Estados Unidos da Europa. Os primeiros números oficiais apontam para um número de vítimas estimado em...”
A imagem acompanhando os números, adjectivação insultuosa e as garantias de justiça das autoridades... A superfície do Tejo pejava-se de escombros indiscerníveis e o largo passeio ribeirinho surgia transformado num monturo de argamassa solta, catastrófica. Passou-me ao lado um pedaço de asa de gaivota esfiapada, talvez. Um bloco quebrado. Vidro moído. O fumo rasteiro, lambendo indolentemente os destroços. Uma mão rasgada por fiapos vermelhos e crostas de sangue. Pensei em Ann Marks, acenando-me com a sua expressão afável e distraída... O funcionário da mesa de controlo, radiante por poder trocar meia dúzia de palavras comigo...
“Podes limitar a imagem ao ecrã, por favor?”, pedi, meio agoniado.
Com um gesto rápido, a imagem desvaneceu-se, voltando a dar lugar à secura de paredes nuas.
“Já vimos tudo o que era preciso”, sublinhou Paulo.
Não sabia o que dizer. O meu olhar não chegava a tocar outros senão durante o momento de um breve deslize, para logo aterrar no tampo da mesa, à espera de encontrar alguma resposta escrita e inteligente. Era certo que o mundo era bem mais implacável do que imaginara... No meio de tudo, Paulo não descolava os olhos de mim. Esperava, certamente, que eu falasse, para me dar conta dos factos da vida... Atrevi-me:
“Vocês tiveram alguma coisa a ver com isto?”
Christine inspirou fundo, preparando-se para uma explicação pedagógica, mas o meu irmão calou-a com um sinal de sobrancelha. Levantou-se, aproximou-se e, com as mãos apoiadas sobre o tampo da mesa, debruçou-se sobre mim:
“Que é que achas? Fizeste bem o teu simples trabalho? Cumpriste a tua simples missão?”
A voz continha uma censura explícita que a nossa proximidade parecia acentuar. Que poderia responder-lhe?
“Precisamente...”, expliquei numa voz forjada de firmeza. “A coisa correu mal e...”
“Chh!”, repetiu Paulo, de novo com aquele gesto brusco e preciso da mão, como se mimasse uma faca ou um cutelo. Coisa mais ou menos recente, já que não lhe reconhecia o gesto nem nele o reconhecia... Interrogou-me de novo:
“Tinhas perguntado ainda agora...?”
Parecia-me que o ambiente se adensava para uma daquelas discussões familiares, aquelas pancadarias amigáveis, ou não tanto agora, que se me guardavam na memória. Mas não estava diante do meu irmão mais velho e sim de um líder, um líder de muita gente que vivia à margem e arriscava a vida. Havia que o reconhecer. E eu, eu era realmente culpado da acusação que se desenhava à minha frente.
“Perguntei se a bomba tinha sido vossa. Mas se não...”
Paulo cortou-me a palavra. Enrijeceu-se.
“Claro que foi. O aparelho que levavas continha um explosivo, pronto para rebentar se algo corresse mal com a tua missão primeira. Como não deste conta do recado... bum! Se tivesses cumprido os teus simples compromissos...”
O peso total dos destroços, até então vagamente em órbita num recanto mais ou menos abstracto, aterrou em cheio sobre a minha cabeça. A culpa alastrava como as ondas insidiosas de alguma velha bomba radioactiva. Os olhos caíram-me ao chão cinzento de granito. E a raiva que me nascia do facto de me terem transformado num assassino somava-se à culpa que me corroía.
“Como é que me puderam fazer uma coisa destas?”, deixei escapar num fio de voz.
Percebia que Paulo estava zangado. Mas agora, entendendo o meu abatimento, guardou a agressividade e falou num tom mais compassivo:
“Maninho, maninho... Isto é uma guerra! Não há espaço suficiente para armazenar prisioneiros”.
Christine não pronunciava palavra. Procurei-a, ingenuamente à espera de auxílio, mas só a vi erguer as sobrancelhas numa expressão de quem diz “pois é” e por aí se fica. Paulo mantinha um ar impassível, entrelaçando as mãos em concha diante do queixo. Mas pareceu-me entender que também ele se sentia perturbado, talvez culpado, como eu. Senti uma vontade imensa de me esgueirar para bem longe. Como nunca sentira. Para o Brasil... Para os Estados Unidos, até... Onde quer que pudesse esquecer aquele tempo e aquele dia, sem Paulo, sem William Allum, sem Christine, sem humanismo, sem revolução, sem nada. Debaixo das minhas pálpebras cerradas, corriam-me, como num filme, as imagens sórdidas dos destroços fumegando à beira Tejo. Por fim, agarrei em mim e ergui-me:
“Eu não nasci para este tipo de coisas... Preciso de pensar, entendem?”
Ambos encolheram os ombros, como se se tratasse de um gesto combinado. “Pensa”, pareciam querer dizer.
“Certo, então”, , suspirei, aliviado pela aparente liberdade momentânea.
De repente, lembrei-me:
“Da última vez que estive com o William Allum, ele informou-me de que tinha um elemento infiltrado na vossa organização...”
Pausa quase surpreendida. Depois, Christine largou uma gargalhada sonora.
“Não sei se perceberam exactamente...”, insisti, com alguma incredulidade. Mas já deveria ter entendido... Ela conteve parcialmente o riso, levando a palama da mão à frente dos lábios e exclamou, num gesto largo e bem humorado:
“Eis que me apresento, eu, a infiltrada!”
“É ela”, acompanhou Paulo.
“Sou eu mesma. O regime está a perder o juízo!”, tornou ela.
Quem estaria a perder o juízo? Naquele instante, fui tomado de receio de que algo de mau lhe pudesse suceder. “Esse não é um jogo perigoso?”, quase perguntei. Mas não o fiz, de tão óbvia que seria a resposta. Numa fracção, sem que ela pudesse encontrar tempo para o saber, admirei-a enormemente, a sua coragem e a convicção que lhe alicerçava a personalidade... Ainda que não pudesse concordar com o uso da violência, sobretudo da violência indiscriminada, independentemente da finalidade. Ou até se, num gesto de masculinidade primitiva, senti o impulso ridículo de a proibir de se envolver em tais riscos, de a proteger. Eu amava-a, devia amá-la, pareceu-me o termo justo. Mas se alguém precisava de protecção, talvez esse alguém fosse eu e ninguém mais... Em todo o caso, sentia-me, agora, mais calmo e decidido ao que fosse necessário.
“Vou dizê-lo uma só vez... Talvez eu tenha sido o principal culpado em tudo isto. O que não impede que deveria ter estado a par de tudo... Talvez as coisas tivessem corrido melhor...”, acusei.
Paulo ergueu os braços num gesto de aceitação desportiva. E, se as coisas se encaixavam, era eu que agora não me impedia de, indirectamente, encontrar desportivismo na chacina. Bizarríssima roda da vida!
“Mea culpa!”, admitiu.
Senti-me satisfeito por auferir de uma espécie de explicação.
“Bem, queria, então, descansar e repor as ideias no lugar”, disse.
“Ok”, acedeu Paulo, repetindo o gesto dos braços no ar, com um pouco menos de ênfase agora. Depois, antes que me retirasse e como uma surpresa nunca chega só, acercou-se de mim e segredou-me: “E acho que está na hora de te confiar mais uma coisa de perder o juízo. Di-lo-ei uma só vez... William Allum, o terrível censor, é um infiltrado nosso em pleno coração do Estado! O que achas disso?”
Caiu-me a alma aos pés.
“Mas, então, que sentido faz terem-mo ocultado?”, exasperei-me, de um salto. “E que sentido faz sequer eu ter tido que suportar um longo tempo de prisão?”
“Não confundas o nosso amor fraternal com a necessidade imperiosa de te saber politicamente digno de confiança. Nem William Allum com o próprio Estado...”, disse-me Paulo, segurando-me firmemente pelo pulso. “Uma vez a bomba lançada – pela tua própria ex, aliás – pouco lhe restava fazer”.
Caiu o pano.


(continua)

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

VI (continuação)

No início daquele Agosto, classificado por alguns meteorologistas como o mais quente do século, o presidente invadiu todos os aparelhos e ainda os muitos ecrãs dispostos em pontos estratégicos das principais artérias, anunciando a realização do referendo para o domingo seguinte. Em causa estaria o resgate do povo russo, através da sua união à grande nação europeia. Carlos Magno foi a figura histórica escolhida para preencher o papel de primeiro unificador. A seu lado surgiam figuras igualmente distantes como Helmut Kohl, Jacques Delors e Mário Soares. Em pano de fundo, emergia Afonso Silva, na sua famosa pose a três quartos, queixo erguido e punho fechado sobre o peito. Nada original, mas sempre eficaz. “O humanismo não é um bem exclusivo de alguns. Ele é um património da humanidade”, sublinhou Álvaro Cabral num remate muito comentado, durante os dias que se seguiram, em todos os cafés por onde me aconteceu passar.
A generalidade dos europeus estava satisfeita com as palavras do seu líder. Mas eu, que agora os atravessava com os olhos em busca de chips escondidos no fundo do pensamento, começava a colocar-me outras interrogações... Que era feito da reacção dos dirigentes russos? Iria a Rússia escancarar fronteiras para deixar passar e aclamar os nossos exércitos? O que motivava, de facto, a anexação da Rússia, além de delírios de poder e glória ou – já nem colocava seriamente a hipótese – o desejo de levar a ordem e o progresso aos homens e mulheres do fundo da Europa? E porque não reagia o resto do mundo às nossas intenções? Era certo que a América se debatia com intermináveis problemas internos de emigração e desagregação, sobretudo desde que se unificara parcialmente com os seus vizinhos a Norte e a Sul... Era também certo que a China se eternizava em guerras fronteiriças com os países vizinhos, em particular com a União Indo-Paquistanesa, uma reunião explosiva e concebida às três pancadas depois de o gigante asiático haver tomado de surpresa todo o Bangladesh e ainda uma larga fatia Norte pertencente aos antigos dois Estados... Era certo que a Nação Árabe se voltara a quebrar numa multidão de Estados desmilitarizados e economicamente muito dependentes de regiões mais desenvolvidas... Era ainda certo que países como o Brasil ou a Austrália, dormiam à sombra conveniente das relações económicas privilegiadas que connosco mantinham e que dificilmente se posicionariam contra algo que os pudesse vir a beneficiar de qualquer forma... Por seu turno, a África subsariana engalfinhava-se em escaramuças eternas, tornando-se mesmo complicado definir onde começavam e acabavam os países que a compunham... Se tudo isso não era certo, parecia. O facto é que nem a mais insignificante mostra de desconforto saltava do exterior para a comunicação social europeia.
Enfim, chegou a data marcada. O Terreiro do Paço encontrava-se antecipadamente preparado para grandes comemorações – bandas, fogos de artifício, multimedia a transmitir e a repetir um pouco por todo o lado – e circundado de fortes contingentes policiais. “Amanhã será um dia de festa, lembrado ao longo de muitas gerações vindouras”, antecipara o presidente numa comunicação de última hora. As massas pareciam euforizadas por todo o processo e eu só conseguia continuar a imaginá-los carregados de chips. Quanto mais felizes, mais chips. Por mim, já vivera mais satisfeito e com menos dúvidas... Antes de mais, não pregara olho a noite inteira. Até que ponto era realmente segura a missão de que fora encarregado? Que seria de mim se alguém, mais que não fosse, levantasse o véu da suspeita? Não podia sentir-me mais nervoso e desconfortável. A onda de calor que já se estendia pela manhã dentro colava-se-me ao corpo como uma criatura toda feita de ventosas peganhentas. Nunca devo ter transpirado tanto como naquela manhã... E por que carga de água, eu, morando no Porto, haveria de ir votar ao Fórum? Os VIPs, as personalidades, todos votavam na capital. Sim, sim, tinha disso perfeito conhecimento...
Onze da manhã. Poderia perfeitamente ter-me materializado junto ao Fórum e despachado a questão rapidamente. Em lugar disso, optei por dar uma caminhada, apreciar a cidade, absorver o ambiente das ruas, tomar um café nalguma esplanada a meio do caminho. Por fim, chegara. Mais cedo ou mais tarde, teria de ser...
À porta principal, uma entrada enorme, cuja imensidão de vitrais de cores marinhas contrastava com a drástica interioridade aparente do resto do edifício, não se alinhavam as longas bichas da maioria dos locais destinados à votação. A ideia era muito simples... À medida que nós, VIPs e personalidades, transpunhamos o degrau final, o sistema central registava a nossa presença. Dali, seguíamos directamente para o salão Fernando Pessoa. No centro desta ampla divisão, as paredes recobertas de espelhos onde se multiplicava a multidão de densos candeeiros de cristal que pendiam do tecto, situava-se uma passagem virtual que, um por um, deveríamos cruzar. Uma passagem iniciada com o pé direito significava “sim”. O pé esquerdo equivalia a um “não”. Afigurava-se-me demasiadamente visível o sentido do voto de cada um. Mas os criadores do mecanismo, um par de gregos da universidade de Salónica, assegurava a pés juntos que não era nada disso. A passagem estaria protegida por um escudo impeditivo de qualquer visão ou gravação do exterior. Tudo extremamente moderno e calculado...
Trazia comigo, na palma da mão direita, um dispositivo com a dimensão de uma cria de pulga, o qual deveria colar a uma parede no momento em que entrasse ou saísse do salão. Era tudo o que tinha a fazer. O aparelho daria conta do resto. Uma vez mais, as maravilhas da técnica moderna e calculada! Apesar da aparente facilidade, sentia-me como se devesse passar pelos controlos de um teleporto com um carregamento de cocaína sul-americana... Como diriam os nossos compatriotas ingleses, não era a minha chávena de chá. Carreguei, portanto, a minha cruz até ao centro, concentrando-me em não dar nas vistas. Ao fundo do salão, mesmo à esquerda da porta de saída, um quarteto de funcionários concentrava o aborrecimento do dia atrás de uma secretária. Os VIPs, uns que eu reconhecia e outros que nem por isso, alinhavam-se atrás, entabulando conversas discretas de ocasião. Ann Marks, uma jovem escritora de Brighton que conhecera uns dois anos antes num encontro de autores europeus, acenou-me. “Hi!”, respondi com o meu ar mais pretensamente relaxado. Mas já chegava a minha vez de cruzar a passagem central. O ambiente feérico mas confuso da multiplicação de indivíduos, candeeiros fracturados em muitos cristais pequenos, objectos e espelhos paredes dentro, intimidava-me e senti-me fortemente tentado a perder o meu micro-qualquer-coisa algures no soalho brilhante de madeira polida. Mas era sempre tarde demais... Já nem à minha própria cobardia podia ceder. Ou quase... No último instante, desconfiado das garantias científicas dos gregos, cruzei a passagem com o pé direito. Custa-me até recordar até que ponto me senti invadido por uma vergonha funda... Mas não se vota duas vezes. “Que importa, se vão ter uma surpresa com os resultados?”, confortei-me.
Agora, caminhava para a saída em passos largos. Tratava-se do momento decisivo que até agora adiara. Tinha as palmas das mãos alagadas em suor. Disfarçadamente, com o anelar, certifiquei-me de não ter perdido o dispositivo. Ainda lá estava. Flecti para a direita, precisamente a direcção do quarteto de funcionários, mas também a que me daria mais jeito para despachar a minha missão. Ao sair, encenaria um breve desequilíbrio e apoiar-me-ia contra a trave da porta. Só. Um dos funcionários fez-me sinal com um aceno de cabeça. Adiantei-me, mais decido ainda. Mas o mesmo funcionário pareceu acordar do seu torpor, ergueu-se e dirigiu-se-me, a mão estendida como se me conhecesse há muito. Que se passava? Os pensamentos confundiram-se-me e os neurónios fugiram-me para os intestinos. Alguém dera com a língua nos dentes! O tal infiltrado na Resistência! Estava apanhado! Olhei instintivamente para trás. Não havia por ali uma presença conhecida que me acudisse? Estava apanhado! No momento seguinte, abri a mão, deixando cair o aparelho, e esmaguei-o com a ponta da sola.
“Raul Veloso?”, entusiasmou-se o homem, passando a sacudir-me a mão num daqueles cumprimentos tonitruantes que se nos colam como lapas à rocha.
Depois do que acabara de fazer, estava demasiadamente atarantado para reagir com mais do que um “sim...” Enfim, o homem descolou-se, afundou as mãos nos bolsos e disse:
“Peço desculpa, mas sou um leitor apaixonado dos seus livros e não podia deixar de o vir cumprimentar!”
“Ah, sim? Fico muito satisfeito, senhor...”, li-lhe o nome no dístico da lapela, “... José Lima! Muito satisfeito”.
“Como é que sabe o meu...”, admirou-se. Olhou de soslaio para o dístico e gargalhou: “Claro! É pena não ter comigo o seu último trabalho. Excelente! Pedir-lhe-ia um autógrafo...”
“De facto...”, concordei, meio na lua. “Bem, foi um prazer conhecê-lo”.
O homem presenteou-me com um novo aperto de mão da classe interminável, agora com as duas para maior apoio, enquanto balançava a cabeça num sinal afirmativo de coisa nenhuma:
“O prazer foi todo meu... Todo meu. Continue a escrever!”
“Muito obrigado. Continuarei...”, afirmei, pouco certo da minha promessa.
O senhor José Lima retomou o seu lugar entre os colegas, pouco curiosos relativamente a mim, e eu desbraguei porta fora, lutando por conservar o equilíbrio. O coração perdia-se-me em compassos desritmados e as ideias surgiam-me a contratempo. Uma vez no passeio exterior, levei as mãos à cabeça desesperadamente. Como pudera fazer o que fizera? Com que cara confessaria a minha inqualificável estupidez? Estava perdido. Perdido... Enquanto me encontrava no interior do edifício, o céu amplo estreitara-se, as águas do rio haviam-se tornado revoltas, as pacíficas gaivotas tinham ganho aspecto de pterodáctilos...
Restava-me apenas regressar a casa e encolher-me na posição fetal, à espera de um milagre que me permitisse reencarnar em outro corpo. Mas é sabido que os milagres deixaram de existir quando as pessoas os começaram a colocar em dúvida... Em vez disso, sem me conceder tempo bastante para suspirar algumas lamúrias na penumbra da sala, alguém fez soar a campainha. Não podia já, sequer, afundar-me em paz...
“Boa tarde”, cumprimentou Christine. Antes de o diabo sequer poder pensar em esfregar o olho, já me entrara em casa. “Desta vez, vim pela porta, hã? Posso entrar?”
“Já cá estás”.
“Pois estou. Fecha, então, a porta, se fazes o favor”.
De repente, senti ainda mais insustentável o peso do meu fracasso. Além de não ter conseguido assumir as minhas responsabilidades face a um grupo de pessoas que contava comigo, votara favoravelmente à anexação e ainda me via condenado a desintegrar a imagem que eventualmente pudesse ter aos olhos de Christine... Inflei-me de coragem:
“Temos que conversar...”
Instintivamente, pressenti que ela já tinha uma boa ideia do que eu lhe pudesse vir a contar. A sua expressão não continha, no entanto, qualquer traço de condenação ou ironia. Deslizou-me uma festa no braço e disse:
“Liga o teu teleportador. Estão à nossa espera”.
Era óbvio. Mas assustei-me.
“À nossa espera? Para quê?”
Desvelou-me um sorriso meio triste, meio maternal, meio profissional, meio todo um conjunto de coisas.
“Vamos”, insistiu. “Meu escritor...”


(continua)

segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

VI

Como anunciado, ligaram-me do CEAC, requisitando a minha presença para “algo de muito importante”. Uma vez lá, fui rapidamente encaminhado para um grande gabinete, classicamente decorado de forma sóbria e elegante, onde o censor em pessoa me acolheu com demonstrações de enorme afabilidade. Como se fosse eu o morto, o desaparecido, o ectoplasma intermitente... Fingi-me surpreendido, mas Allum comentou apenas de forma muito breve:
“Com franqueza, não contava que me deixasse abater com tal facilidade?”
Tinha, para mim, uma proposta... A mesma. Seria recompensado pelos meus serviços, naturalmente. Mesmo se a maior recompensa era o privilégio de servir. Naturalmente. Concordei com tudo.
“Muito bem”, sentenciou. “Tudo já se encontra preparado para que possa estabelecer contacto com os terroristas. Temos alguém no interior...”
“Quem?”, saiu-me espontaneamente.
“Alguém”, fechou-se, com um sorriso condescendente de dentes e cicatriz.
Subitamente, ganhei consciência do que fazia. O papel adaptava-se-me tão bem como um grand cru às goelas de um rafeiro! Mas já não me era permitido recuar... Quem poderia ser esse tal alguém? Se tinham um infiltrado, para que diabo precisavam de mim? Teriam, de facto, uma toupeira? Quem era mais inteligente? Quem estava melhor informado? E quais os riscos reais que tudo isto acarretaria para mim? Para jogo de gato e rato era uma perfeição!
Mas o jogo começou morno e sem remates. Dias a fio, aguardei o contacto de uns e outros... Zero. Parecia que todos se tinham esquecido de mim e isso era o melhor e o pior. Primeiramente, trepidava a cada toque do communicator e corria a verificar o mail. Ou era engano ou contas para pagar ou propostas publicitárias. Na melhor das hipóteses, alguém que queria dar dois dedos de conversa. Então, reabituei-me ao ritmo normal das coisas e já não corria nem me sobressaltava. Comecei até a procurar ideias para um novo trabalho, às voltas pela cidade onde ia buscar inspiração. À falta de ideias, lia pedaços de livros de outros. Mas também aí não reconhecia ideias verdadeiramente interessantes. Às tantas, o meu sobressalto inicial transformou-se no terrível pânico do autor diante do futuro. Estaria esgotado? Quando seria capaz de voltar a escrever algo que valesse a pena? Claro que, a qualquer momento, poderia valer-me da técnica e de uns quantos lugares comuns de sucesso garantido e fazer uma pipa de cacau. Estaria eu perdido para a vida de escritor e condenado à desinspiração de um papel duplo e forçado?
Andava eu a passear a minha indefinição nervosa ao longo da avenida da Boavista quando, no interior da pérgola gigantesca da frontaria da subsede do Banco Central Europeu, quase aterrei de chofre no passeio, levado por um encontrão brusco. Apanhei a minha boina de estimação um metro à frente e preparava-me para exigir desculpas, mas o homem já ia longe... Não o saberia sequer descrever. “Segunda metade do século e continuamos na mesma!”, zanguei-me em voz alta. Felizmente, estavam todos tão ocupados que poderia ter insultado o rei do mundo a plenos pulmões... Provavelmente, ninguém notaria. Talvez fizesse bem em voltar para casa... Ao enterrar a boina no crânio, porém, senti a presença de um corpo estranho no interior. Uma pequena folha amarrotada caiu-me aos pés. Arrebatei-a discretamente.
“16 horas. Café Le Pêcheur sans Fil. Vitry-le-François. C.” – eram estas as palavras, únicas e sintéticas, da folhinha que desembrulhei, cautelosamente, à sombra de uma gruta artificial do Jardim Botânico do Campo Alegre. A água lançava-se em jorros de uma bica elevada, distribuindo salpicos e um ruído de fundo obsessivo que me teria impedido de antever a chegada de algum intruso. Tratava-se, ainda assim, de um oásis sossegado no meio da massa humana da grande cidade. Câmaras de vigilância? Era natural que as houvesse... Com o presente grau de miniaturização, seria mesmo capaz de imaginar que quem as tivesse colocado não se lembraria de todas. Poderia, claro, ter-me escapado para a privacidade do lar. Mas, câmaras? Quem sabe não as haveria também por lá? Em tempos, nem tanto tempo atrás, tivera mais certezas. Agora, aquele local refrescava-me os pensamentos e preenchia-mos com uma morna sensação de segurança, real ou irreal. Câmaras? Talvez... À sombra protectora da grutazinha, quem conseguiria discernir o que poderia não passar de um bilhete de amor?
Quatro da tarde, precisamente, e estava já sentado atrás de uma mesa estilizada talvez à maneira do século XIX, talvez à moda dos anos do Romantismo, um chocolate quente a colar-me os lábios de castanho espesso. Não fora fácil dar com o local, de tal forma Vitry, cidade com alguma história mas praticamente toda moderna, se tornara imensa. Durante as últimas décadas, engolira Châlon-en-Champagne e estendera os braços para além de Reims, a antiga capital do champanhe que agora se via forçada à condição de bairro luxuoso de Vitry. Tudo isto significava quilómetros e quilómetros... E aí ficava o café.
C. – obviamente Christine – deveria, no entanto, conhecer bem o local, já que a vi surgir de uma porta ao fundo do pequeno balcão de madeira escura bordejada a ferro, através do canto do espelho que me ladeava a mesa. Sentou-se e pediu:
“Armand! Por favor, um kir royal!”
“É para já!”, respondeu o homem de trás do balcão, um cavalheiro de meia idade, corpulento, com entradas salientes a reluzirem-lhe na calva arredondada e um molho de pêlos grisalhos a saltar da camisa aberta. “É para já!”
Ela estava precisamente diante de mim, mas algo me forçava a encará-la pelo espelho da direita. Uma melena fina desabava-lhe no rosto inundado daquele brilho natural e provocante de que não se livraria por muito que tentasse. A mim, fazia-me bem e mal entendê-la assim, estremecendo face a melenas, brilhos, pormenores tão meus que outros não lhes dariam a devida atenção. Christine agarrou-me o braço e quase me provocou um choque eléctrico.
“Vieste a horas”, disse.
“Claro”.
Toquei-lhe o braço, também, naquele momento. O braço nu, suave. E ela permitiu. Na minha cabeça, tratava-se de algo fantástico. Teria algum significado? Armand chegou com o kir.
“Não é cedo para beber?”, perguntei, à falta de melhor.
Ela empertigou-se com o ar mais francês do mundo.
“Nem cedo nem tarde”, respondeu. “São horas”.
Saboreou a bebida durante alguns instantes e engoliu-a de um trago. Tomou-me pela mão até à porta dos fundos, lançou uma piscadela discreta a Armand e desaparecemos por um corredor sombrio até uma sala nua onde me mandou sentar. Instantes decorridos, o dono do bar esgueirou-se para junto de nós. Puxou uma cadeira e inclinou-se na minha direcção.
“Como não tardará a verificar, Lisboa vai realizar mais um referendo, uma inutilidade”, confidenciou-me. “Pretendem aprovar a anexação da Rússia. Trata-se, em termos simples, de legitimar uma invasão”.
A antiga terra dos czares sempre se mostrara orgulhosamente renitente face aos convites para se associar ao resto da Europa. Pessoalmente, nunca chegara a entender o interesse em aliar Moscovo ao espaço europeu. A ideia que do lado de lá nos chegava era a de um território arruinado de ninguém, dominado por grupos de bandidos de longos tentáculos, presentes no Governo, nas empresas, nos sindicatos, nas associações. Nunca obtivera autorização de visita, mas um amigo conhecera a coisa mais de perto, quando da realização de uma conferência sobre o velho sonho da fusão a frio em São Petersburgo, e chegara sem vontade de regressar. Onde quer que se deslocasse, uma escolta apertada acompanhava-o. O aspecto da população, vislumbrada apenas através dos vidros fumados de velhas limusines ainda em uso, era miserável e sombrio. Prostitutas esqueléticas passeavam-se pelas ruas. Marginais decadentes arrastavam-se pelos passeios e faziam de locais outrora imponentes, como o antigo Hermitage, que alguém lhe explicou ter chegado a ser o mais importante museu de arte do mundo, moradias perigosas e arruinadas. Os agentes da lei passeavam-se em grupos mais ou menos numerosos, apenas por zonas mais iluminadas e nunca noite fora. Um grupo chegara mesmo a atacar o seu automóvel e fora imediatamente abatido pela escolta governamental, que abandonara os corpos no local, raiando de vermelho a neve que cobria a cidade. Tanto quanto percebera, tudo remontava aos finais do século XX... O grande bode teria sido uma espécie de personagem lendária, recordada por uma marca escura que lhe sobressaía numa testa larga. Havia quem o comparasse a um ogre. Havia quem chegasse a duvidar da sua existência real. Desde então, a Santa Mãe Rússia, como alguns ainda gostavam de lhe chamar, ficara entregue a toda a sorte de predadores.
“Uma péssima ideia...”, lamentei.
“Sobretudo, tendo em conta a impreterível falsificação dos resultados...”, murmurou Armand semicerrando os dentes.
“O Raul tem plena capacidade para entender tudo isso”, suavizou Christine.
Armand coçou os pêlos do peito, pensativo.
“Bem... E qual é o meu papel no meio disso?”, perguntei.
Armand arrancou um pêlo branco com a energia decidida de quem desaloja um parasita e voltou-se para Christine, como se eu não estivesse presente:
“Se tem capacidade, fará o seu trabalho, não é verdade?”
Ela acenou afirmativamente.
“O quê?”, insisti.
De forma quase exasperante, ele continuava a dirigir-se-me através da nossa companheira:
“O Fórum servirá de centro de escrutínio. E é também aí que o Raul, ao escolher depositar directamente o seu voto, entregará o seu sufrágio”, informou. “Tudo o que lhe pedimos é que coloque um bug no sistema, de forma a complicar-lhes a jogada. Não será difícil, mas precisamos de alguém que não levante suspeitas...”
“Se quiserem anexar a Rússia, terão mesmo que falsificar os resultados, não?”, disse eu, compondo a minha expressão de maior sensatez.
Christine sorria-me, como sempre. Armand fitou-me com ar de benevolência condescendente:
“Nem faz ideia de quantos dos nossos concidadãos carregam chips cívicos, não é?”
“E os outros!...”, acrescentou Christine com um ar vago.
Tratava-se de uma questão que nunca colocara a mim próprio. Por outro lado, o sentimento de superioridade implícito nos comentários enervava-me.
“Não. Não faço ideia”, disse secamente. “Suponho que vocês façam...”
“De uma forma ou de outra, mais de metade da população europeia encontra-se sob controlo. Nem todos são alterados em Lares. Muitas crianças recebem um chip logo após o nascimento”, explicou Armand.
Parecia-me propaganda de sentido contrário ao habitual. Custava mesmo a crer, essa história da população de autómatos.
“É verdade”, garantiu-me Christine. “Nem sabes a sorte que tens em seres tu próprio...”
“Ou o azar...”, calei fundo. Talvez fosse verdade. “Ou o azar...”
Em todo o caso, os dados estavam lançados. Restava-me aguardar o anúncio do referendo e cumprir o meu destino. O qual, aliás, se começava a afastar perigosamente do que alguma vez imaginara ou desejara. O destino... Sempre tivera a noção de que tínhamos um destino e que não se tratava necessariamente do que fazíamos por nos acontecer, mas sim do que se nos impingia. Agora, cada vez mais, sentia-me arredado do meu...


(continua)

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

V

Antes de mais, pensei abordar Anamaria directamente. Com alguma cautela, naturalmente, já que nada me garantia a sua responsabilidade em toda a trama que levara à minha prisão. E porque ela gostava de mim... Quase nunca tive coragem de magoar uma mulher e acabei, geralmente, por fazer com que me magoassem elas quando já não tinha tanta certeza de que o desejasse. Por outro lado, o ataque é a melhor das defesas. Nada como colocá-la bem diante da situação para lhe arrancar uma confissão no salve-se quem puder do momento! Não haveria por ali um meio termo? Onde se perdia a minha imaginação nas alturas em que a realidade a exigia? Não me decidia de todo... De quando em quando, olhava as horas que tardavam definitivamente. No entanto, haviam decorrido já um bom par delas desde que me deixara arrastar naquele tornado mental. As paredes estáticas, o tecto anão, a lareira apagada, o imageoscópio desligado, os vidros das janelas em posição “luz fumada”, o grande asfixiamento da solidão silenciosa... Haveria maior movimentação num velório! E, de tanto voltejar pelas pistas dos meus neurónios, findei por me deixar submergir nas águas revoltas de um sono intermitente...
De novo a festa, o céu estrelado, fogos de artifício irreais. Uma vez mais, a piscina de repuxos e cascatas, as palmeiras mais verdes do que nunca, o bar, a banda, máscaras, sons e movimentos, os próprios clones vigilantes, um em cada entrada. O pirata, o silenciar da música, o apagar do próprio céu. Onde já vivera tudo aquilo? Mas o pirata já é demónio e o demónio persegue-me , escadas acima, até ao piso da pequena ponte que liga à outra extremidade da piscina, junto ao bar onde a música reanimou. No fim de contas, acho que talvez aquilo ainda não tenha acontecido... Quero atravessar para o lado oposto, mas aguarda-me outro demónio aí, um demónio elegante, de berço e, no entanto, um demónio. Reluz de pura predação nos dentes rutilantes, inumanamente bem encadeados, semicerrados. O mergulho impõe-se. Lanço-me às cegas, mas caio vagarosamente, tão vagarosamente que quase sinto o roçar dos braços elásticos, dos dedos magros de aranhiço que os meus perseguidores me estendem do alto. Quando, enfim, toco a capa da água, afundo-me com uma rapidez alucinante. Esbracejo. Procuro a tona em vão. Uma mão grossa, recoberta de pêlos negros, abrange-me o crânio inteiro e força-me em direcção ao fundo. No momento em que tudo se começa a desintegrar em cintilações vagas e sons errantes, recolhe-me violentamente pelos cabelos. Encho os pulmões de ar... Uma, duas, várias vezes, não há pausa possível.
Nesse momento, acordo, o coração ainda a crescer desmesuradamente, recurvando a pleura, empurrando o estômago, fígado, pâncreas, rins, bexiga, intestinos, veias, artérias, tendões, nervos, rebentando para fora de mim. Mas estou ainda mergulhado na piscina, ensopado de água e transpiração... Quem me arrebanha os cabelos? Encaro-o. William Allum, o omnipresente censor, rasga-me o espírito com uma gargalhada imóvel. Ri-se sem se rir, sem descolar o olhar do fundo do meu, sem acender uma luz de presença da alma humana. A cicatriz gargalha sozinha, nervosamente, tremelicando na sequência de espasmos pontuais. Allum retira uma pequena bola de luz de um bolso e encandeia-me, cega-me, toma-me possuído de luz.
Aí, acordei de facto. Há quanto não me abrasava aquele pesadelo! A sala mantinha o seu aspecto sepulcral. As horas prosseguiam o seu caminho preguiçoso. E o dilema permanecia.
Foi então que em mim estourou a ideia, tão óbvia que a não chegara a ponderar... Na tarde do dia em que jantáramos com o censor, todos os textos se mantinham no lugar devido. Sabia-o porque me dedicara a reler uma série deles, ao mesmo tempo que arquivava uma nova criação. À noite, possivelmente, também. Já no dia seguinte, pareceria plausível que se encontrassem na posse dos SSE. Quem me poderia, entretanto, ter entrado em casa para os roubar? A resposta estaria, forçosamente, nos visores da escadaria, cujas gravações se acumulavam num compartimento das águas furtadas durante, pelo menos, quatro meses, antes de serem enviadas à Central de Moradores do Porto para revisões e posterior destruição. Com sorte, ainda lá se encontrariam!
Ignorando os elevadores, galguei as escadas em lances de quatro e irrompi pela saleta vazia adentro, postando-me diante das maquinarias... Ainda bastante jovem, chegara a trabalhar para a CMP a tempo parcial. Por arcaicos que me parecessem os aparelhos ainda em uso, só tinha que recordar. De resto, as indicações liam-se nos teclados: on, off, data, hora, andar, ângulo, speed move... Lancei-me ao trabalho furiosamente. Mesmo se receava descobrir o que pensava vir a descobrir...
Em pouco tempo, encontrei a sequência procurada. A imagem era escura e tortuosa. Na sombra, alguém que passava chegava a misturar-se com a própria textura das paredes. Por vezes ainda, invadiam-na interferências incompreensíveis. Mas lá estava... Algures entre as três e as quatro, Anamaria, a silhueta que tão bem sabia reconhecer, abrindo cautelosamente a porta do apartamento, esgueirando-se para o interior. Nunca imaginara ter o sono tão pesado... Poucos momentos decorridos, Anamaria saindo, devagarinho, cerrando a porta com uma lentidão quase elegante de cuidado – tinha graça, encontrar elegância num roubo! – apressando o passo progressivamente, sumindo-se ao fundo dos degraus. “Que estúpida!”, pensei. “Podia ter feito cópias! Ou podia ter vindo noutra altura...” Estaquei defronte do ecrã vazio, procurando conjugar ideias, conceber planos de actuação. O que a poderia ter levado a fazer-me semelhante coisa? Não sabia ainda como, mas sacar-lhe-ia a verdade com o jeito de um detective de romance policial. Daqueles que nunca têm que partir para a agressão. Que se limitam a reunir um grupo de gente numa sala e a apontar o culpado. Estava decidido.
Quando lhe bati à porta, demorou algum tempo a atender. Recebeu-me com ar de vampe:
“Ah! És tu. Entra.”
E plantou-me um beijo fugidio. Toda aquela pose era inabitual nela, mas decidi não ligar. Passámos à sala comum e pediu-me que aguardasse um instante. O instante prolongou-se, mas optei por não dar importância. Afinal de contas, estava ali para a colocar entre a espada e a parede... Com subtileza. Quando regressou, bamboleando as ancas e pestanejando como uma boneca, suspirou:
“Podias ter avisado que vinhas...”
Começava a irritar-me, mas deixei-a actuar. Se lhe dava prazer...
“Tenho algo de muito importante para discutir contigo...”, comecei.
“A sério?”, riu, acomodando o cabelo.
Aproximei-me e ela deslizou-me entre as mãos como se tivesse demorado todo aquele tempo a untar-se de vaselina. Claro, não poderia ter escolhido pior momento para brincar às bonecas caras! Agora, perdera a paciência de vez, ao mesmo tempo que me apercebi de que não trazia, de facto, qualquer plano subtil. Um demónio apossou-se-me das mãos e dos braços, que a agarraram pelo cachaço e a lançaram para cima de um sofá. Parecia uma marioneta desgovernada. Via-a encolher-se, enterrar os dedos no assento e olhar-me, ofegante de surpresa, os olhos desmesuradamente abertos para mim. O meu espanto não era menor... Como fora capaz de tal gesto de pura violência física? Mas não era o momento de parar. Sacudi-a pelo antebraço:
“Quem é que me roubou os textos, os entregou à polícia e me atirou para a prisão?”
Com tal discurso, devia lembrar uma esfinge cuspindo charadas... Mas era eu a vítima! E ainda que Anamaria tivesse todas as respostas, não sairia a ganhar! Estava emudecida. Quantas vezes lhe mostrara uma face de violência? Nenhuma. Assim, de repente, era o choque. Dei-lhe espaço para respirar.
“Que é que te deu? Nem sei do que estás a falar!”, soluçou. “Que é que tens? Posso ajudar?”
Quase me comoveu. Mas mentia. Não me olhava a direito senão com esforço. E a mentira enraiveceu-me mais.
“Devias ter vergonha! E devias saber que em todos os prédios há um registo de quem entra e sai e passa pelos corredores. Que é que te deu? Que é que te deu?”, contra-ataquei.
Estúpida, ela nunca fora. Compreendeu de imediato a inutilidade da negação. Enxugou os olhos humedecidos, mas manteve a expressão dramática.
“Fui eu, pronto! Mas não me julgues mal... E não podia estar mais arrependida!”, confessou, estendendo-me um par de braços inseguros.
Afastei-os. Como a deveria julgar, então? A cena ganhava laivos de interesse! Com um gesto, mandei-a prosseguir...
“Descobri os teus textos, sim... Por mero acaso!”
“Sim?”
“E depois, as tuas reacções com o William Allum!”
“E então?”
“Senti que corrias o risco de te tornares perigoso, mais do que para a sociedade, para ti próprio. Podes não acreditar, mas achei que te protegia!”
“Que me protegias? Fazes ideia daquilo por que me fizeste passar?”
Anamaria quase não me pousou a mão no ombro antes que eu a atirasse de volta. Talvez com algum exagero que lhe perpassou num cerrar de lábios instantâneo... Mas conseguiu conter-se e ainda lamentar-se:
“Não percebes como me arrependi? Quem é que te tirou da prisão?”
“Quem é que me lá pôs?”
“Fui eu quem te tirou...”
Afastei-me dois passos, antes que me desse algum ataque de fraqueza.
“A troco de escrever uma mentira...”, acusei, ainda que ciente de que o fizera sem graves complexos.
Tinha os olhos novamente húmidos quando insistiu:
“Fui eu quem te tirou...”
De súbito, fez-se luz, mais um autêntico clarão... Era aquele o momento, a justificação perfeita que me autorizava a cometer o crime para que nunca tivera coragem. Na verdade, ardia por me desembaraçar daquela mulher... Assim, os laços que ainda nos uniam tornavam-se suficientemente frouxos. E, nessa perspectiva, tanto fingimento era demasiado! “Porta-te como um homem! Por uma vez que seja!”, ordenei a mim próprio. Fixei-lhe os olhos lacrimejantes e não consegui sentir coisa alguma. Pena. Repulsa. Era tudo. “Porta-te como um homem!” Estava decidido. Tinha de estar. E parti firmemente para a porta da saída definitiva.
“Onde é que vais?”, chamou Anamaria.
Forjei indiferença, quase desprezo, na voz:
“Embora. Está tudo dito”.
Fez um beicinho. Quase engraçado, confesso...
“Não vás...”
“Tem que ser”, enfatizei, reprimindo uma leve hesitação instintiva.
O beicinho agudizou-se. Deitou a cabeça sobre o ombro:
“Não...”
“Sim”.
“Não...”
Que conversa de surdos! Dei de costas e saí da sala sem uma palavra mais. Anamaria saltou do lugar com estardalhaço e veio-me barrar o caminho. Agora, espumava raiva e despeito. Nada mais mortífero do que uma mulher abandonada...
“Sim, mandei-te para trás das grades e era lá que deverias ter ficado! A apodrecer! És um cabrão sem sentimentos e um traidor e um pulha!”, bradou, cobrindo-me de uma cacimba de perdigotos. Mas, a isso, nem liguei... Só queria mesmo desaparecer dali para fora.
“Já despejaste tudo?”, enfadei-me.
De alguma forma, a minha indiferença ainda lhe devia parecer surpreendente. Ficou boquiaberta por instantes, antes de ameaçar:
“Prometo-te que te vais dar mal! Está prometido! Garanto-te que não te deixarei em paz!”
“Vou-me embora, então”, respondi secamente.
“Vai! Vai para o caralho!”
Afastei-me pelo corredor do prédio sem medir os passos, avançando através da penumbra fresca que contrastava com a estiagem própria da época. Estava imerso nos meus pensamentos e em pensamentos nenhuns, aliás, porque não sabia o que pensar. Anamaria chegou à porta, antes de a atirar com um baque de estrondo:
“Além do mais, na cama és um mocho empalhado!”
Fechava-se um ciclo.

Fecham-se ciclos mas não desaparecem por artes mágicas. Agarram-se-nos, isso sim, como sanguessugas teimosas a sugar-nos pedaços de vida. Então, o sangue ainda me fervilhava à tona da ferida e nem tinha a certeza de estar contente ou arrependido de ter ousado pegar no bisturi. Talvez por isso, nem prestei atenção imediata à mensagem anunciada pela voz suave do atendedor... “Tem uma mensagem. Transmitida às 14 e 25. Tem uma mensagem. Transmitida às 14 e 25. Tem uma mensagem”. Estendi-me, indolente, por cima do edredão e deixei-me embalar no acompanhamento das pulsações da música clássica, cordas e metais a transportar o tempo que não contabilizei. Anamaria passara. Christine não passava. E eu sentia-me só. Atacado por uma solidão devoradora, sem que disso pudesse responsabilizar quem quer que fosse para além de mim mesmo. Teria dado jeito... Por mim, não sabia como evitar a familiariedade excessiva do abraço da liberdade.
Estava de tal forma afundado no poço seco de desraciocínios que quase despenquei do sommier quando o media-communicator voltou a soar. Ocorreu-me que não desligara o atendedor... “Melhor! Deixa-os chamar!”, raciocinei preguiçosamente. Mas, logo que escutei a voz de Christine insistindo para que respondesse caso estivesse em casa, saltei para o botãozinho que nem estava assim tão longe...
“Olá? Desculpa a demora. Estava mesmo a chegar”, disse, logo me apercebendo que a minha voz não era a de quem vinha de correr numa pressa de atender. Improvisei um ar idiota de estafa. Christine, ou não prestou atenção ou deixou passar.
“Olá”, cumprimentou, com um sorriso de derreter chumbo. “Como estás?”
“Bem. E tu?”
“Bem”.
“Óptimo!”
Não sei o que é que, ou como, se passava ali, naquela conversa de imagem virtual movida a sorrisos e saudações prolongadas. Era até estranho... Mas ela não me teria, certamente, chamado só para me ouvir dizer olá... Com uma expressão mais séria, avançou:
“Prometeste-me uma coisa. Sempre tencionas cumprir?”
Falava da minha ligação ao Revolução Humanista. E eu que, naquele instante, só tinha desejo para ela... Convidá-la para sair. Passear. Jantar nalgum lugar recatado, conversar muito e o mais que viesse... Na verdade, o mais que viesse era o que menos contava. Precisava de lhe dizer que terminara tudo com Anamaria. Analisar a sua reacção. Talvez o coração lhe batesse tão fortemente como o meu... Sentia urgência em conhecê-la, tocá-la, cobri-la de beijos. Talvez estivesse a perder o juízo...
“Sempre me ajudas a compor o texto?”, insistiu.
Apesar de tudo, estava-me consideravelmente nas tintas para aquelas histórias de revoluções e o que mais lhes passasse pela cabeça. O meu próprio irmão, por muito ligado que lhe fosse, não me convenceria às duas por três. Quem, de facto, me persuadiu melhor do que qualquer argumentação, foi aquela francesa linda, adorável, excitante, delicada, dengosa, sensual, inteligente, sensível, amável, elegante, corajosa, linda, linda, linda... Possivelmente, sem fazer ideia até que ponto...
“Claro que sim. Conta comigo”, afiancei.
Grande sorriso.
“Perfeito!”, exclamou. “Então, estarei em tua casa às dez”.
“Combinado. Um beijo!”, despedi-me.
“Um beijo também para ti”, correspondeu-me. Ela correspondera ao meu beijo com outro! Espectacular! Aquele beijo, uma palavra apenas e virtual, deixou-me a explorar flocos de nuvens fofas até às dez.

Tudo ficou, enfim, combinado. Dever-me-ia “infiltrar” no coração do grupo, valendo-me, para tal, da minha ligação afectiva a Paulo. Aparentemente, ajudaria a desmantelar a organização, colocando a descoberto os seus dirigentes e inviabilizando, assim, a sua continuidade. O meu irmão seria simplesmente enviado para um Lar de Reabilitação e, mais tarde, libertado para seguir uma vida normal, talvez até com um posto de ranking médio nas fileiras do Estado. Pelo destino dos restantes, Lisboa não se poderia responsabilizar. Na realidade, caber-me-ia descobrir e revelar certos mecanismos menos bem compreendidos da governação, projectos, paradeiros de altos responsáveis, pontos fracos dos SSE... Trocava, portanto, uma confortável carreira de escritor de renome pelo risco de uma de agente duplo a braços com toda a gente.
“Ainda ninguém me contactou”, informei. “Como é que estás a par de tudo isso?”
“Mano...”, respondeu-me Paulo com um sorriso enigmático. “Quem será mais inteligente... Nós ou eles?”

segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

IV (continuação)

“Estás na mesma!”, soltei, afogado num sobressalto de alegria, ao vê-lo lançar-se nos meus braços para me estreitar com força.
Depois, afastou-se e ficámo-nos numa contemplação silenciosa. Os anos não o haviam, realmente, marcado sobremaneira... Salvo uma ou outra ruga de expressão, meia dúzia de pequenos rasgos brancos na barba inevitavelmente mal feita e uma tristeza vaga que não lhe conhecera antes no sorriso, tinha diante de mim o exacto irmão mais velho que há anos incontáveis perdera de vista. Ele fitava-me com igual atenção. Como me encontraria? Novo abraço apressado e convidou-me a sentar.
“Estás um homem feito!”, exclamou. “Estou bem contente por te rever!”
Fiquei à espera que me dissesse coisas, me explicasse por onde andara todos aqueles anos, a sua ligação à dita Resistência, porquê e porque não. Como se prolongasse a fitar-me do fundo daquele sorriso distante e misterioso, parecendo coligir ideias e recordações, falei:
“Arranjas-me um cigarro?”
“Não fumo. Um líder tem que dar bons exemplos e manter-se em forma. E tu também não devias fumar...”
“Talvez... Já me lembrei de deixar”.
“Fazes bem. Como é que estão os pais?”
“Estão bem. Às vezes, lembram-se de ti com saudade...”, menti sem remorso. Sabia que, em qualquer caso, o afecto estava presente nas palavras por pronunciar dos nossos pais...
“Está bem, está bem”.
Silêncio e aquele sorriso. Fosse como fosse, ele não me teria chamado ali para me avisar contra os malefícios do tabaco...
“A Christine – é esse o nome dela? – está convosco há muito?”, avancei.
“A Christine – esse é o nome dela...”, enfatizou Paulo levando-me a sentir que exagerara quando, na realidade, partia apenas do princípio de que a gente do terrorismo – ou da Resistência – não andaria por aí a divulgar identidades à toa, “... está connosco há algum tempo. É boa rapariga e uma boa amiga. E acho que simpatizou contigo. Tu não gostaste dela?”
“Sim, sim”, despachei. “Mas, quando nos conhecemos, não estava ela a fazer uma aproximação profissional?”
Talvez tenha exagerado de novo. O meu irmão olhou-me contrariado e ergueu os braços e a voz ao responder-me:
“Uma aproximação profissional! Achas que sim? Foi isso que pensaste dela? E de mim? Que é feito de ti? Será que perdeste a pureza e a clarividência ao mesmo tempo?”
Decididamente, a conversa poderia decorrer mais suavemente... Mas eu, queimado pelo fogo de algum inferno pessoal, não me sentia com vontade de parar. Levantei-me, dirigi-me à janela falsa que dominava a parede redonda e apontei-a ostensivamente:
“Que é feito de mim? Não está mal pensado, não senhor! E de ti? Que é que te deu para viveres em covis de luz artificial? Porque não imagines que eu realmente compreendo...”
Paulo apoiou o queixo na palma da mão e fez-me sinal para que me sentasse:
“Pronto, pronto... Que queres saber?”
“Já que querem fazer de mim agente secreto... tudo!”, sublinhei, ao mesmo tempo que reganhava o meu assento e teatralizava uma expressão de pura exigência negocial, tantas vezes ensaiada em tantas personagens a que dera vida. Conhecendo-me ainda bem, mau grado os anos do distanciamento, o meu irmão deixou escapar um esgar divertido. Mas optou por respeitar a minha actuação, não se desviando um milímetro da atitude séria que compusera e regressando, comigo junto, vários anos atrás...
“Lembras-te do dia em que desapareci?”, perguntou.
“Claro”.
“Pois eu não desapareci sem mais nem para quê. Recorda-te...”
Paulo, que por essa altura entrara para o ensino superior, nunca fora fácil. Precisamente um daqueles derradeiros dias, estando eu já deitado, acordara devido a uma forte algazarra provinda da sala de estar. Toldado pelo sono, aproximara-me para escutar através da porta. Percebiam-se várias vozes, difusas porque filtradas pela madeira espessa... A minha mãe, aflita. O meu pai, severo e perturbado. O tio Rodrigo, lembro-me bem, exclamando repetidamente “Quantas vezes não te avisei? Não seria caso para ganhares juízo?” Não estavam sós. O Paulo também lá estava, a voz trémula e esganiçada, algures entre o mundo do acusado que jura inocência pela última vez e o condenado que esbraceja revolta e jura vingança. E ainda duas vozes masculinas, desconhecidas, monocórdicas e monossilábicas. “O que é que se faz afinal?”, perguntaram aquelas vozes por mais de uma vez. Não sabia mais por não ter tido coragem de transpor a porta e porque receara que me apanhassem atrás da fechadura.
“Não sabes bem o que é que se estava a passar, pois não?”, interrogou Paulo.
O que se passara e eu nunca chegara a compreender, fora que ele fizera parte de um grupo de estudantes que haviam invadido a Cobweb, uma rede informática europeia muito em voga na época, com um manifesto contra o esquema de ensino vigente. Um clássico... Tanto pior quanto é na escola que se formam as elites destinadas a governar, se não a definir, todo o sistema.
“Foi mais inocente do que lhes possa ter parecido...”, comentou Paulo. “Exigíamos participar na definição das cadeiras e aceder a informação, ainda que escolhida, provinda de outras partes do globo. Tinhamos acesso a muito mas achávamo-nos com direito a mais...”
Todo o grupo fora desmascarado. Naquela noite, dois clones haviam vindo buscar o meu irmão que, por respeito à figura do nosso tio, seria directamente transportado para um Lar de Reabilitação, sem necessidade de se submeter à prisão ou a interrogatórios. Eu nunca o soubera e, se alguma desconfiança natural chegara a sentir, nunca me dera para vasculhar demasiadamente no fundo do saco. Um defeito meu, certamente... Ou certamente uma qualidade, para alguns. O que quer que ali houvesse ocorrido, se os nossos pais tinham ficado claramente surpreendidos e alarmados com a desaparição de Paulo, se haviam corrido hospitais e percorrido infrutiferamente toda a cadeia de amizades e conhecimentos do filho em busca de um sinal, não me era possível imaginá-los de outra forma... Agora, sentia-me desconcertado. E enganado.
“Não deves culpar os pais por te terem escondido o que me sucedeu”, desculpou-os Paulo. “Certamente, não tentavam senão preservar a família. Tão intacta quanto possível”.
Emboscados a meio caminho por uma brigada do Revolução Humanista, ele e a escolta nunca haviam atingido o destino...
“Libertaram-me e é graças a isso que hoje não carrego um chip no cérebro. Os meus acompanhantes ficaram desfeitos. Carne picada. Ainda consigo sentir-lhes o cheiro do sangue, ver a sua cor... Enjoativo. Como se se tratasse de verdadeiros seres humanos...”
Os olhos brilhavam-lhe com a recordação e, eu próprio, senti a náusea brotar do sangue derramado dos clones e considerei aquele brilho incompreensivelmente insensível. Como se se tratasse de seres humanos... Podia o meu irmão reagir daquela forma?
“Estamos em guerra e é melhor não fazer prisioneiros”, justificou, lendo os meus pensamentos. “Se fraquejássemos diante deles, que nunca fraquejam, seria hoje muito mais clone do que qualquer deles. Não, não me culpo pelo sangue derramado”.
A partir de então, Paulo tornara-se um elemento activo da Resistência. Um herói, de acordo com a lógica do grupo, participando em ataques, chacinas e sabotagens pela liberdade. Com o tempo, ascendera a uma posição de liderança. Presentemente, cabia-lhe determinar os alvos a abater.
“Quer dizer que já não sujas as mãos. Mas nunca te arrependes quando pensas nas vidas que ceifaste? Nem digo dos clones apenas, mas também dos inocentes apanhados no caminho...”, empolguei-me, incapaz de encarar a luta daquela forma desabrida.
Aí, Paulo zangou-se. Enfunou-se como uma vela em alto mar e principiou a discursar como se o pequeno ser humano que o enfrentava fosse, de facto, uma multidão num comício gigante. E a hipocrisia do humanismo? O que é que se passava no resto do mundo? Eu, por acaso, tinha a noção? Agradava-me muito a ideia de ser tratado como um carneirinho? E, no caso de não me adaptar ao rebanho, o que é que achava de me roubarem a identidade num Lar de Reabilitação? E o que é que achava de escrever peças de propaganda disfarçadas de obras literárias quando, como no caso do meu último e aplaudidíssimo lançamento, podia perfeitamente entender tratarem-se de mentiras sangrentas? Já agora, que tal me tinha sentido no isolamento e na tortura da minha prisão? Acaso já imaginara quantos mais europeus eram bafejados por sorte idêntica, mais que certamente sem a fortuna de um dom especial que os libertasse? Quantos não apodreciam nas masmorras da demência sem retorno? O que é que eu achava de viver submerso em regras e regulamentações indiscutíveis?
“Talvez nem precisássemos de chips para sermos verdadeiros patetas alegres!”, vociferou. “O teu egoísmo rouba-te toda a arte!”
Sentia-me perplexo por reconhecer uma certa realidade em todo aquele discurso, mas era-me difícil desprogramar assim toda uma vida que, ainda para mais, me correra globalmente bem.
“É certo que o censor William Allum te contactará novamente. Não tardará”, precisou. “Faz-lhe a vontade, desta vez. Dá-lhe a entender até que ponto estás domesticado. Se não o fizeres por mim, fá-lo por ti mesmo... Depois, nós tomaremos conta do jogo”.
Custava-me dizer que não e custava-me dizer que sim. Contra o meu próprio temperamento, via-me envolvido num combate que não me interessava directamente. Mas o sentimento, não da luta e sim do reencontro, mandou mais forte. Sem afirmar claramente a minha colaboração, dei comigo a confessar:
“ Sabes que também tenho as minhas dúvidas... Costumo, aliás, passá-las para a escrita em textos que não revelo a ninguém. Talvez tu fosses a pessoa ideal para ler e dar uma opinião...”
Paulo não mostrou qualquer surpresa.
“Foi precisamente por isso que te encarceraram, certo?”
A surpresa era toda minha.
“Tenho a impressão que o mundo inteiro conhece a minha vida melhor do que eu próprio!”, exclamei.
Vi que o meu irmão ponderava algo, desenhando círculos invisíveis no braço da cadeira e atravessando-me com o olhar num silêncio desconcertante. Por fim, cruzou os braços, expirou uma golfada de ar abundante e disse-me, em tom de aviso e de preocupação:
“Se fosse a ti, começava a tomar maior cuidado com as pessoas mais próximas...”
Que pretendia ele afirmar? Contra quem me alertaria? De que nova jogada se trataria? Supliquei-lhe que especificasse...
“Não”, categorizou, como que quase arrependido de sequer haver feito a menção. “Para já, o que quero é que me dês o teu sim. Tens dois dias. Depois, contactar-te-emos...”
Sempre detestei as pessoas que começam a desvendar enigmas mas se ficam por equações incompletas.
“De quem é que estás para aí a falar? Do tio Rodrigo? Dos pais?”, insisti.
“Vamos ter que dizer adeus agora...”, disse Paulo, erguendo-se e ignorando-me despudoradamente.
“Do António? Da Anamaria? De quem?”, clamei.
Como única resposta, dirigiu-se-me, colocou-me a mão no ombro e atirou:
“Quem, além de ti, de uma forma ou de outra, poderia ter tido acesso a esses teus textos?”
“A Anamaria?”
Paulo já abandonava a sala, deixando entrar um jovem magro, com óculos de aros finos, que me anunciava a hora de partir. Antes de desaparecer, no entanto, lançou-me um último sorriso e falou:
“Encontra a resposta e diz-me...”

domingo, 26 de Julho de 2009

IV

Agradeci a António a ajuda e a amizade. Mais ou menos facilmente, alegando cansaço e necessidade de recolhimento, descartei Anamaria. E reentrei, só, no silêncio da minha casa imersa na penumbra de várias semanas, mergulhando directamente na macieza do meu colchão e abandonando três ou quatro pequenas malas aos pés da cama. Simultaneamente excitado e fatigado, logo me deixei sorver por um redemoinho de pensamentos e recordações e afundei-me naquele charco morno em que a realidade ainda não nos larga mas metamorfoseia-se num sapo chato e abstracto. O sucesso da apresentação... O atentado... O fim trágico de William Allum... Cocktail desajeitado. Tudo bem diluído na taça de chumbo das minhas pálpebras, apercebi uma voz longínqua que me impulsionou de volta ao quarto num sobressalto de queda e repuxanço. E fiquei, largos instantes, atirado à toa, balouçando como um insecto surpreendido por um bungee jumping incompreensível.
“Chh! Calma...”, fazia-me Christine, com o indicador esticado à frente dos lábios, reclinada contra a moldura da porta de entrada.
Numa reviravolta súbita, estava de pé, disfarçando o atordoamento.
“Que fazes aqui? Como é que entraste?”, exclamei mais que perguntei.
“Calma, por favor...”, insistiu ela. “Preciso da tua ajuda. Posso contar com a tua ajuda?”
Uma invasão feliz? Tratava-se, em todo o caso, de uma invasão... Talvez com excessiva brusquidão, interroguei:
“Como diabo é que passaste pelo sistema de segurança?”
Ela mostrou-me um descodificador, uma aparelho minúsculo, aparentemente irrisório, mas capaz de permitir ao seu possuidor teleportar-se para não importa que local, troçando de todos os dispositivos e escarnecendo de quem os compra. Até onde eu imaginava, só os SSE e bandidos altamente especializados tinham acesso a esse tipo de tecnologia...
“Assim”, respondeu, num tom de voz apaziguador. “Tens que me desculpar, mas preciso realmente da tua ajuda. Posso confiar em ti?”
Boa pergunta... Não sabia se deveria atirá-la janela fora ou se havia de a abraçar. Examinei-lhe o olhar, o que desde o primeiro momento nela mais me impressionara, e cri descortinar o brilho de uma grande coragem que ainda não entendia, uma heroísmo até, daqueles que pensamos só existirem no mundo das personagens que criamos, longe dos temores e conflitos dos seres de carne e osso. Aproximou-se de mim cautelosamente...
“Tenho uma coisa importante para te mostrar...”
“Ai, sim? E o que é?”, respondi, com uma rispidez mais forjada do que real.
Sem hesitação, retirou um pequeno objecto de uma maleta e estendeu-mo:
“Pediram-me para to entregar...”
Atingiu-me um obus de adrenalina. Tinha, sobre a palma da mão, um pequeníssimo polidisc, daqueles que, nos meus tempos de adolescência, ainda utilizávamos para guardar imagens, jogos, textos, todo o tipo de informação virtual.
“Sabes de que se trata?”, indagou a minha invasora, demolindo o muro de estupefacção granítica da minha expressão possivelmente óbvia.
“Onde... Onde é que o arranjaste?”, gaguejei emocionado.
O objecto mostrava a minha marca, antiga e quase esquecida, um erre torneado a laser que eu tinha por hábito gravar nos meus objectos mais pessoais há muitos, muitos anos, parecia-me... Naquele disc particular, onde a letra se rodeava de um sombreado azulado, guardavam-se algumas das minhas primeiras experiências de escrita: imberbe, barroca e incontida de floreados vaidosos, mas mais verdadeiramente pessoal do que alguma vez o voltara a ser. As memórias irromperam em cascata... Precisamente no dia anterior ao desaparecimento do meu irmão, confiara-lhe as minhas criações e as minhas ambições...
“Um dia, hei-de ser publicado. Ainda hei-de ser famoso...”, dissera-lhe. “Gostava muito que lesses e me desses a tua opinião sincera”.
Na altura, Paulo sorrira-me um sorriso que só mais tarde eu pudera interpretar como triste e misterioso, dera-me um par de pancadinhas no ombro e prometera:
“Claro que sim Tenho toda a confiança no teu talento”.
No dia seguinte, sumir-se-ia de vez. O momento não estava esquecido... Antes criogenizado. Agora, alguém chegava para descongelar os fantasmas do fundo da minha arca frigorífica. Sem preparação.
“Sabes quem me pediu para te entregar isto...”, afirmou Christine em ar de confidência.
“Acho que sim...”, confirmei.
“Não tens nada que se beba?”, perguntou então, exasperando-me com a mudança de assunto. Mas talvez, além de tanta coragem e serenidade, alguma emoção solidária lhe tivesse ressequido a garganta. Talvez precisasse de parar para reordenar os seus próprios pensamentos, ou para que eu o pudesse fazer aos meus, antes de prosseguir...
Frente a frente, sentámo-nos bem ao centro da sala que eu transformara em escritório, um carrinho de bebidas ao lado. De um só trago, Christine engoliu a bebida, serviu-se de novo da garrafa e perguntou: “Posso?” Claro. Eu observava-a com a máxima atenção... Chocado pela invasão, emocionado pela oferta de um pedacinho de vida perdida e indisfarçavelmente curioso quanto ao seguimento da conversa, não conseguia, ainda assim, deixar de a admirar, percorrendo-lhe discretamente as curvas e contracurvas que a elegância de gestos e expressões acompanhava perfeitamente, e de a desejar até, mesmo em circunstâncias tão incomuns. Com ar de pura eficiência, Christine pousou o segundo copo sem que os seus lábios o tivessem chegado a aflorar e instalou um aparelhozinho sobre o carro.
“É um interceptor”, explicou. “Com isto ligado, absolutamente ninguém poderá acompanhar a nossa conversa”.
“E de que é que trata a nossa conversa?”, impacientei-me.
Christine espalmou as mãos sobre os joelhos, ganhou fôlego e começou a falar:
“Lembras-te, certamente, de um jantar em casa do António... Com William Allum”.
Fiz que sim.
“Pois bem, na altura ele quis forçar-te a uma infiltração nas fileiras da Resistência...”
Interrompi-a:
“Como é que sabes disso? O António falou-te?”
Ela riu:
“O António? Claro que não! O Governo não é o único sítio onde se sabe das coisas”.
“E quem é que também sabe das coisas?”
“A Resistência, é óbvio” – pausa “O teu irmão Paulo... Que nunca deixou de acompanhar o teu percurso...”
“Os terroristas...”, corrigi.
“Se realmente quiseres... Para nós, trata-se da resistência contra um sistema hipócrita que te manteve incomunicável por dois meses”.
Revi mentalmente o tempo da minha detenção. Se já me chegara a parecer distante, encontrava-se, na verdade, tão perto quanto poderia estar... Doía-me aquela escuridão. Depois, o ofuscamento. Sempre a cegueira. Senti precisamente o mesmo tipo de raiva que me acompanhara nos meus primeiros tempos de cativeiro.
“Como é que me poderia esquecer?”, suspirei.
“Foi essa mesma questão que colocámos a nós próprios...”, comentou ela. “Agora que conheceste de perto um pouco da face negra do sistema, queremos pedir-te que lhes faças a vontade”.
“?”
A expressão em mim escancarada deveria assemelhar-se a um genuíno ponto de interrogação, sem lugar para pausas ou palavras.
“Impossível, agora que William Allum está morto!”, defendi-me.
“Não, não, não...”, negou ela com o indicador, feito metrónomo, bem diante dos meus olhos. “Não está nada morto, não”.
“Não está? Então e as notícias?”, argumentei.
“Esses tipos nunca morrem”, pronunciou com um travo de amargor na voz. “O morto era um dos vários sósias que lhes servem precisamente para potenciais situações de risco. Um clone especial. Um segredo. Eu estava lá e percebi-o”.
“Estavas?”
“Participei no assalto”.
“E porque é que o mataste, então?”
“O alvo não era ele!”
Parecia-me séria. Mas não desarmei de imediato:
“Tanto quanto sei, os assaltantes foram todos eliminados...”
Ela abriu os braços com ar de gozo:
“Pois aqui me vês! Não queres mesmo saber, é?”
Pausei para raciocinar. Onde estava a mentira? Nos gabinetes da capital, cujos ocupantes me haviam retirado da circulação mal o tinham determinado e que, agora, me recuperavam com dinheiro e honrarias a troco da minha colaboração especializada? Ou naquela mulher magnífica que, aparentemente, me trazia notícias, há tanto desejadas e caladas, do meu irmão Paulo? Estaria eu a raciocinar com o neocórtex? De qualquer forma, senti-me impelido para a segunda hipótese.
“Ainda não entendi bem o que querem de mim... Nem do mundo. Mas gostaria muito de ver o Paulo...”, aquiesci.
“Assim seja, então!”, prometeu a minha interlocutora, visivelmente satisfeita e sem nuvem de hesitação.

“Fica à vontade. E aguarda só um bocadinho...”, mandou Christine, mal acabáramos de chegar a uma sala cuja localização na cidade me escapara. Sumiu-se por uma porta e fiquei à espera.
Talvez influenciado pelo mundo ficcionado em que tanto me embrenhava e no qual sempre tinham que acontecer coisas fulgurantes, momentos de suspense, paixões incontroláveis, ou ainda tocado pela persuasão dos fazedores de imagens da capital, sempre imaginara os terroristas entocados em recantos escuros, apertados, feios e húmidos. Surpreendia-me, portanto, aquela sala. Despojada, sim, dotada do mínimo indispensável àquele tipo de local, mas larga, bem iluminada, quase agradável... O azul claro e liso das paredes, desembocando num fundo curvo e amplo a um dos lados do compartimento, casava-se esplendidamente com uma grande janela falsa de um perfeito realismo, onde o mar marulhava contra um areal luminoso, abandonando conchas e largas pinceladas de humidade fervilhante junto a sargaços recurvados. Sentei-me numa poltrona, gasta e austera mas confortável, , assistindo ao espectáculo da natureza, a melodia rumorejante chegando-me quebrada pela barreira de um vidro imaginário. Verifiquei as horas... Corriam já dez minutos de espera quando a porta se abriu, deixando passar a figura aguardada de Paulo.


(continua)

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

III (continuação 2)

Os dias que se seguiram foram marcados por um estado de felicidade puramente irracional. A mera recordação de Christine inspirava-me mais do que mil documentos e um milhão de honrarias e reconhecimentos sociais. Escrevia imparavelmente e pausava, por vezes, fantasiando acerca dos nossos encontros seguintes. Mesmo os pedaços de tarde em que Anamaria, quente e apaixonada como nunca, se vinha juntar-me, passavam-se facilmente mas como se pertencessem a outro espaço-tempo. Às vezes, chegava-me o peso da culpa... Mas que fizera eu? Precisamente nada! Tudo se encontrava sob absoluto controlo e ninguém me poderia condenar por ter uma vida interior. Não que Anamaria não tenha chegado a suspeitar...
“Que é que tens?”, perguntou-me em certa altura.
“Como... o que é que tenho?”
“Estás meio ausente... Nem parece que estejas aqui comigo”.
“Eu? Que imaginação! Estou quase a terminar o trabalho e surgem-me ideias...”
O livro estava, de facto, praticamente concluído. Faltavam-me apenas uns retoques e uma revisão apertada que o tornassem realmente apresentável. Mais satisfeito que ninguém estava António, por me ver assim radiante e mais criativo e repleto de energia do que imaginara possível...
“Sempre fizeste bem em aceitar o meu convite!”, rejubilou ao encontrar-me absorto numa leitura final do texto completo.
“Muito bem. Estou-te muito agradecido”.
Piscou-me o olho:
“As visitas da Anami também têm ajudado, não?”
“Têm o seu quê”, rodeei.
“O seu quê?”
“Sim, claro. É uma maneira de falar...”
O assunto morreu ali. Gostaria de lhe ter falado de como Christine me ocupava os pensamentos e tive pena de o não fazer. Mas falaria de quê, no fim de contas? De qualquer forma, ela ainda não me contactara. Talvez se tivesse esquecido de mim...

O Casarão, como nós, autores, chamávamos à editora das editoras ou, por outras palavras, ao Governo, foi célere na preparação do lançamento do meu novo trabalho. À falta de melhor, eu decidira nomeá-lo “Tragédia no Aeroporto”, título de consequências retro e dramáticas. Mas alguém decidiu por mim e, antes que pudesse mudar ou sequer dar uma opinião, o livro, com lançamento agendado para quinze dias após a sua entrega, passou a denominar-se “Carnificina na Casa Branca”. Nome igualmente pouco inspirado mas de gosto ainda mais duvidoso. Também, não esperneei muito... Não era inédito que um título, ou até uma obra, sofresse metamorfoses desse género e, uma vez que não tomei conhecimento da alteração senão no dia anterior à minha deslocação ao Fórum Vasco da Gama, onde teria lugar a apresentação, optei por me conservar cuidadosamente reservado a esse propósito.
O Fórum era um edifício de dimensões impressionantes, erigido no decurso da década de cinquenta na zona ribeirinha de Lisboa onde, em finais do século passado, decorrera uma Exposição Mundial subordinada à temática dos oceanos e dos descobrimentos. Dispunha de uma vasta cave destinada à organização de mostras de artes plásticas, quinze salas de conferências, largas instalações administrativas, um sector consagrado à investigação, doze salas preparadas para concertos, apresentações dramáticas e espectáculos multimedia e ainda um museu interactivo sobre história europeia. Tudo repartido por treze andares. Do exterior, assemelhava-se a um enorme bloco misterioso, compacto, vazio de quaisquer aberturas. A partir de qualquer ponto das suas salas, entretanto, através da aparente cegueira de muros, abrangia-se grande parte da cidade, o velho Oceanário e o outro lado de Lisboa, além-Tejo, povoado de bares, vivendas, iates de recreio e gaivotas em voo planante, uma zona de gente abastada. E tudo no espaço Helmut Kohl, a maior das salas de conferências, com capacidade para até dez mil pessoas, estava preparado para me receber...
O salão vomitava gente, o que me fez sentir um certo regozijo por me ver tão bem tratado e ansioso por despejar as palavras que preparara... Não demasiadas, de forma a poupar todos à travessia dos longos discursos em que se conta a história e se inibem novas viagens. Tomava lugar no centro de uma mesa colocada sobre um largo estrado fronteiro à plateia, quando um elemento da organização me veio cochichar ao ouvido... Álvaro Cabral, o presidente em pessoa, viria e tomaria a palavra antes de mim. Uma surpresa. Normalmente, as personalidades delegam representações em secretários, subsecretários e assessores. Talvez eu, absorvido pela perspectiva literária da ocasião e por mim mesmo, não tivesse chegado a compreender a importância daquela e de outras encomendas...
Cinco, dez, quinze minutos, meia hora e o presidente tardava. A impaciência já ganhava a sala no crescendo do burburinho de conversas cruzadas, mexidelas nos assentos, tossidelas secas e suspiros reprimidos, tudo numa confusão sonora de línguas variadas. Mais cinco, dez, quinze e vinte minutos, já muitos iam e vinham repetidamente, tomavam cafés, chegavam, olhavam e regressavam para uma água ou para o novo café dos menos preocupados com questões cardíacas. Mas eu começava a preocupar-me... De súbito, acercou-se de mim o mesmo elemento de quase uma hora antes e chamou-me de lado:
“O presidente não vai poder comparecer. Lamento, mas terá que despachar a apresentação sozinho. Vá, seja interessante...”
O homem aparentava uma forte inquietude.
“Surgiu algum contratempo?”, procurei descobrir.
“Nada de especial. Vá, faça lá o que tem a fazer...”
Sentei-me, enfrentando a audiência e falei, suspendendo a natural confusão que se instalara:
“Boa noite. Que bom ter-vos cá comigo...”
Querendo aproveitar as mais recentes e espantosas técnicas que o Fórum me oferecia, previra uma entrada dominada pela força das imagens. Desde o momento em que as luzes se apagaram e o filme turbilhonou para o meio de todos até ao ponto final das minhas palavras subsequentes, não terão decorrido mais de vinte minutos. Aí, os presentes estouraram em aplausos. Alguns, por convicção ou mera demonstração, quase se colocavam em bicos de pés. Eu tremia de satisfação. Na frente, mesmo diante dos meus olhos, António, Anamaria e alguns familiares mais próximos, assim como alguns amigos que haviam conquistado uma posição nas primeiras filas, pareciam comandar toda aquela grande onda, de cuja justificação ainda conseguia duvidar mas que me envaidecia profundamente. Recuperava o gosto hiperbolizado, quase alucinogéneo, do sucesso, sem viver ainda o grande vácuo de alma que intermediava cada criação. De resto, continuava a bastar-me a recordação de Christine para me sentir preenchido... Quando Anamaria, enfim, se conseguiu lançar nos meus braços, dei comigo a olhar-lhe por sobre o ombro à procura da outra. A outra! A percepção seria capaz de me deprimir, não me encontrasse eu tão afogado naquele mar de devotos que me arrastava ao sabor de correntes desencontradas... Christine, ela, não estava.
“Não mandaste nenhum convite àquela amiga da outra noite, a... Como é que se chamava? Sim... À Christine?”, interroguei ao apanhar António a jeito.
“Christine? Não faço ideia. Sabes que essas coisas não são comigo. Porquê?”
“Por nada”.
Quando saímos, relataram-nos a novidade... Cabral, a caminho do Fórum, fora alvo de um atentado. Milagrosamente, sobrevivera ileso. O mesmo não se poderia afirmar dos heróis que o acompanhavam: o ministro da Cultura, atingido em pleno peito, e William Allum, de cabeça desfeita por um projéctil. Pensei de imediato na cicatriz, aquela marca que nunca mais apareceria e desapareceria ao sabor da expressão agora definitivamente apagada. Talvez pudesse utilizar aquela característica para uma personagem... Uma personagem má, naturalmente, se ninguém percebesse a origem da minha inspiração.
“Foi um grupo de uma dezena de terroristas!”, contou um passante afobado, com o rosto vermelho de excitação. “Mas dizem que nenhum sobreviveu”.
“Não houve mais vítimas?”, indagou Anamaria, perfeitamente impressionada pela ocorrência.
“Ah, não. Fora alguns clones presidenciais, claro”.

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

III (continuação)

Os primeiros dias em casa de António não poderiam ter decorrido de melhor forma... Bem servido por um grupo de clones de primeira categoria, protegido por espaços verdes bem cuidados, cama feita e mesa de qualidade, o que variava absolutamente dos pré-cozinhados em que me especializara no meu andar muito mais apertado e mais ainda das papas de composição indescortinável do cativeiro, sentia-me um perfeito reizinho. De manhã, querendo, refrescava as ideias na piscina. Diariamente, por volta das onze, era tempo para a nossa partida de ténis. Sentia-me mais que apto para dedicar o resto do dia à escrita apoiado nos calhamaços incontáveis que o CEAC me enviara com os cumprimentos pessoais de William Allum e ainda na biblioteca hiper-fornecida do meu anfitrião e amigo. Após um almoço rápido à base de verduras frescas, enclausurava-me numa parcela imensa do sótão que António transformara em escritório, rodeado de gigantescas vidraças omnipresentes e, em cada parede, de mapas que traíam a sua paixão pelas ciências geográficas, e deitava mão à obra... Em meia dúzia de dias de trabalho árduo mas entusiasmado, o texto já levava um avanço considerável. O peso das dúvidas quanto à exactidão dos factos que relatava, ganhava uma leveza insofismável à medida que me deixava embrenhar na criatividade de personagens e situações que, à medida do tempo, iam ganhando personalidades próprias e transmutando-me , a mim, numa quase-personagem levada ao sabor das suas vivências. Um dia, recebi a visita de Anamaria...
“Olá, meu querido...”
Lançou-se-me nos braços, mas senti-a simultaneamente apaixonada e acabrunhada. Como um robô, pesquisei nos meus programas... Que resposta lhe deveria dar? Presenteei-a com um daqueles beijos adolescentes em que a duração constitui o factor mais importante. Cada segundo, no entanto, contrariava-me de uma forma que não imaginara possível e causava-me uma repulsa estranha que de forma alguma desejava. Fale-se no sexto sentido das mulheres!... Se ela pressentiu o meu distanciamento, o certo é que não o demonstrou. Mostrou-se, mesmo, satisfeita e estimulada.
“Pedi ao clone de serviço para ir dar uma voltinha...”, confidenciou-me com um sorriso cúmplice. “Estamos totalmente à vontade”.
Empurrou-me para cima de um sofá e deu início a uma sessão privada de strip-tease.
“Tan-tan-tan-tan!”, entoou, para dar colorido ao espectáculo. “Sabes o que é que eu trago por debaixo desta saiinha? Nada!”
Fazia uso de todas as armas femininas de sedução que, habitualmente, nos incendeiam e nos enlouquecem. Mas eu lá tinha de pesquisar nos meus programas... Agora, excitar-me. Agora, ter uma erecção. Como um robô, precisamente. O chão já era uma confusão de meias e sapatos, blusa e soutien. Soltara o cabelo e mantinha apenas aquela saia sem nada por baixo. De olhos semicerrados e os lábios a extrapolar-se em carne fofa, vermelha e abundante, aproximou-se, sentou-se-me sobre os joelhos e puxou-me a mão para o interior das suas virilhas.
“Estás-me a sentir?”, gemeu-me ao ouvido.
Depois, deixou-se escorregar lentamente, como a serpente da tentação, e principiou a desapertar-me o cinto, o ziper, a descascar-me como a uma banana madura e encheu a mão com o meu sexo. De qualquer forma, estava tudo sob controlo... Ser homem é mesmo assim e, se os meus pensamentos traíam as minhas conveniências, o meu pénis, esse, cortara radicalmente contacto com o meu sistema límbico.
“Que grande!”, suspirou, rindo e cravando-se-me no fundo dos olhos.
Em qualquer outro momento, ter-me-ia enchido de vaidade e concupiscência. Naquele instante, entretanto, limitei-me a obedecer aos meus instintos e a deixar andar. No meu interior, o conflito não abrandava, misturado de prazer e de enfado, ambos imensos. No final, recostados lado a lado, sorriu-me com uma expressão de deleite quase infantil.
“Gostaste?”, perguntou, arranhando-me ao de leve o mamilo esquerdo.
“Foi óptimo”, menti sem mentir, boquiaberto diante de mim mesmo.
Se ela pressentiu a mentira parcial? Não faço ideia... Ainda hoje, não me parece. A verdade é que, quando ela se afastou, prometendo regressar no dia seguinte, senti-me intimamente como um prostituto. Pior ainda, durante as horas que se seguiram não fui capaz de redigir um parágrafo mais...

Quando, ao fim do dia, António regressou de uma deslocação a Hamburgo, encontrou-me tão obviamente desacalentado que decidiu armar uma “festinha” à pressa. Tudo o que eu precisava! Supliquei-lhe que não o fizesse, mas ele limitava-se a responder-me por monossílabos, enquanto se afadigava em contactos.
A partir das nove, começaram a chegar os e, sobretudo, as convidadas que, supostamente, me fariam readquirir algum optimismo diante da vida. Não me restavam dúvidas quanto à forma como António seleccionava as suas amigas... Cada uma era mais um exemplo de perfeita ninfa directamente aparecida da espuma do mar, à maneira de um Boticelli furioso de inspiração. Modelos de sensualidade e simpatia radiosa e, ainda por cima, absolutamente capazes de manter conversas. Só que eu não estava nada receptivo a orgias. Já me chegava a experiência desanimadora daquela tarde... Tudo o que desejava era ser deixado a sós com as minhas ruminações, entender as mudanças que em mim se desencadeavam, compreender para onde me dirigia...
Entretanto, à medida que a noite se desenrolava, passei a sentir-me mais à vontade. O facto de, por um lado, cada uma das presentes revelar conhecimento e admiração pelo meu trabalho, contribuiu para me insuflar o ego que ultimamente andava tão murcho. Por outro lado, não se tratava do bacanal caótico que desenhara mentalmente... Interpretavam-se peças musicais, lia-se poesia, ria-se e bebia-se muito, sem que nada descambasse na vulgaridade. A certa altura, já devidamente embalado no abraço quente da excelente garrafeira da casa, comecei a desejar que a coisa passasse dos limites. Quando voltaria a encontrar-me assim rodeado de tão belas admiradoras? Procurei António com o olhar, mas ele já não prestava atenção senão a uma mirabolante loura que se lhe encavalitara sobre as coxas. Nem lhe descortinava mais o rosto, totalmente encoberto por uma revolução de cabelos, numa poltrona, ao canto da sala iluminada por luz indirecta. Passavam cinco minutos da uma, não me esquecerei jamais, quando conheci Christine, filha única de um dignitário nascido em Paris, apaixonada pela aventura e pelas artes...
Aproximou-se de mim quase timidamente, receosa de me perturbar algum momento de inspiração. A princípio, nem a distingui. Depois, como que armado de um radar metafísico, absorvi-lhe a figura de um só travo: todo o seu corpo era uma curva em movimento naturalmente contínuo, sem o mais pequeno traço de intencionalidade, de coqueterie estudada. Cobria-a um vestido translúcido, longo e esvoaçante, de um creme bonito, que se iniciava num decote fundo e desaguava junto a umas sandálias minimais e a uns pés pequeninos que pareciam levitar acima do soalho. As suas mãos, longas e finas, meneavam-se ao ritmo do corpo como as mãos experientes de uma bailarina de flamenco. Era morena e os cabelos ondulados, de um raro negro-azeviche, roçavam-lhe o fundo dos ombros e caiam-lhe, numa melena grácil, sobre o rosto oval e liso, contrastando fortemente com o vermelho natural dos lábios carnudos. Vi tudo isso num relance! Mas o que mais nela me impressionou foi o olhar... Nunca encarara olhos de um tal castanho, simultânea e aparentemente sábios e inocentes, como poços fundos a ameaçarem sugar-me a alma sequiosa! Falou-me numa voz suave, discreta e marcada por um quase indescernível sotaque:
“Você escreve muito bem!”
Surpreendida pela sua entrada, encobriu parcialmente o próprio riso com a mão em concha e desculpou-se:
“Desculpe! Às vezes saem-me coisas assim... Posso?”
Cheguei-me para o lado, oferecendo-lhe uma parte do sofá. Permanecemos, longos momentos, numa troca de sorrisos. Sem palavras. Sem embaraços. Tão naturalmente que me senti como se a conhecesse desde sempre. Não, não se tratou de um caso de paixão à primeira vista... Antes de uma amizade, de uma consonância como não julgo jamais haver partilhado com alguém.
Não tardou que nos estivessemos a relatar mutuamente as histórias das nossas vidas. Achei importante que ela parecesse absorver com redobrada atenção cada detalhe das minhas narrativas, mesmo os banais, todos os que em nada se relacionavam com escrita ou fama. Mais importante ainda, eu, em quem a disponibilidade para os outros corria por um fio desde há tempos, comportava-me de igual modo diante dela, até há pouco uma desconhecida que, em outras circunstâncias, talvez nunca tivesse encontrado.
Tudo nela era engraçado e gracioso. Mas os olhos, sobretudo os olhos, colocavam-me em transe. Não de desejo, mas transe, ainda assim... Perdera a noção da sala quase somente iluminada pelo choro suave da música, das paredes de granito, dos sofás de veludo fofo, das mesas transbordadas de garrafas meio vazias, do próprio fumo pairante e, mais ainda, daquele grupo ruidoso de pares confundidos em carícias e risos abafados. Ali e naquele momento eu era um extraterrestre. E tudo o que desejava era conhecer aquela mulher espantosamente cativante, obviamente pertencente a uma galáxia diferente da minha...
Em pouco tempo, da mesma forma que a pus a par de todos os grandes pormenores da minha vida, fiquei a saber que sempre tivera problemas de relacionamento com o pai, um cavalheiro correcto, educado e preocupado, mas com mais tempo para a diplomacia que para os pequeninos assuntos da filha. A mãe, nunca a conhecera. Sempre julgara que morrera ao dar-lhe nascimento, o que, particularmente enquanto adolescente insegura, lhe inflingira chicotadas de culpa instintiva. Quando, por um acaso, descobrira que a mãe saíra de casa, ainda ela não atingira o ano e meio, para percorrer o mundo com um dos melhores amigos do pai, instalou-se em si uma confusão, quase uma depressão. Completara, então, dezanove anos e, se por um lado passara a sentir grande compaixão e compreensão pelo pai, recriminava-o por sempre lhe haver ocultado a realidade, a sua realidade também. Foi por essa altura que se decidiu a abandonar o conforto material do lar, passando a viver em diferentes estados, angariando pequenos trabalhos e conhecendo pessoas diferentes.
“Tenho perfeita consciência de que não me foi tão complicado como poderá parecer, já que o meu pai não deixou nunca de me depositar uma quantia mensal numa conta que, nessa altura, abriu em meu nome. Ao pensar nisso, sinto até algum remorso. Mas agora é impossível parar...”, confessou-me.
Fora, precisamente, ao trabalhar como criada de mesa num restaurante próximo da velhinha faculdade de Direito de Coimbra que travara conhecimento com António...
“Você tem um leve sotaque francês... Parisiense! Acertei? Não que se note muito...”, metera-se ele, acompanhado do seu sorriso aberto de bom vivant. “Não a estou a incomodar, espero... Eu gosto de falar com as pessoas de uma forma aberta”.
“Não, não”, respondera ela polidamente. “O senhor conhece bem França?”
Naquele momento, o chefe de mesa chegara e sussurrara-lhe algo ao ouvido.
“Bem, tenho que trabalhar. Está a gostar da nossa cozinha?”
Mas António, como lapa simpática que, por vezes, insistia em ser, não a largara com tal facilidade.
“Gostaria muito de a convidar para um copo e dois dedos de conversa. Não, não me estou a fazer! Tenho disponibilidade e acho que seria agradável...”
Ela correspondera com um sorriso. Se não se fazia, o que fazia? Dera de ombros, deixando no ar:
“Talvez noutra altura... Com menos trabalho”.
“Noutra altura? Eu posso esperar... Desde que a não esteja a incomodar!”
Christine achara-o engraçado. Bonito não, mas curioso.
“Depois se vê...”, dissera.
Naquela noite, o restaurante não fechara portas antes das duas. Mas António colara-se ao seu lugar, encomendando um café de vez em quando, uma bebida ocasional, sorrindo-lhe discretamente, à passagem, sempre que achava por bem. Christine começara por se amedrontar... Seria um doido? Aos poucos, analisando-o, relaxara ligeiramente. “Porque é que se está a fazer doido por mim?”, interrogara-se. Talvez nem isso fosse verdade... Talvez ele não passasse de um genuíno ser social, realmente desejoso de companhia e de conversa. Não se decidira antes do restaurante encerrar. Mas por que não?, raciocinara então. Ela mesma estava sem sono e ainda não conhecia vivalma na cidade...
No momento em que atravessara a sala em direcção à saída, António já partira.
“Aquele cavalheiro que estava naquela mesa?”, indagou junto de um colega.
“Quem? Ah, sim! Aquele come e bebe como um aspirador!”
“Já foi embora, então?”
“Sim, sim. O Afonso...” – falava do chefe de mesa – “... mandou-o embora.
Na altura, sentira algum desapontamento cruzado de alívio. Mas, mal a sola dos sapatos lhe tocou o cimento do passeio, eis que António, o grande e persistente António, a aguardava, pacientemente encostado a um portão, no lado oposto da rua.
“Caramba, vocês fecham tarde!”, soprara. “Ainda tem pachorra para um copo e dois dedos de conversa?”
Christine surpreendera-se. Mas, que tinha realmente a perder? Além do mais, carregava sempre consigo um pequeno bastão eléctrico...
“Foi assim que nos conhecemos”, concluiu, sorrindo para si mesma ao ponderar a peculiaridade do caso.
“E vocês... vocês... nada?”, perguntei, já meio arrependido por me poder estar a tentar imiscuir na vida alheia.
Christine, no entanto, respondeu-me com tal simplicidade que só conseguiu, assim, brilhar um pouco mais no meu universo:
“Ele é um cavalheiro. Nem precisei do meu bastãozinho...”
Contemplei-a demoradamente, estranhamente aliviado por saber que, entre ela e António, nada se dera de sexual.
“Trata-me por tu...”, pedi.
“Só se me tratares a mim também”, riu.
Foi assim que conheci Christine. Nos momento em que já íamos terminando a nossa conversa, havia quem ressonasse há muito, despejados ao longo do chão e dos sofás, e quem tivesse abandonado o palco sem que dessemos por tal. Mas nós, nós estávamos perfeitamente despertos... Com vontade de a acompanhar a casa, ofereci-me para a acompanhar à porta.
“Não é preciso”, garantiu-me. “Eu conheço os corredores”.
“Mas eu insisto”, frisei, num tom mais autoritário do que teria desejado. “Insisto...”
“Nesse caso...”
Percorremos juntos os jardins, onde uma brisa morna varria as folhagens verde-noite, inventando cintilações mágicas de movimento e derramando-se nos longos cabelos da minha nova amiga. Estacámos, por momentos, junto ao portão principal, subjugados pelo silêncio fundo e pela imensidão de constelações que, se eu ao menos soubesse nomear, gostaria de lhe ter descrito só para prolongar o instante...
“Bem...”, disse.
“Bem...”, acompanhou-me Christine.
Um impulso dificilmente controlável forçava-me a beijar aqueles lábios, a sorver o néctar irrevelado que aquela boca poderia reservar. Ao mesmo tempo, visualizei mentalmente Anamaria. E, em consequência, acusei-me de romântico irrecuperável, pronto a assumir todas as loucuras se alguma barreira de razão não soubesse assumir o leme dos meus impulsos. Dei ordem de abertura ao portão.
“Gostei muito de te conhecer...”, confessei. Era, pelo menos, capaz de o admitir em voz alta. Como um adulto.
Uma sombra escondia parcialmente o rosto de Christine quando se despedia de mim, um pé já pisando o passeio. Nessa altura, uma faixa de luz que despencava do candeeiro de rua mais próximo derramou-se no seu olhar. Doce e irrealmente belo, achei. Seria da hora? Do sono que finalmente chegava? Do cansaço que principiava a manifestar-se? Precisava, ao menos, de lhe pedir para me visitar... Que o nosso encontro não se esvaísse ali mesmo, entre uma rua e um portão, a meio de uma noite morna de Verão. Mas tinha a boca como que cosida. Disso encarregou-se, felizmente, ela... Inclinou-se para trás e perguntou:
“Quando nos vemos outra vez?”
“Quando quiseres...”


(continua)

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

III

Ninguém me pediu desculpa. Ninguém se aproximou para me dar explicações. Ao afirmarem que todo aquele tempo seria apagado, queriam mesmo dizer apagado. Mas o meu estado de espírito também não me permitia daí retirar pesados sentimentos de ofensa... O retomar do contacto com a realidade de todos os dias era, pelo menos, bizarro. Fui recebido com uma pequena festa de amigos em casa de António. Todos felizes por me rever. Os meus pais derramaram lágrimas de alegria por me encontrar de volta ao mundo dos vivos. O meu próprio tio recebeu-me com um forte abraço e um “Rapaz! Vais-te portar bem!”, na sua voz grave, afectiva como nunca lha ouvira antes. Mas eu não me sentia exactamente vivo... A luz natural incomodava-me profundamente. Não conseguia manter uma conversa prolongada sem que me parecesse vã e meramente trivial. E sofria de uma espécie de agorafobia em que tudo me parecia tão grande, as palavras inclusive, que só me poderia esmagar... Uma sensação física e dolorosa. Tanto assim que me encerrei numa sala escura, instalei um par de psicoleitores bem colados às têmporas, programei o ecrã para a opção “preto e branco” (não me achei capaz de suportar a cor) e ali permaneci, dias a fio, entocado, incapaz de criar uma linha completa e respondendo monocordicamente às chamadas cada dia mais insistentes da minha namorada. “Vou-te ver”. “Não. Estou a escrever”. “Só um bocadinho, então...”. “Não posso ser incomodado”. “Já escreveste muito?”. “Já”. “Posso ver?”. “Só no fim. Bem, até logo...”. Este era o script geral para as nossas conversas, durante as quais mantinha o visor ciosamente apagado. “Está avariado”, “Ainda está avariado”, justificava.
Até que o próprio António decidiu ligar-me:
“Como estás, Raúl? Não dás noticias a ninguém! A Anami queixa-se de que não lhe prestas atenção...”
Por alguma razão, mesmo no meio da apatia, senti necessidade de me justificar:
“De maneira nenhuma! É só que ando a escrever e não posso ser incomodado”.
“Já escreveste muito?”
“Só me falta alinhavar alguns pormenores...”, menti descaradamente.
“O visor não funciona? Não gosto de estar, assim, a falar com uma voz...”
Acorri a ligá-lo.
“Tem estado avariado. Mas já está bem. Esqueci-me de o colocar no on”.
Agora, podia sentir António a percorrer-me com o seu olhar mais prescrutador...
“Não podes ligar o tridimensional?”, insistiu.
“Porquê, queres-me apalpar?”, brinquei sem qualquer vontade. António não correspondeu à brincadeira. Em lugar disso, anunciou:
“Vou-te visitar agora, ok? Daqui a uns minutos estarei aí”.
Daqui a uns minutos! Assustei-me. Conhecia-o o suficiente para saber que quando algo se lhe metia na cabeça era impossível demovê-lo...
“Preferia que não! Deixa-me terminar e contactar-te-ei imediatamente. Não posso perder a concentração!”, gani, incapaz de ocultar o meu embaraço.
“Não, senhor!”, categorizou. “Como teu editor, também sou responsável pelo que escreves e quero ver se está dentro da linha desejada. Além de que já me têm perguntado, muitas vezes até, quando é que está pronto!”
O silêncio comprometido com que lhe respondi, serviu-lhe de livre trânsito:
“E, como amigo, também me sinto na obrigação de ver como é que estás. Até já!”
Mal o visor se apagou, deixei o som que resta no fim de cada chamada zumbir por um bom bocado, enquanto dava voltas compulsivas à sala, feito um felino de zoo na hora da janta. A janta... Era assim que eu me sentia! De que forma justificaria a ausência do trabalho e o afastamento de todos? Em menos de cinco minutos, no entanto, batiam-me à porta de casa e eu corri a escancarar as persianas, a janela, será que me esquecia de algum pormenor?, endireitei-me e dei ordem de abertura.
António entrou em passos largos, deu-me uma breve pancadinha no ombro à passagem e percorreu cada sala e cada canto de sala, tão discretamente quanto possível, nada discretamente!, atento como um cão que fareja a presa em casa do dono. Só que ninguém poderia ser menos dono do que eu naquele instante... Por fim, chegou-se-me, puxou-me pelo braço e disse:
“Vamos conversar!”
“Senta-te, por favor...”, apontei, conformado e, repentinamente, muito cansado.
António recostou-se com ar de desafio, cruzou pernas e braços energicamente e atirou-me:
“Então? Esse texto? Posso vê-lo?”
Era má altura para continuar a mentir...
“Não...”, admiti, torcendo a expressão numa mostra de contrariedade.
Ele fingiu-se surpreendido:
“Ai, não? E porquê?”
Encolhi os ombros em resposta.
“Ah!”, exclamou ele, abrindo os braços como um cristo-rei. “Quer isso, então, dizer que não há texto nenhum?”
Afundado numa cadeira, enfiei a cabeça entre os joelhos e murmurei, mais baixo do que julgava ser capaz:
“Pois não... Pois não...”
Segurando-me pelo cotovelo, António forçou-me a olhá-lo de frente.
“Perdão?...”, disse, acompanhando-se com uma careta.
Soltei-me e explodi exageradamente:
“Pois não!”
Outra vez os braços amplos de cristo-rei e um sorriso largo:
“Ah! Uma reacção!”
Eu próprio senti-me espantado e feliz. Se acordava, se talvez acordasse, mais valia tarde que nunca. O que andara a fazer durante todos aqueles dias de auto-confinamento? O que esperava conseguir com o prolongamento da minha prisão? Contra que medos lutava e de que medos me escondia? De repente, começava a sentir-me livre, livre de dizer que nada escrevera e livre de escrever se assim me aprouvesse!
“Era importante que escrevesses o teu texto. Estamos todos à espera de ver o teu talento novamente materializado!”, animou-me António.
“O meu talento! Por favor...”, envergonhei-me.
Não deves ter dúvidas acerca de ti próprio... O que tu fazes, muito poucos fariam igualmente bem!”, disse ele. “Sei que o que aqueles cabrões te fizeram não deve, não pode ter sido nada agradável...” – sobressaltei-me de alegria diante daquele gesto de solidariedade. Nunca o ouvira referir-se ao poder de forma tão directa. Nem tão arriscada... – “... mas tens de mostrar-lhes que não te quebraram e que não perdeste nem um pingo das tuas capacidades!”
Se António fosse Antónia, aquele teria sido um momento de amor... Nada como a solidariedade desinteressada nos piores momentos para unir as pessoas. “Aqueles cabrões”... Senti-me reviver. Sim, tinha que lhes mostrar que não me tinham quebrado...
“Que é que te deu, no fim de contas, para te afastares assim de tudo e de todos?”, indagou.
O melhor que consegui, expliquei... Que é complicado explicar sentimentos e, quando se racionalizam, eles acabam por se tornar abstractos e relativos. Mas talvez eu precisasse mesmo de os relativizar, de os encarar à distância, de os compreender tão de fora quanto possível... António escutava atentamente a narrativa da minha detenção, das impressões que me assaltaram depois de libertado, procurando colocar-se na minha pele, esquivando-se a intrometer conselhos supérfluos. Sabia-me capaz de descobrir a minha própria verdade e limitava-se a oferecer-se como catalizador. Nunca estivéramos tão próximos... Aqueles cabrões não me podiam ter conseguido quebrar!
“Se quiseres...”, ofereceu, “... podes instalar-te em minha casa. É suficientemente grande e dar-te-ei todo o apoio de que necessitares”.
Quis declinar, mas ele não mo permitiu:
“Se quiseres, também...”, prometeu, com o ar de malandro inocente que tornava impossível recusar-lhe o que fosse, “... podemos organizar umas festinhas para descontrair. Tenho muitas amigas que dariam tudo para te conhecer mais aprofundadamente...”
Sempre no pico da atenção, o meu superego apressou-se a responder por mim:
“Isso não! A Anamaria...”
António segurou-me pelos ombros:
“A Anami lá está e sabe que pode contar contigo. Nem ela tem de saber, nem a família deve passar receitas no lugar do médico! Diverte-te um bocado! Enfim, por mim, farás o que quiseres... Eu só pretendo que recuperes inspiração para a vida...”
Só de o imaginar, já sofria com a traição. A minha mudança temporária estava decidida sem que, felizmente, eu encontrasse por onde me esquivar. Quanto ao resto, festinhas e companhia, logo se veria...


(continua)

domingo, 28 de Junho de 2009

II (continuação 2)

Da mesma forma que me acomodara à escuridão, aprendi a ver o mundo à luz extenuante do isolamento daquela sala acolchoada, branca de cegar, quase tão simplesmente mobilada quanto a anterior: a secretária e um banco, além de uma cama onde, inicialmente mal conseguindo cair no sono, comecei a gastar, cada vez mais frequentemente, os melhores e mais ausentes momentos do meu tempo, sempre sob aquela imensa luz difusa que parecia brotar das próprias paredes. A rotina não se alterara mas, se antes vivia em noite permanente, agora o dia era tudo o que conhecia. Não me restava mais do que aguardar... E era dentro de mim mesmo que encontrava algum conforto e uma espera mais facilitada... Fosse nas histórias que continuava a inventar e a memorizar, todas impreterivelmente passadas em campos, em rios, em mares, em oceanos de amplidão, fosse no acolhimento consolador do sono. Sou incapaz de medir a quantidade de horas que, então, ocupava estendido na simplicidade macia e vital daquela cama. E foi precisamente num desses momentos em que lentamente me afundava nos braços protectores do grande sono que recebi a minha primeira visita de alguém do planeta que, para mim, se tornara já tão vago quanto as imagens crescentemente surreais da minha imaginação...
“Uma visita”, anunciou o clone inexpressivo, abanando-me pelo ombro. “Não demore mais do que o necessário!”
Arredei o lençol que me cobria e aguardei, sentado no rebordo da cama até quase desistir, convencido de que ou a visita mudara de planos ou tudo não passara da primeira alucinação da minha psicose ou ainda os meus carcereiros insistiam em jogar comigo. Mas já nem me importava... Se ninguém aparecesse, limitar-me-ia a retomar o sono interrompido. Com maior sorte, reencontraria os meus amigos, o meu mundo, as minhas alegrias, tristezas e expectativas, tudo no mundo dos sonhos... Mecanicamente, começava a perder-me da sala, os olhos fechavam-se-me sem dificuldade. De súbito, a palma de uma mão alisou-me os cabelos...
“Raul... Raul, como é que estás?”
Estremunhei-me. Era Anamaria. Seria Anamaria? Mas eu não conseguia encontrar uma reacção para lhe oferecer... Abraçou-se a mim com força. Num simultâneo pleno, senti um desejo furioso de corresponder àquele abraço e uma repulsa inexplicável que me confundia e perturbava. Fiquei-me de braços caídos, limitando-me a autorizar o contacto. Só. Senti-a retrair-se, tremelicar. Olhei-a nos olhos e vi-os marejados de lágrimas. Encostou a palma da mão ao meu rosto, aquela palma da mão fina e suave, quase icónica, que em tempos considerara a imagem máxima da sensualidade terrena, fixou-me doloridamente e repetiu-se:
“Como é que estás? Como é que estás?...”
Uma avalanche de sensações tumultuosas, conflituosas, despenhou-se no meu cérebro, esmagando-me contra mim próprio. E o meu dique rebentou, jorrando um oceano de sal sobre o seu ombro enquanto, possuído de puro instinto e desespero, correspondia àquele abraço. Aos poucos, o maremoto amainou e descolámo-nos, eu tonto de felicidade e de revolta, ela aguardando as palavras que me sentia entaladas na garganta.
“Porque é que não me vieste ver antes?”, solucei.
Antes sequer de lhe permitir uma resposta, lancei outra pergunta, a única que realmente fazia sentido, a que eu precisava de ver respondida:
“Porque é que me prenderam?”
Anamaria afastou-me delicadamente e desviou o olhar, ganhando fôlego:
“Todos os dias, desde que, finalmente, soube onde estavas, tenho feito tudo para te ver. E todos os dias me tem sido negada essa possibilidade. Que estavas a ser interrogado, diziam-me. E porquê? Isso, ninguém me dizia. Estavas a ser interrogado, era tudo. Não conseguia saber mais nada. Até que, lembrando-me da noite com William Allum, decidi dirigir-me directamente a ele. Contrariamente ao que imaginara, não foi difícil... Recebeu-me muito cordialmente no seu gabinete. Prometeu-me que tudo se iria resolver. E foi assim que aqui consegui estar hoje... Finalmente!”
Dissera tudo numa só respiração, como se as palavras se lhe desagrilhoassem , também elas até ali encerradas em alguma espécie de prisão interior, há muito amordaçadas. Recuperando alguma da serenidade mais genuína que há dias incontáveis, ou meses, ou anos, não conhecia, embrulhei-lhe as mãos nas minhas.
“Mas ele não te disse por que razão me tinham aqui? Não te disse quando é que tudo se resolveria?”, insisti.
O fio da sua voz estreitou-se num aviso sussurrado:
“Nada mais natural do que esta sala estar vigiada...” – pausa – “Eu não fui a única a mexer-me para te tirar daqui, sabes? O António, os teus pais, o teu próprio tio Rodrigo... Mas, por alguma razão, tem sido mais difícil do que seria de esperar...”
O meu próprio tio Rodrigo a usar a sua influência numa tentativa de me soltar... Sem resultados? Que diabo fizera eu? Na verdade, que diabo imaginavam que eu fizera? António, com tanto para proteger, colocando-se em jogo para me libertar... E os meus pais! Senti um baque ao pensar neles, sempre tão respeitadores, educados, confiantes... Primeiro, um filho rebelde a sumir-se sem palavra e, agora, o que nunca dera problemas nas mãos dos SSE!
“Estão todos bem?”, inquiri.
“Como podem estar...”, suspirou Anamaria, talvez surpreendida pela preocupação que o prisioneiro era capaz de demonstrar pelos homens livres... Beijou-me. Há quanto tempo não sentia o gosto molhado de um beijo a fazer-me formigar os lábios, a língua, a alma! Apertei-lhe as mãos com mais força. E, por instantes, senti-me amolecer. Mas a minha sede maior era de respostas...
“William Allum sabe ou não porque estou detido?”
Afigurava-se-me impossível que não pudesse estar a par... Anamaria compôs o cabelo com um jeito simultâneo da mão e do pescoço.
“William Allum contou-me que te tinham descoberto textos escondidos... Recheados de ideias contrárias ao humanismo, defensoras de um tipo de liberdade que elimina a liberdade de muitos e que tanto demorou a atingir”, contou ela com uma expressão de embaraço. “É verdade? Pensavas publicar uma coisa dessas? Clandestinamente? Quem é que te levou a isso?”
Senti-me paralisar. Os meus textos! A minha alma, as minhas dúvidas e momentos de criatividade mais secretos tinham caído nas mãos insensíveis dos SSE! O que eles procuravam já tinham, afinal, encontrado... Tratava-se de uma purga ideológica sem direito a julgamento e todo o meu trabalho, tudo o que fizera, propagandeara pela Europa, esgotara todo o significado possível. Como teriam, no entanto, descoberto os textos que eu conservava, ocultos e codificados, nos recantos mais insuspeitos da minha casa?
“É verdade, então?”, perguntou-me a minha namorada, de sobrolho franzido. Se havia intimidade, se os nossos corpos se encaixavam tão bem e sabíamos rir juntos, como entenderia ela o facto de lhe ter negado a entrada numa parte tão importante do meu espírito? Como falar-lhe na impossibilidade de se confiar na própria namorada, mulher, amante, irmã ou mãe? Como explicar a uma mulher tão perfeitamente enraizada no meu mundo a dificuldade e o conflito de nos confiarmos a nós mesmos? A prova estava ali, agora, na minha detenção e nos tratos de que era vítima...
“Todos temos um lado secreto...”, confiei-lhe pausadamente.
Por momentos, mantivemo-nos pendurados num silêncio ruidoso de pensamentos. Mas talvez também ela possuísse a sua própria caixa negra e, lambendo a ferida, passou à fase de tratamento e cicatrização com a competência directa e urgente um cirurgião:
“Eu penso que tudo o que tens a fazer é confessar o teu erro...” – olhos nos olhos – “Confessa! Inclusive se alguém te tiver desviado, alguém que te tenha levado a esta situação e esteja a viver a sua vida sem preocupações, sem sequer se lembrar de ti. Não perdes nada e eu quero-te daqui para fora!”
Somei dois e dois... Na verdade, o que me restava? E o que me custava? Era apenas eu próprio, nenhuma associação criminosa. E ninguém me poderia roubar definitivamente a mim próprio! Acenei afirmativamente com a cabeça.
“Enquanto aqui estiveste e para que te mantenhas a par, as relações com Washington azedaram. Convém particularmente que renegues quaisquer visões de curiosidade, de interesse pelo outro lado do Atlântico”, informou-me Anamaria. “Aconteceu uma desgraça na capital norte-americana... Uma bomba rebentou com o teleporto Nixon e com todas as pessoas que lá se encontravam. Uma catástrofe! O responsável, acusaram, terá sido um arménio emigrado na Europa que terá conseguido iludir a vigilância em Londres e enviar o engenho, preparado para estourar logo que se materializasse... Todas as relações institucionais foram cortadas unilateralmente pelo lado de lá e não há, actualmente, qualquer tipo de contacto. Lisboa está muito descontente”.
“Terrível!”, exclamei. “Mas o que tem isso a ver comigo?”
“Lisboa pretende, além da tua confissão espontânea, naturalmente, que relates a verdadeira história do incidente. Não se tratou de nenhum arménio emigrado e a bomba não partiu, obviamente, da Europa. Tudo não passou de um acto provocatório do poderio norte-americano, que não hesitou em sacrificar a vida de um conjunto dos seus próprios cidadãos com o fim de enegrecer a imagem europeia. Garantiu-me Allum que se o fizeres tudo isto será apagado, recuperarás o teu estatuto e não terás que passar por um Lar de Reabilitação!”
Aos utentes dos Lares de Reabilitação inseriam-se chips cívicos. Os rebeldes perdiam a rebeldia e tornavam-se felizes, plenamente felizes, satisfeitos. E telecomandados, em minha opinião. Daquele tipo de opiniões que não convinha que ninguém soubesse. No fundo, mais que clones que os clones. A possibilidade enchia-me de temor... Nunca colocara a hipótese de me transformar em robô. A minha própria criatividade poder-se-ia diluir num tal mar de contentamento!
“E essa é a história verdadeira?”, indaguei.
“É o que me contaram”, respondeu Anamaria. “Isso é mesmo essencial?”
Foi um momento de fraqueza que me pareceu compreensível... Por um lado, o facto é que não me pediam mais do que sempre me tinham pedido... Além disso, se não era um cidadão comum, também não nascera com o dom da revolta. Tudo o que desejava era levar a minha vida, escrever, manter o nível a que me habituara. Sim, se foi um momento de fraqueza, o facto é que me pareceu compreensível...
“Está bem...”, acedi. “Podes dizer-lhes que estou a postos”.

segunda-feira, 22 de Junho de 2009

II (continuação)

O mesmo chiar de antes. A mesma nesga de luz que, agora, me obriguei a enfrentar de olhos semicerrados. A personagem gorda e careca. O baque da porta. O mesmo ritual da cadeira lentamente voltada ao contrário, o cruzar de braços, o silêncio. Teriam que ter muita lata para me repetirem a brincadeira!, pensei. E foi com a certeza incerta da presença física do homem a uns passos de mim que argumentei:
“Há aqui um engano óbvio. Vamos conversar...”
A reacção tardava.
“Há aqui um engano óbvio. Gostaria que nos explicássemos...”
Mutismo. Que diabo pretendiam de mim? Irritei-me:
“Sabe que eu sou?!”
De repente, tornava-me patético... E o homem não dava sinal de vida. Num reflexo exagerado, como um boneco de mola, ergui-me e adiantei-me em três ou quatro passos largos... Para logo me encontrar atravessando a figura! Seguidamente, a imagem desapareceu. Um cocktail desconcertante de raiva e pavor agarraram-me pelos colarinhos e atiraram-me os punhos fechados contra a porta metálica em investidas contratempadas. Só me acalmei quando senti a dor crescer-me pelos braços acima. Há quanto tempo é que aquela dor, até aí imperceptível, realmente me abocanhava? Insonorizada, claro, a porta!, percebi. Comportava-me da pior forma... Precisamente como eles, os mefistofélicos “eles” abstractos que me observariam do lado de lá, pretendiam!
Desta vez, o desalento arrebatou-me e o tempo da espera não passou depressa nem devagar. Por fim, chegou, uma vez mais, a cena da porta, da luz, do homem gordo e careca, da cadeira, todo o processo... Fixei-o durante longo tempo, tomado de dúvidas e cinismos defensivos, sem proferir palavra. Aquela espécie de tortura de Tântalo começava a denotar falta de imaginação... Foi assim que, decorrido um largo lapso temporal durante o qual nos limitámos a olharmo-nos mutuamente, estáticos e silenciosos, me decidi a ir ao encontro da sombra, rápida mas cautelosamente. A não mais que um metro da personagem, embati numa espécie de muro invisível, um campo de forças. Surpresa. Desta feita, tratar-se-ia de uma personagem real? A proximidade, quase me permitia distinguir-lhe as feições, a expressão dura de quem não sorri há muito. Rodeei-o com a curiosidade de quem descobre um ser de outra galáxia, apercebendo-lhe o fato castanho habitualmente utilizado pelos elementos das tropas especiais, os papos gordos que lhe ondulavam a nuca, as sobrancelhas ralas, os lábios tortos de quem talvez houvesse sofrido uma leve trombose, os dedos peludos a desembocar em unhas roídas, os bolbos grossos e caídos das orelhas, os olhos pequeninos e papudos, o queixo terminado numa covinha discreta, o nariz aquilino e provavelmente entupido, já que o sentia respirar com o esforço de um aspirador a necessitar de conserto. À medida que o estudava, devo ter-me aproximado demasiadamente...
“Faça o favor de se afastar!”, ordenou rispidamente.
Reflexivamente, obedeci. O homem coçou o queixo com vagar.
“Raul Veloso?”, perguntou.
“?” – a resposta seria óbvia.
“Raul Veloso?”, tornou. Preparava-me para confirmar, mas o homem na sombra mandou-me calar com um gesto.
“Não tem nada que falar!”, rosnou. “Sei muito bem quem é”.
Eu sabia que sabiam. Que situação ridícula! Além do mais, eu não era qualquer um e sim um artista conhecido, uma figura pública. Mesmo quem não fosse dado à leitura reconhecer-me-ia, provavelmente. Quanto mais os meus carcereiros! Nessa altura, decidi defender-me com um chorrilho de perguntas e argumentações, mas nem uma palavra me ocorreu... O homem ergueu-se e, de cadeira na mão, deu um passo em direcção à porta que, de novo, guinchou, despejando um rio de luz para o interior da sala.
“Logo que possível, será transferido para outro local”, anunciou, já com um pé no exterior, onde duas silhuetas se mantinham em sentido. “Entretanto, aproveite a sua estadia connosco”.
No momento em que a porta se começava a fechar, pareceu-me ver abrirem-se-lhe as rugas de expressão que normalmente acompanham um esboço de sorriso. Afinal, o homem sabia sorrir!
A transferência tardou. Não sei quanto, exactamente – eu perdera as coordenadas desde o primeiro instante – já que durante muito ou pouco tempo vivi numa noite permanente. De tal forma, que os meus olhos se habituaram ao ponto de já distinguirem com relativa clareza cada pormenor da sala. Não que esta tivesse muito para distinguir... Como já antes percebera, quatro paredes de pedra tão fria, rugosa e parda como o banco onde primeiramente me encontrara mais a porta metálica e a fina nesga luminosa que nunca morria. Um cego seria capaz de o ver.
A minha nova capacidade, no entanto, encheu-me de esperanças instintivas: que alguém me viesse visitar, que me viessem libertar, pedir desculpa até. Na versão A dos meus pensamentos, assim que me fosse devolvida a liberdade, dedicaria cada um dos meus momentos à punição dos responsáveis. Já nomeara até uma dúzia de grandes advogados hipotéticos e bem relacionados com as esferas do poder!
Com o arrastar do tempo, o fulgor esmoreceu-se... Não havia necessidade de atingir tais extremos. Magnanimamente, perdoá-los-ia a todos e sairia de cabeça erguida para junto dos meus. Depois, escreveria uma ficção inspirada na minha própria vivência. Passada algures no exterior. Publicável. Nos Estados Unidos ou no coração da Nação Árabe, claro. Para reconquistar a confiança e a posição com que Lisboa sempre me havia prendado. No fim, seria um herói.
Mais um tempo e deixei de traçar projectos... Pior que tudo, era o isolamento que não me permitia sequer contactar os meus carcereiros. Quanto não teria dado, então, para trocar duas ou três palavras com algum deles! Nem que se tratasse de um clone... Ou, simplesmente, um indivíduo gordo, careca e sádico... Os próprios alimentos que regularmente me enviavam – comida de quartel, ou pior, de teleporto! – materializavam-se no chão onde me acostumara a dormir, sem a mínima presença directamente humana. Quanto à higiene pessoal, limitava-se a uma bacia com água fria e a uma latrina rudimentar que surgia e se sumia de tempos a tempos, alheia aos meus ritmos e às dores de barriga que isso acabava por me causar. Interessante é que cheguei a retirar prazer desses momentos que me abstraíam do negrume e quase me arrancavam àquele lugar... Entretanto e para passar o tempo, comecei a redigir mentalmente breves histórias e a decorá-las, metodicamente, ponto por ponto. Quando dali saísse, se dali saísse, teria material fresco...
Um dia, porém, um trio de clones irrompeu pela sala dentro, precisamente num daqueles momentos de criação pura em que desejaria nem que fossem mais cinco minutos a sós comigo mesmo. Um deles adiantou-se:
“Venha connosco imediatamente!”, ordenou. “Vai ser transferido”.
Ergui-me com extrema lentidão, acompanhando o ritmo que aquela sala me impusera já. Se se tratasse de um humano, um humano a sério, estou certo de que o meu vagar o teria irritado. O clone, no entanto, limitou-se a aguardar, sem um esboço mínimo de reacção visível.
“Estou pronto”, anunciei num tom pleno de laconismo.
“Então, siga-nos!”.
Obriguei-me a acompanhar-lhes o ritmo rápido, ao longo de fundos corredores despidos e apertados, inundados de uma luminosidade que me forçava a avançar de olhos quase fechados. A corrida, que parecia eternizar-se, cansava-me. A dada altura, uma pequena fagulha acendeu-se em mim:
“Porque é que estou retido? E porque é que estou isolado?”, perguntei ao que aparentava liderar o trio. Mas ele não abrandou o passo e nem sequer desviou o olhar do horizonte do corredor que, alguns passos adiante, desenhava um perfeito ângulo recto e continuava a desenhar, num perfeito deslumbre de arquitecto paranóide. É provável que também não me soubesse dar uma resposta... Clones são feitos para servir. Não para decidir.
“Para onde vamos?”, falei então, simplificando o nível das minhas interrogações.
“Lá para diante”, respondeu ele, sem um gesto ou um olhar.
Chegados a um determinado ponto do labirinto, atravessámos um pequeno pátio coberto e penetrámos num outro edifício, muito mais largo e pontuado por portas de feixes radioactivos.
“Entre!”, mandou ele, ao fundo de um corredor com uma única porta como saída.
Não argumentei mais. A minha esperança era de que, no interior, pudesse recuperar a obscuridade e o silêncio a que me acostumara...
Mas cambaleei, atordoado pelo choque... Desta feita, o compartimento alagava-se inteiramente de uma imensa luz branca que me atirou para o chão, enrolado como um ouriço que levam ao fogo. Lembrei-me de, em miúdo, ter visto um grupo de ciganos levar, precisamente, um ouriço à brasa. Enrolado, enrolado... Eu era o ouriço que a luz queimava como uma manta de espinhos.
Muito lentamente, tão lentamente como alguma criatura pequeníssima esmagada pela dimensão das coisas, quando o tempo não conta, desembaracei-me da minha posição fetal e forcei-me a descerrar as minhas pálpebras de chumbo. Encontrando encosto numa parede mole, levemente afundada sob a pressão do meu corpo, aguardei que a minha respiração reencontrasse o ritmo do mundo e, de seguida, que os meus pensamentos agarrassem o ritmo da minha respiração. Diante de mim, não reconhecia mais que indicações vibrantes de formas. Alguém tossiu e eu, num reflexo nervoso, estiquei o pescoço como um periscópio... Três manchas brancas, vagas silhuetas humanas, debruçavam-se sobre um rectângulo difuso, uma aparentemente óbvia secretária. A do centro bichanou algo à esquerda, algo à direita, em voz grave de homem.
“Componha-se!”, mandou uma voz feminina, algo metálica, vermelha. “Sabe porque está aqui?”
A ironia da pergunta espoletou em mim uma imensa e compulsiva gargalhada. Novos sussurros...
“Fale você...”, disse a mulher. O riso acalmou-se-me, absorvido e repartido por cada um dos meus átomos e transformado numa onda enlouquecida que me corria pelas veias. Da mesa, nova tossícula...
“Temos três perguntas a colocar-lhe e pretendemos que nos responda com toda a sinceridade...”, anunciou o homem, numa voz tão grave que me lembrou um arroto. A mancha da direita mantinha-se imovelmente interessada. “Antes de mais, que impressão tem dos seus próprios livros?”
Estaquei de surpresa. De onde me surgia a recordação de exactamente a mesma frase? Talvez de um sonho?
“Em segundo lugar...”, avançou, “... até onde se consideraria capaz de interpretar correctamente as necessidades do humanismo europeu?”
Sabia que já ouvira aquilo! Sabia que já o ouvira...
“Finalmente, o que é que sabe sobre um grupo terrorista auto-intitulado Revolução Humanista?”
O quadro hiper-real daquela noite em casa de António sobrepunha-se, repentinamente, às manchas humanas, ao vómito de luz. Revi, aguda e instantaneamente, a figura de William Allum, os seus lábios movendo-se ao som das palavras marteladas. O censor e o seu havana proibido... Em que espécie de jogo me tornavam peão?
“William Allum...?”, escapou-se-me. A figura da direita poderia muito bem ser o próprio! “William Allum?”, repeti, confundido, num salto, aproximando-me perigosamente da secretária e estendendo as mãos cegas na direcção do interrogador silencioso. A figura do centro, agora mais nitidamente humana pela proximidade, ergueu um braço defensivo à minha frente e a minha visada, à sua direita, levantou-se num repente, expirando um “ai!” perturbado, claramente feminino. No mesmo instante, um par de clones escancarou a porta de entrada, postando-se de guarda a cada lado. O trio de questionadores esgueirou-se sem mais uma palavra, a porta encerrou-se num “clac!” abafado e tudo terminou assim mesmo.


(continua)

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

II

Manhã bebé. Não chego a saber as horas, mas recordo-me de que o sol ainda mal nascia. Seria o despertador? Não, que não o ligara. Tacteei às cegas no lado esquerdo da cama... Anamaria não estava. Lembrei-me, então... A fúria não lhe morrera. Pelo contrário, enfunara-se num daqueles silêncios sepulcrais desde que nos teleportáramos para casa e longos instantes após. Às tantas, comunicara-me que tinha “muito em que pensar” e que iria passar a noite ao seu próprio apartamento. Irredutível. Toda a noite dormi como se não dormisse. Sentia uma espécie de buraco negro chupar-me as entranhas. Quando finalmente me afundei no sono, estoirou a campainha. Aos trambolhões, enfiei-me no roupão que deixara estendido aos pés da cama. Arrastei-me ao longo dos metros que me separavam da entrada. Duas personagens, uma quase debruçada sobre a porta, a outra apoiada contra o corrimão. Um sorriso de circunstância...
“Senhor Raul Veloso?”, disse-me a primeira num tom monocórdico.
“Sim...”, bocejei.
“Queira fazer o favor de nos acompanhar!”, mandou, materializando-me frente aos olhos um holograma dos Serviços Secretos Europeus, os SSE.
Aí, acordei mesmo, surpreendido e sobressaltado. Observei-os com toda a atenção que consegui reunir em mim... Vestiam de igual: sapatos brilhantes e bicudos, negros, de atacadores, claramente fora de moda, fatos exageradamente vincados de um cinzento inexpressivo, camisas azuis de gola larga, berrando a sua actualidade contra o mau gosto dos sapatos, cabelo curto e bem aparado. Fixei o rosto do primeiro – o parceiro encontrava-se submerso na penumbra do vão de escada -, impecavelmente moldado e escanhoado, vazio de rugas ou de simples marcas de expressão, excessivamente perfeito para um ser humano normal. “São clones!”, compreendi. O da penumbra tamborilava um ritmo monótono, com as pontas dos dedos a dar no corrimão. Os olhos cinzentos, gélidos, do que me enfrentava, fixavam-se a mim como um par de sanguessugas extraterrestres.
“Vista-se e acompanhe-nos!”, repetiu-se.
Percebi que, de alguma forma, estava em apuros. Talvez não passasse de um engano... Pior, talvez fosse um estranho resultado da reunião da noite anterior... O coração timbalou-me no pescoço como uma ideia de Stravinsky, carótida acima, inundando-me as têmporas de sangue quente e afogando-me numa sensação terrivelmente enjoativa. Já a expressão do outro, clone humano melhorado pela inclusão de circuitos integrados, mantinha-se impassível, horrivelmente serena.
“Vou-me vestir, então...”, murmurei, dando meia-volta e quase tropeçando em mim mesmo. Os SSE! As ideias precipitavam-se-me no cérebro feitas carambolas desajeitadas. Os SSE! Quando voltei, julguei ter uma percepção brilhante... Talvez não passassem de uma espécie de escolta destinada a acompanhar-me ao CEAC!
“Agradeço muito, mas não era necessário... Tal como combinei, estarei em Lisboa logo que possa. O senhor Allum já está à minha espera?”, falei muito rapidamente.
O clone não descolava os olhos de mim. Nitidamente, não fazia a mínima ideia, não compreendia de que é que eu falava.
“Vamos!”, ordenou secamente. “Estão à sua espera”.
Apesar de tudo, o “estão à sua espera ficou-me a bater no pensamento... Talvez não me enganasse! Uma vez chegado ao gabinete, poderia agradecer delicadamente a ideia da escolta e pedir a William Allum que não o voltasse a fazer. Mas as paredes da garganta, secas e contraídas, asfixiavam-me numa sensação de canícula excessiva para aquela hora matinal...

Nunca imaginara que uma teleportação pudesse ser tão longa... E daí, talvez a minha noção do tempo, somado o choque de me encontrar nas mãos dos SSE com o facto de, em algum momento, haver perdido os sentidos, não tenha sido a mais habitual...
A minha primeira recordação é de uma penumbra fantástica, somente contrariada por uma luminosidade vaga que se esticava pela nesga, rente ao chão, de uma porta cerrada. Estava-se no final de Maio e o gelo da sala contrastava doentiamente com o calor anormal que já tomava conta das ruas, das praias, das varandas. Aos poucos, retomei o conhecimento... De mim próprio, antes de mais, do meu corpo dormente e da minha cabeça latejante e, de seguida, de um banco largo, rugoso, de pedra fria, onde me encontrava estendido. Logo depois, vi-me atacado de uma tosse seca imparável que teve, se não mais, pelo menos o condão de me trazer ainda mais próximo da realidade. Mesmo se a minha visão teimava em não se habituar à obscuridade, compreendi, graças ao eco que me chegava de todas as direcções, encontrar-me num espaço nu, vazio de móveis ou criaturas. Com algum custo, levantei-me e ensaiei alguns passos até chocar contra uma parede. Um pouco mais desperto ainda, dediquei-me a percorrer a sala, tacteando obstinadamente até lhe desenhar mentalmente a forma... Quadrada, certamente construída no mesmo tipo de rocha fria e áspera do meu banco, de dimensão média. Debruçando-me, esforcei o olhar através da fenda da porta de metal, mas o fio de luz que dali se desprendia era simultaneamente tão fino e tão intenso que mais não fez senão empurrar-me violentamente para trás numa espécie de choque quase eléctrico. A minha claustrofobia esquecida reconquistou-me, então, num flash de recordações perdidas... Eis-me regressado à primeira infância, encerrado no escritório onde o meu pai trabalhava processos que levava a tribunal, por me ter recusado a comer um prato de lulas fritas – o cheiro acre e intenso revisitou-me as narinas e o cérebro -, sufocado nas minhas próprias súplicas desesperadas e magoando-me ao esgadanhar desesperadamente a porta. Respirei todo o ar da sala num só fôlego. Era forçoso que não perdesse o controlo! E assim fiz... Estonteado de taquicardia, deixei-me cair no banco de pedra e aguardei.
A penumbra e a nesga luminosa que nunca mudava de intensidade foram as minhas únicas companheiras de espera, mudas e envergonhadas. Até que um arranhar agudo recuperou a minha atenção em direcção à porta. Não mais que alguns segundos, esta entreabriu-se, cegando-me momentaneamente de uma luminosidade explosiva onde se destacava a silhueta de um homem gordo e careca, para logo se fechar num baque surdo. A sombra, iluminada agora por uma quase inexistente luz avermelhada provinda do canto superior da sala oposto àquele onde me encontrava, carregava consigo uma cadeira. Mais do que ver, pressenti enquanto ele a virava de costas e se debruçava, os braços cruzados sobre a armação do assento, na minha direcção. Era agora que, enfim, eu ficaria a saber porque me encontrava ali e quando poderia sair!... Uma torrente de pensamentos misturou-se-me no cérebro... Faltara à reunião no CEAC e teria que me explicar tão rapidamente quanto possível! Onde estava Anamaria? Será que me tinha procurado? António teria conhecimento do meu paradeiro? Graças aos seus relacionamentos, bem poderia mexer os cordelinhos necessários para colocar cobro àquele terrível engano e arrancar-me dali para fora! E os meus pais? Exigiria contactá-los! Arranjar um advogado, se necessário! O meu tio, com quem a minha relação sempre se pautara por alguma fricção – mas que importava, agora! – seria a pessoa ideal para resolver tudo num ápice!
Endireitei-me no assento e aguardei que o homem me dirigisse a palavra. Minutos, minutos, minutos intermináveis, seriam horas? Como ele se limitasse a observar-me do fundo da sua imobilidade adormecida, falei-lhe eu, no tom de voz mais neutro que encontrei:
“Poder-me-ia explicar porque me encontro aqui?”
Nenhuma reacção. Avancei de novo:
“Ainda falta muito para que eu possa sair?”
Nada. Ele brincava com o meu infortúnio! Reunindo toda a fleuma possível, persisti:
“Deve haver um engano... Não acha que pode haver um engano?”
Silêncio. Gelo. Duvidei se ele estaria ali de facto, oculto no peso crescente da negridão. Uma vez mais:
“Porque é que estou aqui retido?”
Silêncio, nada, nenhuma reacção. Todo o processo não pode ter durado tanto quanto, a mim, me pareceu... Por fim, cansado de tudo aquilo, pus-me de pé e caminhei cautelosamente. À medida que me aproximava, mais lentamente do que me parece possível, a silhueta tornava-se mais nítida, mais cheia, mais desenhada contra a parede com que se confundia. Dois ou três passos mais e abeirei-me dele...
“Podemos conversar?”, pedi.
O homem não demonstrava o mínimo tremor diante do desespero que eu, provavelmente, não conseguia esconder. Estupefacto pela ausência de reacção, fiquei a olhá-lo sem que realmente o visse. Depois, uma torrente súbita e incontornável jorrou-me das entranhas e lancei-me a ele... No momento seguinte, dei comigo estatelado junto à porta e à nesga de luz que me varria a vista. O homem sumira-se como o foco, subitamente extinto, da lâmpada. “Um holograma!”, concluí.
Sentado, de novo, sobre o meu banco de pedra fria, mais desconfortável que antes, retomei a espera. Não me poderiam guardar ali eternamente! A brincadeira, longe de me quebrar, enfurecera-me! Estava, agora, mais que acordado, à espera de uma explicação. Era óbvio que havia ali um engano e alguém teria que pagar! Mal me visse no exterior, falaria com António, com o meu tio, até com William Allum... Alguém teria que responder pelo erro! Entretive-me a planear vinganças contra alguma personagem desconhecida que se enganara ao consultar ficheiros ou confiara em informações nebulosas. E, assim entretido, o tempo voou...


(continua)

domingo, 7 de Junho de 2009

I (continuação 3)

William Allum olhou-nos, um a um, rapidamente... António e Anamaria, que aguardavam o desfecho boquiabertos como se aguarda o final de um filme de alto suspense e, depois, mais demoradamente, a mim.
“O seu trabalho, os seus relacionamentos, a sua forma de estar, revelam o seu melhor, a sua capacidade de optar pelo bem comum mesmo que às custas dos seus interesses mais primários...”, elogiou o censor, antes de me revelar: “O seu irmão está vivo e bem vivo. Só desconhecemos onde...”.
Pausa. Um suspiro falso.
“Ele é um dos líderes terroristas. Mais precisamente de um grupo perigosíssimo que dá pelo nome de Revolução Humanista. O nome, por si só, é uma horrível provocação!”.
As palavras, sublinhadas e agressivas, em particular na exclamação final, traíam uma exaltação que, naquela personagem que tanto as ponderava, vestia roupagens de cores algo bizarras. Quando se enerva também lhe aparece a cicatriz!, pensei , adiando inconscientemente a soma e a divisão dos dados que acabavam de me cair em cima. Mas a novidade, como uma bomba, não me cabia no peito.
“Tem a certeza?”, balbuciei.
Allum pareceu ofender-se. Mas logo retomou a expressão de sempre, confirmando:
“Claro que tenho a certeza. Compreendo como se deve sentir...”.
Olhei o meu amigo e a minha namorada em busca de auxílio. Mas, nitidamente, eles começavam a sentir-se a mais. Temi que me pretendessem embrulhar naquela história de política e de sabotagem da pior de todas as formas... Se fosse católico, teria suplicado ao deus do Vaticano que me fizesse acordar, mas o último papa já se fora há mais de quarenta anos e as religiões não eram, na Europa actual, mais que recordações de museu e coqueluches místicas – possivelmente distorcidas – de pequenos grupos mais ou menos escondidos. O Estado, o humanismo e o bem comum constituíam, por seu turno, uma verdadeira trindade perante a qual a generalidade dos cidadãos se ajoelhava. Coisas como os sentimentos individuais e a família vinham depois, muito depois mesmo... “Não escolhemos o sangue mas somos claramente livres para escolher a grande família em que nos devemos inserir”, escrevera, certa vez, o filósofo Jonathan Osswald, no que se parecia com um óbvio exercício de senso comum. E as palavras que William Allum me dirigiu não fizeram senão confirmar as minhas mais terríveis supeitas:
“Raul Veloso...”, pronunciou solenemente, entrelaçando as mãos debaixo do queixo, “... o que lhe vou pedir não é, como sabe, um simples pedido. Alguém como você conhece perfeitamente o caminho a seguir...”.
Aí estava! Lisboa contava comigo para apanhar o meu próprio irmão nas suas redes. É certo que não me sentia preparado para concordar com práticas terroristas de bandos que escolhiam exprimir as suas convicções por intermédio de raptos, assassínios, ataques bombistas. Na verdade, não chegava a imaginar alguém sempre tão afectuoso e solidário como o Paulo a envolver-se em actividades de tal forma condenáveis. Muito menos o conseguia imaginar na figura de um líder oculto, ordenando aos seus camaradas de armas a morte de uns e a tortura de outros. Por outro lado, sendo Paulo um eterno rebelde e um emotivo de ideias fixas, via-o razoavelmente bem encarnar uma tal personagem... O que, confesso, do cimo da minha fama e do meu conforto, me custava a compreender. Mas Lisboa esperava que eu colocasse o dever acima de tudo, utilizando os meus laços para, de alguma forma, me infiltrar nas hostes do tal grupo – de que nunca ouvira falar até então! – e deitar a mão ao meu próprio irmão. Mais: além de afastarem de todo a hipótese de um “não”, já haviam delineado o meu plano de actuação. Quem sabe, já preparavam a condecoração que, depois, me destinariam!...
“Claro que o nosso propósito, ainda mais tendo em atenção os vossos laços familiares, não consiste em eliminar um líder terrorista e sim o próprio terrorismo”, apaziguou-me o censor. “Posso-lhe garantir: o seu irmão será enviado para um Lar de Reabilitação, de onde poderá sair assim que, com toda a sinceridade, renegue os erros do seu passado criminoso. E levar uma vida absolutamente normal, ainda que sob vigilância. Naturalmente.”.
Naturalmente, claro. Como poderia recusar? Não encontrei coragem para tanto. Secretamente, esperei não ter de o fazer... Como quando somos crianças e prometemos arrumar o quarto só para não nos defrontarmos com os adultos. Na verdade, entretanto, palavra dada era missão cumprida. Não funcionava de outra maneira. E mesmo as crianças são castigadas quando não arrumam o quarto.
“E nada acontecerá ao meu irmão, salvo passar por um processo de reabilitação?”, procurei confirmar numa voz hesitante.
“Já lho disse”, categorizou o meu interlocutor.
“Bem...”, acedi.
“Está combinado, então...”, disse ele. “Passe amanhã no Comité. A qualquer hora. Temos que concertar detalhes...”. E escancarou-me um sorriso. Sei lá bem porquê, não me contive mais:
“Desculpe. Há uma coisa que me intriga... De onde lhe vem essa cicatriz?”.
Eu próprio fui completamente apanhado de surpresa pela pergunta que acabara de colocar. Senti-me estúpido. Fora de contexto. Mas os dados estavam lançados... Todos vimos o censor estremecer nitidamente, crispar-se, conter uma fúria súbita e – coisa curiosíssima! – corar como uma colegial. Pigarreou como se uma tíbia se lhe tivesse encravado na garganta, entesou-se e dirigiu-se-me num tom de voz anomalamente grave, seco:
“Como diz?”.
O profissional das palavras perdia a coordenação do seu discurso, confundia ideias, sentia as pernas a derreter...
“Não. Desculpe. É que me intriga. Mas não tem importância...”.
Recuperando a pose, Allum ergueu-se com brusquidão:
“Não faz mal. É uma curiosidade própria de um escritor”.
Compôs o casaco e forçou uma atitude amigável:
“Talvez numa altura mais apropriada... Agora, o tempo voa e já tratámos o que tínhamos a tratar. Tenho mesmo que me despedir...”.
Anamaria, com aquele tipo de noção de conveniências que caracteriza o género feminino, parecia furiosa, sorria e estendia a mão ao censor, de forma que talvez mais ninguém, além de mim, percebesse o seu estado de espírito. António, tanto quanto eu o conhecia, estaria capaz de me partir cada osso do corpo. Eu próprio seria capaz de me atirar da varanda se a altura não fosse ridiculamente baixa para tão drástica atitude.
“Permita-me acompanhá-lo à saída, caro amigo...”, ofereceu-se o meu editor, num tom de voz quase servil.
Allum aproximou-se dele, apertou-lhe a mão energicamente e, com um gesto largo e breve, despediu-se:
“Não será necessário. O caminho é fácil...”.
E, esticando o indicador para mim:
“Amanhã, em Lisboa!...”.
O que eu tive que ouvir quando ele, certamente, já chegava à rua!... António e Anamaria, juntos num uníssono caótico, atiraram-se a mim como uma alcateia de lobos que, certa vez, observara no zoológico à hora do almoço...
“O tipo endoideceu! Piraste de vez, não foi?”, bombardeou ela.
Um silêncio impossível. António já se enterrara no fundo de uma poltrona, os braços desalentadamente caídos a cada lado, e reencontrara uma expressão mais calma, ainda que mergulhada num poço de estupefacção.
“Ouve...”, disse-me. “Não podes falar o que te passa pela cabeça a um indivíduo destes...”
“E muito menos em minha casa”, completei mentalmente, atingido à queima-roupa por um complexo de culpa.
“Todos temos muito a perder... percebes?”, interrogou. E, após um suspiro introspectivo, prosseguiu: “Nem sempre te entendo!... Enfim... Posso compreender o teu dilema. Isto não é nada agradável e talvez eu também tenha culpas no cartório...”
“Não, não!”, quase gemi. “Sinceramente, não sei...”
“Não sabes! Mas já tens idade para saber!”, interrompeu-me Anamaria, incontidamente, de olhos esbugalhados, canibais. “Não estás satisfeito com a vida que levas? Devias pensar na situação em que nos colocas a todos!”
Mal a ouvia. Naquele momento, tinha mesmo que lhe dar razão, mas nada havia a fazer senão esperar que esfriasse. Uma defesa quase natural em mim... Cortar, desligar totalmente, até que o sofrimento que a ira de alguém me causa se dilua no copo fundo do tempo. António, pelo seu lado, sempre capaz de cozinhar o difícil casamento entre optimismo e realismo, concluiu energicamente:
“Bem, todos temos tiradas infelizes. Amanhã irás a Lisboa fazer o que o homem quer e tudo se resolverá!”
Tudo se resolverá! Fácil de falar. E, no entanto, não vislumbrava qualquer outra saída. Mesmo se eu, ainda que criado na firme crença das virtudes do humanismo e habituado à ideia de tudo sacrificar pelo bem comum – mas acostumado, também, a lidar com isso no mundo especial da ficção – sentia as minhas convicções vacilarem intimamente diante da perspectiva real de entregar o meu próprio irmão...

domingo, 31 de Maio de 2009

I (continuação 2)

A passagem do tempo, dos pratos e de muita conversa social, algo em que António se tornara um verdadeiro especialista, distraíram-me das desconfianças que, de início, se haviam apoderado de mim. Passámos, então, a uma outra sala, um lugar mais recatado e povoado de muitas madeiras, tapetes orientais, mais telas, uma grande lareira cujas chamas bamboleavam sombras exóticas nas paredes à média-luz, vastos sofás de couro castanho envelhecido e um excelente bar, semi-disfarçado no canto oposto à varanda. Aquele lugar nunca cessava de me fascinar... Fazia-me sonhar e sentir como se regressasse a um tempo mítico de lordes ingleses e altas sociedades avessas às inovações tecnológicas. Dentro de um nível de razoabilidade, naturalmente... Mal António concluiu um gesto breve em direcção a um sensor diligentemente oculto sobre a lareira, surgiu um clone na porta de entrada. “Os senhores desejariam acompanhar um whisky escocês de malte com um excelente charuto de Havana?”. Talvez inocentemente, confesso, arrepiei-me. Não era Lisboa avessa ao consumo de bebidas espirituosas? E, não só era o consumo de tabaco reprovado como ainda, desde a queda do regime do lendário Fidel e a consequente entrada de Cuba no grupo dos países mais proximamente associados aos Estados Unidos, a importação de Havanas fora proibida? Como iria a figura-trave do CEAC reagir? Melhor do que eu imaginava... Aceitou um dedal sóbrio de whisky que o clone lhe escolheu do bar e deslizou o grosso cilindro de folhas castanhas sob as narinas, pronunciando, com um sorriso que, uma vez mais, lhe marcou a cicatriz: “Bem bom! Quem é que o fornece?”
Vi-o sorver deliciadamente o fumo do charuto, olhos fixos no extremo que parecia crescer e decrescer em vermelhos-vivos e em cinzentos-brasa, na mesma medida da sua respiração pausada. Instalou-se um silêncio. Breve, mas que durou para além de si. No fundo, todos aguardávamos a fala da personagem...
“Certamente possui os trabalhos do Raul na sua biblioteca...”, disse ele, enfim, dirigindo-se a António mas não descolando os olhos de mim. “Naturalmente”, categorizou o meu editor. “Gostaria de os consultar?”. O censor acenou positivamente. António pousou primeiro o copo, depois o charuto, ergueu-se e retirou de uma gaveta um par de pequenos discos psicoleitores que entregou ao convidado. “Está tudo organizado por ordem alfabética de autores”, informou.
Enquanto William Allum manteve os leitores colados a cada têmpora, abstivemo-nos de conversar, temendo importunar a consulta. Os seus olhos volteavam rapidamente, como sucede sempre que alguém se entrega a uma leitura. Ao observá-lo assim, não podia deixar de me interrogar... Em que linha de que livros se encontraria? Lembrei-me mesmo de cenas que eliminaria sem piedade se as reescrevesse naquele momento. Pesquisei na memória... Teria, inadvertidamente, deixado escapar algo passível de ser interpretado como menos humanista? A leitura arrastava-se... “Bem achado!”, riu em certa altura, rasgando novamente aquela cicatriz que eu não conseguia deixar de fixar. António, refastelado contra o fundo de uma poltrona, perna cruzada a bambolear, fingia não prestar atenção. Anamaria segredou-me ao ouvido: “Vais ver que te querem encomendar um trabalho maior... Uma coisa mesmo importante!”. Eu duvidava. “Talvez...”, balbuciei num suspiro.
Por fim, William Allum retirou os discos, piscou os olhos rápida e repetidamente e devolveu-os a António com uma vénia discreta de reconhecimento. “Tem uma biblioteca digna de um presidente!”, elogiou com mais um daqueles sorrisos que lhe traziam à superfície da pele, muito fina e marcada por alguns capilares, a cicatriz que, cada vez mais, me intrigava e inquietava. “Não me arranjaria mais um daqueles havanas, António?”, pediu de seguida. Na verdade, senti, era como se construísse uma frase imperativa com um curiosa interrogação no final. “Claro, claro...”. De novo o clone surgiu e, com uma competência extremamente elegante, retirou o charuto e entregou-o ao censor. “É tudo. Pode ir...”, despediu-o o meu editor parecendo-me, pela primeira vez, vagamente perturbado. Allum repetiu o ritual anteriormente observado, o olhar colado na extremidade incandescente. Depois, interpelou-me:
“Que impressão tem você, Raul Veloso, dos seus próprios livros?”.
Esperava tudo menos aquele género de interrogação. Por momentos, mantive-me em silêncio. Anamaria, talvez desajeitadamente, decidiu intervir a meu favor:
“Penso que a dimensão das tiragens fala por si...”.
“Talvez. Mas deixe o seu namorado falar...”, cortou o censor com um sorriso só de boca. Com um toque discreto, António mandou-a calar. Mesmo se Allum ainda aparentava um verniz caloroso, achei impossível que algo não estivesse errado. Senti-me encurralado diante da possibilidade de uma mera resposta ao homem que sempre gozava da última palavra. Ainda assim, foi nesse momento que a língua, sempre mais lenta em mim que a palavra escrita, se me desprendeu:
“Eis uma pergunta complexa...”, iniciei. “Sim, mas...”, insistiu o meu interlocutor com um breve gesto de mão. “É complicado sermos críticos de nós mesmos...” – quis dizer “censores” – “... mas em tudo o que escrevo procuro casar os exemplos dos grandes clássicos com as melhores tendências e perspectivas da modernidade e as necessidades do humanismo”, inventei. Mesmo se, bem no fundo, não deixava de ser verdade o que vinha de afirmar... Acostumado a ver-me aplaudido, apreciado, senti-me como uma mercadoria que Lisboa trabalhava e distribuía a seu bel-prazer. Apaguei, tão pouco nervosamente quanto pude, o havana que, além de quase já me arder nos dedos uma vez passada a ponta final, me invadiu de um súbito amargo de boca.
“E até onde se consideraria capaz de interpretar correctamente as necessidades do nosso humanismo europeu?”, atacou novamente William Allum, sublinhando, à maneira característica dos mais próximos do poder, aquele “nosso” que, para os mais atentos, não se sabia se elevava a forma de estar do continente ao estatuto de bem geral ou se o transformava no feudo de uns quantos. Quanto a mim, não estava habituado àquele género de complicações. Onde quereria ele chegar? Respondi-lhe de uma só tacada, obrigando-me a olhá-lo no fundo dos olhos – mesmo se, em espírito, eles voavam da lareira para o couro dos sofás, do bar para a varanda e, dali, partiam para pousar em qualquer lugar que não naquela sala – para demonstrar sinceridade e despreocupação:
“Como um dia afirmou Afonso Silva, o pensamento humanista não se encontra fora do ser humano, mas sim na sua capacidade de pensar e agir de acordo com o bem comum. E é isso que eu sempre mantenho em mente ao escrever”. Acho que nem eu próprio imaginava exactamente o que pretendia afirmar através daquele cliché, apropriadíssimo, no entanto, para um interrogador daquele calibre. O censor, aliás, soltou um “hmm” de concordância e pareceu-me momentaneamente satisfeito, voltando a sorrir, mais com a cicatriz misteriosa que com os lábios, finamente unidos durante todo o tempo que o sorriso me pareceu durar. De alívio, possivelmente, António e Anamaria também sorriram, acompanhando a personagem e a sua cicatriz. Aquela cicatriz... Ainda não conseguira deixar de lhe prestar atenção! Era como se, por si só, ela me fornecesse material para um romance de mil páginas.
Metodicamente, William Allum esmagou o charuto contra o fundo do cinzeiro, chegou-se à pontinha dianteira do sofá em jeito de confidência e comentou um “Alegra-me ver que tem as lições em dia, Raul Veloso”, num tom que detestei de imediato. No fundo, irritei-me, o que é que a personagem, um inglês ainda por cima, entendia de todo o processo de imaginar uma história, de a transpor para palavras capazes de chegar a um bom número de indivíduos e ainda de a rechear de motivos de interesse, obedecendo simultaneamente a necessidades ditadas por políticos incompetentes para redigirem os seus próprios discursos? Estremeci, apercebendo-me das implicações contidas na minha reacção íntima. Teria eu, inadvertidamente, deixado escapar uma frase ou outra? O censor sorria com aquela cicatriz que não cessava de me pôr os cabelos em pé. De repente, parou de sorrir, como se tivesse sido atacado de uma súbita dor de barriga...
“Onde fica a casa de banho mais próxima?”, indagou. “Eu levo-o lá...”, ofereceu-se António prontamente e já de pé. “Obrigado. Não é necessário.”, recusou, pressionando a boca do estômago com a ponta dos dedos gordos. “Onde fica?”.
Alguns momentos decorridos, quando certamente já se encontraria a alguma distância, rebentei: “Que interrogatório é este? Vais-me dizer que não sabias de nada!...”.
O meu editor encolheu os ombros com uma expressão atrapalhada: “E achas que sei de alguma coisa? Mandaram-me marcar esta reunião. Disseram-me que era um encontro exploratório. Queriam encomendar-te um trabalho de investigação... Sobre a história recente da Europa face ao mundo... Mas vivaz”.
“Tem calma. Não há motivo nenhum para te enervares”, acrescentou Anamaria. “Não te esqueças de com quem estás a falar... É um alto responsável e tu não és nenhum marginal, bem pelo contrário!”.
Por mim, mandaria tudo às urtigas e iria tratar da minha vida! Se queria chatear alguém, que escolhesse entre os anti-humanistas que ainda restassem, entre os defensores do imperialismo americano, entre os agentes árabes infiltrados, etc., etc., entre os outros todos, o que calhasse...
“A cicatriz do gajo enerva-me!”, larguei.
Os dois fitaram-me surpreendidos.
“A cicatriz?”, espantou-se a minha namorada.
“Sim. O gajo não podia ser mais enervante. Nem arrogante...”, justifiquei.
António colocou uma expressão sombria, debruçou-se por sobre Anamaria em direcção a mim e pousou-me a mão no ombro, admoestando-me baixinho: “Se eu fosse a ti, calava-me. As paredes têm ouvidos, nunca se sabe...”.
“Tretas!”, retorqui, ainda transportado pela minha confissão libertadora. “Estás aqui, estás a dizer-me que tens escutas em casa!...”
“Nunca se sabe...”, insistiu António num volume de voz ainda mais imperceptível, passando a pressionar-me o ombro com uma energia que só lhe poderia brotar de uma convicção real.
“Escutas em casa de um humanista não fazem qualquer sentido. Isso é pura paranóia!”, persisti, ainda que num tom mais sussurrado, mal convencido mas já contagiado pela ambiência.
António ergueu, simultaneamente, os olhos e os braços num gesto de enfado. “Santíssima ingenuidade!...”, suspirou. E fez-me calar com um “chh!” autoritário.
Bem a tempo de vermos William Allum de regresso, apresentando de novo o seu sorriso e a sua cicatriz, certamente aliviado da dor de barriga que, em minha opinião, não deixava de merecer. Deu uma tossidela aguda de catarro encenado e dirigiu-se ao meu editor com uma expressão amável mas que não permitia esconder a realidade da censura que catapultava na sua provocação:
“Reparei que a sua casa de banho só tem três conchas... E pequeninas. À maneira norte-americana, não é verdade?”
António esforçou-se para não se engasgar:
“Sim, sim”, apressou-se a explicar. “Sei bem que falta uma concha, mas acontece que a quarta se avariou. Está para arranjar. Não se trata de nenhum modelo extra-europeu”.
“Pois, pois... Já vi que aprecia o álcool e os havanas...”.
Agora, o censor atacava em novas frentes.
“Reconheci mesmo, na sua excelente biblioteca, alguns trabalhos menos bons, diria, menos recomendáveis...”
Revelava-se o falso, ou verdadeiro, puritanismo intelectual que alastrava em certos meios de Lisboa.
“Mas deixei passar sem comentários, tendo em conta a sua posição, os serviços que não tem deixado de prestar ao nosso modo de vida por intermédio da sua bem sucedida actividade editorial e ainda os relacionamentos que certamente terá junto de personalidades bem mais importantes que eu...”
Fazendo-se valer da sua posição, afinava a provocação.
“Mas a adopção de modelos à norte-americana, isso, penso que...”
Eu, que conhecia António melhor que muitos, senti-o prestes a entrar em erupção. Respondeu, no entanto, com uma voz extremamente suave. Mais importante ainda, interrompeu-o de modo inegavelmente convincente:
“Tal como o William, tenho-me sempre regido pela defesa daquilo em que acredito...” – ambíguo! Mas, de tão óbvio, o censor nem pareceu reparar – “Prometo-lhe que amanhã mesmo, hoje se possível, a ordem será reposta na casa de banho...”.
Como é que ele se autorizava a ironizar face ao censor? Coisa de raposa velha... Talvez ele fosse menos inteligente do que eu imaginara, já que a explicação pareceu convencê-lo. Ou simplesmente aborrecê-lo? Varreu o assunto e voltou-se, de novo, para mim:
“Pois é, Raul Veloso... Claro que o nosso encontro de hoje não é meramente fortuito”.
Claro que não. Inquietei-me.
“O meu tempo é demasiadamente precioso para que me possa conceder tais luxos. Mesmo se este encontro me interessa. Como já lhe disse, os seus livros agradam-me”.
Pausou uns instantes, não sei se para saborear o gosto acre da provocação, se por lentidão de raciocínio ou porque algo lhe distraiu a atenção. Acompanhámos-lhe o silêncio. Subitamente tenso, eu fixava-o a direito, imaginando-lhe compulsivamente a cicatriz que me desgostava, mesmo naquele momento em que a expressão lhe descansava inteiramente vaga e lisa. Depois, ao retomar a conversa, sorriu. E a maldita cicatriz voltou a acompanhar-lhe o sorriso...
“Sei que você é um escritor. Um artesão de palavras”, disse. “E é perfeitamente provável que certas coisas lhe passem um pouco ao lado, imerso que se encontra nas suas próprias congeminações. Mas a Europa necessita da sua solidariedade... Na vida, além da literatura”.
Aproximei-me, esticado de curiosidade.
“Você tem um irmão que não revê há anos, não é verdade? Um irmão que, tanto quanto sei, lhe era muito chegado...”.
Sobressaltei-me. O que sabia ele do meu irmão?
“Como imaginará...”, prosseguiu, “... nem todos os europeus são cidadãos tão exemplares quanto os presentes nesta sala.... Há mesmo focos escondidos de terrorismo, descontentes eternos, que não pretendem mais que minar a nossa sociedade e aproximá-la do mundo caótico de que nos afastámos para bem de todos...”.
Voltou a pausar e fixou-me, com os seus olhos azuis de agulha fina, como se pretendesse medir-me, pesar-me, antes de me revelar algo de muito sério. Quis agarrar-lhe pelos colarinhos e gritar-lhe: “E o que é que isso tem a ver com o Paulo?!”. Temi o pior... Há quanto tempo não o via! Intimamente, tinha-lhe construído uma espécie de campa mental, temporária, arrumada numa talha distante de onde o seu fantasma emergia, ocasionalmente, em momentos particulares de nostalgia. Aquele, por culpa do censor, transformara-se num desses momentos.
“E que tem o meu irmão com isso? Na realidade, há anos que não o vejo...”, indaguei, protegendo-me vergonhosamente atrás de uma capa de curiosidade fria.


(continua)

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

I (continuação)

António de Tarancón aguardava-nos pontualmente às oito da noite. Ainda não terminara de marcar o código da sua campainha e já um dos seus clones – privilégio caro e de forma alguma reservado a todos – nos abria o portão exterior da moradia que fizera construir na zona da Boavista, ocupando a área onde antigamente se situava o Colégio Francês e mais algumas moradias que entretanto haviam decaído por dificuldades dos proprietários, e que constituía a menina dos seus olhos. Uma beleza, rodeada de flora dos cinco continentes e completada por um court de ténis, por uma piscina coberta, um mini-lago rodeado de chorões reflectidos nas águas e por uma área de repouso. Instalara um dispositivo de prevenção sonora e, uma vez no interior, os ruídos da cidade metamorfoseavam-se em melodias campestres.
Além disso, como nunca casara, encontrava forma de ter o tempo permanentemente ocupado. Apesar de ser o meu editor – mais propriamente um intermediário soberbamente pago, já que a edição de trabalhos literários estava quase exclusivamente destinada ao Gabinete de Edição da Secretaria de Estado das Formas de Expressão Artística – ocupava o terceiro e o quarto andares com uma vasta colecção de arte contemporânea que não parava de crescer e onde se incluíam nomes tão importantes quanto Arnaldo Teodósio, Carlasofia Andrade e Ricardo Pavlopoulos, entre os portugueses, ou Webster Goldstein e Françoise Schmidt no que tocava à produção de outros estados europeus. E ainda encontrava tempo de sobra para dedicar à ciência, a sua paixão de sempre...
Corriam mesmo alguns rumores de que escondia uma faceta de excêntrico que procurava a nunca descoberta e sempre sonhada máquina do tempo nas horas vagas. A máquina do tempo para cuja pesquisa, aliás, Lisboa cortara todas as verbas. De qualquer modo, o ministro da Ciência, um homem calvo e muito moreno que eu encontrara duas ou três vezes no decurso de visitas ao Palácio de Queluz, onde se situavam os gabinetes ministeriais, empertigara-se todo por me ouvir trazer a história da viagem no tempo à baila e pronunciara: “Esse seria um assunto muito sério, senhor Veloso. Tão sério que não é para andar pelas bocas de qualquer um”. Receando despertar-lhe alguma antipatia, apressara-me a concordar. E ele, fazendo que sim com o indicador direito espetado, despediu-se de mim com um sorriso e um “Gostei muito do seu último livro. Assuntos que realmente importam... Para quando é que temos o próximo?”. António, o meu editor, também tinha muito a preservar e nunca se descosia... A quem o devesse ouvir, declarava candidamente que não era mais que um amador interessado pelos progressos dos profissionais que tanto admirava.
Entrámos. Os olhos negros do clone, vestido a rigor como um daqueles mordomos que se vêem em filmes de meados do século XX, o que decorria da paixão cinéfila retro de António, não traíam qualquer emoção. Eles são propositadamente feitos dessa forma, já que sentimentos humanos poderiam despertar-lhes emoções humanas... Parecia, no entanto, extremamente dedicado e delicado.
“Façam o favor de me acompanhar”, indicou com um gesto sóbrio.
Seguimo-lo até ao pórtico de mármore branco, liso e trabalhado à maneira da Grécia clássica, que servia de entrada à vivenda, composta por três andares e um recuado fundamentalmente constituído por uma imensa varanda onde o meu editor gostava de se estender nos longos fins de tarde estivais. De lá avistava-se o mar. Talvez, secretamente, ele gostasse de imaginar aventurosas viagens de barco até ao continente americano, escondido algures além da corcova do mundo... De momento, entretanto, as relações com os Estados Unidos e os países satélites do continente mantinham-se tensas como sempre me recordava.
Tudo começara com guerras comerciais a que já ninguém da minha geração chegara a assistir. Depois, a Nação Árabe, coligação polémica de alguns Estados do Golfo – denominação mais fortemente contestada por habitantes da Península Arábica, berberes e outros muçulmanos de etnias dificilmente árabes – bombardeara de surpresa um grande número das principais cidades europeias. Londres, Berlim, Bona, Paris, Bruxelas, Madrid, Atenas, tantas outras... Pouco restava para lá da estupefacção geral das populações e dos líderes que, pateticamente, balbuciavam terem acreditado no sucesso lógico das conversações de paz e cooperação que há anos vinham desenvolvendo, ainda que com a oposição do governo de Washington e a progressiva e decorrente erosão das velhas forças da NATO. Demitiram-se em bloco – pelo menos, os que sobreviveram ao holocausto – era eu ainda um miúdo de colo, não sem antes transferirem a capital de urgência para Lisboa, miraculosamente poupada ao fogo celeste.
Só então o presidente Wallace lançou as suas tropas sobre os auto-proclamados exércitos do Islão. Graças ao poderio militar que o seu país viera reunindo ao longo de muitos anos e contra tantos protestos nacionais, internacionais e orçamentais, não tardou a impedir a entrada dos invasores no Velho Continente. Mas o Velho Continente estava arrasado e preso a um fio finíssimo de convicções. Foi assim que as tropas norte-americanas não foram recebidas com alívio e sim com raiva. Porque haviam intervindo tão tardiamente? Porque haviam permitido o holocausto? James Wallace ainda lançou apelo dos laços que uniam os povos do hemisfério ocidental, prometendo avançar com um plano de auxílio económico-humanitário semelhante ao plano Marshall de quase um século atrás. Mas as autoridades recém-instaladas de Lisboa e lideradas pelo presidente interino Afonso Silva que, antes de mais, desejava garantir poder e estabilidade, revelaram-se mais irredutíveis que todos... Os americanos haviam permitido a destruição da Europa, alicerce basilar da cultura e da civilização. E surgiam, só agora, com discursos aparentemente amigos e planos de aparentemente desinteressado auxílio. Que melhor maneira teriam para retomar o poderio e influência que a política nacionalista de Bruxelas lhes havia roubado? De modo algum! A Europa saberia levantar-se sozinha. Sem declarar abertamente qualquer corte de relações com Washington, o governo de Lisboa anunciou um período de reflexão e reconstrução em que os contactos entre ambos os lados do Atlântico se deveriam passar a cingir às mais formais relações diplomáticas entre Estados. E nisso foi apoiado de Norte a Sul, de Leste a Oeste, por uma população que, decorridos os primeiros momentos de estupor pela perda de pontos de apoio e pela chacina de familiares e amigos e compreendido o período de desolação económica que se avizinhava, necessitava desesperadamente de uma identidade e de exprimir a fúria que, então, se apoderou de todos.
Contrariado embora, pressionado por lobbies, pelos media e pela opinião pública, o presidente Wallace gravou uma mensagem televisiva destinada a todos os europeus... Lamentava mas compreendia. E aguardava esperançadamente o momento em que os braços se voltassem a estender através do Atlântico. Mas do lado de cá, onde a mensagem não passou na íntegra, todos os olhares, todos os ouvidos, o compreendiam através de uma tela opaca de dor e raiva. E as manifestações, por todo o continente organizadas em apoio da atitude enérgica de Afonso Silva e contra o imperialismo dos interesses económicos norte-americanos, devem bem ter rasgado mais que um sorriso no rosto deste. Tudo isso, na altura em que entrávamos em casa do meu editor, ainda não o sabia. A história oficial é, infelizmente, oficial. Só mais tarde e em circunstâncias menos que agradáveis o vim a descobrir...
Ali, no entanto, estávamos a milhas e milhas das tormentas da política. Tanto mais que, vinte e oito anos decorridos sobre o famigerado 4 de Janeiro de 2034, era indiscutível que a Europa recuperara e que, sem ajudas norte-americanas ou outras, reconstruíra uma economia – fechada mas, contra os mais negros vaticínios de muitos teóricos, florescente. Estados como a Alemanha, França e Reino Unido haviam recuperado o fulgor industrial de outrora e, mais que isso, haviam-no duplicado, triplicado, mercê de grandes esforços e de uma aposta atilada na investigação. Portugal, por seu turno, desenvolvera-se mais que durante séculos consecutivos de relativo atraso e, ainda que, à imagem de outros estados do Sul, houvesse trabalhado particularmente na sua vocação comercial e de serviços, mantivera a cadeira do poder.
António recebeu-nos pessoalmente, com um forte abraço, como era seu hábito, efusivo como se nos revisse após um lapso de anos em lugar de dias ou semanas. “Olá, Raul! Anami!” – ele sempre usava um diminutivo para se dirigir à minha namorada. E justificava: “As amizades dispensam longos títulos”.
À medida que percorríamos os corredores de um branco imaculado e intercalado por um conjunto de telas escolhidas a dedo, anunciou: “Tens, hoje, um convidado que é importante que conheças. Convidei-o propositadamente por tua causa... É indispensável que te relaciones com ele”. Anamaria, apreciadora das coisas sociais e incansável impulsionadora do meu sucesso, apertou-me fortemente o braço num reflexo de excitação. Senti-me intrigado e até mesmo um pouco intimidado. Afinal, era eu quem estava no centro das atenções e isso tolhia-me o à-vontade. Ela, que me conhecia e já antevia esse tipo de reacção, passou-me a mão pela cintura, o que me acalmou, mas não mais que um pouco. Quem seria a personagem curiosa que me aguardava ao fundo dos corredores? Estaria Anamaria a par e teria ela entrado no jogo? Prescrutei-a de esguelha... Não... Talvez não.
“Gostas do meu novo Coruhlu?”, perguntou-me António, apontando uma tela bizarra, de cores quentes, na viragem do corredor que antecedia a sala de jantar. Na verdade, não me pedia qualquer opinião. Limitava-se a anunciar-me uma aquisição e, simultaneamente, a quebrar o silêncio que me rodeava os pensamentos. Senti o rectângulo da porta aproximar-se como num filme rápido, enquanto a luminosidade densa do interior principiava a chocar com a serenidade daquelas paredes. Um fio de Schoenberg chegava do interior. “E quem é o convidado-mistério?”, interroguei, tarde demais já para que pudesse receber uma resposta.
Ao fundo da sala imensa, decorada, em cada canto, pela cópia de uma das Cariátides atenienses que o holocausto se encarregara de definitivamente transformar em poeira, uma poltrona alta e sóbria, posicionada de costas, não descobria mais que uma madeixa do cabelo farto e grisalho do convidado, sentado de frente para a hi-fi multifónica que exagerava, a meu ver, a música de câmara numa orquestra sobredimensionada. Estiquei o pescoço. Mas ele, sentindo a minha presença, cortou o som e ergueu-se, revelando-se-me na figura anafada mas temível de William Allum, presidente do Comité Europeu de Análise Criativa – na prática, o que em outros tempos dera pelo nome bem mais prosaico de Comissão de Censura Prévia. Como se a análise fosse realmente necessária num universo em que nenhum autor potencialmente menos ortodoxo sonhava ver-se publicado pelas casas editoras, de uma forma ou de outra ligadas a Lisboa! O raciocínio incomodou-me.
A figura do censor pareceu-me, no entanto, simpática e afável quando, em passos firmes e medidos, se nos dirigiu de braços abertos, afirmando mais que interrogando: “É então este o célebre Raul Veloso?”. Apertou-me a mão com segurança, ao mesmo tempo que deixava ver, no seu largo sorriso, uma cicatriz que se alargava a partir do lábio inferior, bochecha fora, quase até ao ouvido esquerdo. Ninguém sabia de onde lhe surgira aquela marca, a sua imagem de marca... A mim, sempre me parecera tenebrosa. De alguma forma, entretanto, já ouvira mais que uma mulher referir-se-lhe como “sensual”. “É então este o nosso Raul Veloso?”, repetiu, demonstrando um contentamento que me pareceu genuinamente inesperado. “Sou eu mesmo”, respondi, à falta de réplica mais inspirada. E ele insistiu: “Sou um grande apreciador dos seus trabalhos, sabe? Como direi... Enérgicos mas justíssimos!”. Por instantes, fincou em mim os seus olhos pequeninos e muito azuis, parecendo pretender apropriar-se-me de cada pensamento. “Deformação profissional”, concluí com algum incómodo.
António indicou-nos a mesa, grande e plena de entradas vegetarianas e frutos secos elegantemente dispostos sobre uma toalha de linho supremamente trabalhado. Sentámo-nos. Eu frente a William Allum, Anamaria diante de António. “O Director Regional da Cultura deveria ter-se-nos juntado”, explicou o meu editor. O censor atalhou: “Infelizmente, ficou retido em Madrid. Mas envia-lhe cumprimentos. Ele também aprecia o seu trabalho...”.
(continua)

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

I

Encontro-me em pleno meio de uma festa. O céu nocturno, escuro e estrelado, rasga-se de uma chuva de fogos de artifício excêntricos, espampanantes. Da área mais iluminada do recinto circular e longilíneo, centrado por uma piscina pontuada de repuxos, cascatas e pequenas palmeiras muito verdes – o bar – chega o som de uma banda que actua para uma multidão de dançarinos mascarados. Palhaços, astronautas, sereias, aves exóticas, seres estranhos que se enlaçam, se soltam e novamente se enlaçam, rodopiam em torno de centros invisíveis. Escutam-se gargalhadas, conversas soltas, cocktails exóticos que gorgolejam contra copos fundos. Clones de ar compenetrado, erecto, mantêm-se atentos junto às entradas, varrendo tudo com o seu olhar circunspecto. Caminho devagar, tudo observando distraidamente.
De súbito, recebo um encontrão de ombros. Trata-se de um pirata igual aos que conheci nos livros coloridos da minha infância. Uma perna de pau verdadeira, um real olho globular de vidro baço, uma indubitável cara de mau. Por momentos, aguardo que se desculpe. Mas a figura mantém-se estática diante de mim, barrando-me o caminho, ferindo-me com uma gélida expressão de intolerância. Então, revela-se num sorriso largo de dentes acastanhados, podres, descascados. Arrepio-me. É aí que me apercebo que a banda se calou, que as luzes esmoreceram, que as próprias estrelas parecem ter caído do céu ao ritmo dos flamejos do fogo de artifício, até se apagarem lentamente à superfície bamboleante das águas. A própria brisa nocturna estarreceu à espera da minha reacção. E compreendo, aterrorizado, que se trata do próprio demónio!
Afasto-o com brusquidão e parto, ofegante, em busca de alguém conhecido ou de um clone que me defenda. Mas a festa recomeçou e ninguém se apercebe da gravidade da situação. Sinto que a única forma de me salvar é atravessar a pequena ponte que cruza a piscina de uma ponta à outra. Apresso-me. Mal subo alguns degraus, apercebo-me de que um bando de morcegos negros volteja sobre mim. É mesmo o demónio!, soluço. E tropeço nos meus próprios pensamentos como quase tropeço nos degraus que subo dois a dois. Chegado ao cimo, olho, sobre o ombro, para trás. O meu perseguidor não me perseguiu. Mas eu sei que tenho que atravessar a ponte! Volto-me, corro em direcção ao lado oposto. Repentinamente, uma mão grande e invisível empurra-me e acho-me numa queda funda e interminavelmente lenta contra as folhas de uma palmeira, rasgantes como serras mecânicas, que iniciam um movimento rotativo, crescentemente rápido, estonteante já, sob o meu corpo impotente, incapaz de travar o inevitável.
“Acorda! Estás outra vez com pesadelos!” – era Anamaria, a minha namorada, quem me abanava e me arrancava às garras do monstro recorrente que há tempos me vinha impedindo de adormecer sem medo de me encontrar, uma vez mais, no meio daquela perigosa e estranha celebração.
Gotas de suor cobriam-me o rosto. Já lhe contara o meu pesadelo. Ela não parecera ligar muito mas, agora, perante a persistência, preocupava-se. Colocou-me a mão no peito e esboçou uma careta: “Parece um cavalo de corrida!” Ainda entontecido, fiz que sim e sentei-me, meio curvado, no rebordo do sofá. Ela colocou-se ao meu lado e encenou aquela expressão de seriedade que lhe semicerrava os olhos pensativos: “Acho que devias consultar um onirologista”. Um onirologista, eu! Permitir que me colocasse debaixo dos seus aparelhos e prescrutasse todos os meus pensamentos mais íntimos, mais escondidos!... Decididamente, não. Tanto mais que, atormentado pelas minhas dúvidas inconcretas e pelos meus textos secretos, eu realmente temia ter algo a esconder. Ergui-me. “Não”, afirmei peremptório. “Não me parece que já tenha chegado a tal ponto. No fim de contas, não devo estar assim tão destrambelhado!”.
Anamaria aproximou-se de mim, que fugira instintivamente para o canto da sala onde se encontrava um imageoscópio colorido e tridimensional, com cujos botões brincava aleatoriamente, soltou um sopro de enfado e passou-me a mão nos cabelos... “Se te faz tanta impressão, não se fala mais nisso”. Depois passou-me o braço em redor do pescoço e bichanou-me em tom de brincadeira: “Ou será que tens alguma coisa a esconder-me?”. Reagi com um estremecimento de surpresa e, apercebendo-me disso, antes de lhe dar tempo para uma resposta, optei por calá-la com um beijo colante. “Achas que este é um beijo de quem tem alguma coisa a esconder?”, improvisei. Talvez tenha sido tão desajeitado que não tenha deixado de levantar suspeitas. O certo é que a conversa morreu ali mesmo, quando novamente me debrucei sobre ela e lhe enfiei decididamente a língua entre os lábios.
Durante um bom bocado, lembro-me bem, ficámos ali, estendidos no chão, a ter sexo. Ligara o aparelho no canal 329, um musical que só passava baladas, e esquecera-me dos músicos que ficaram a pairar ali mesmo, no centro da sala, debitando melodias suaves que tivera o cuidado de programar para o volume mínimo, quase um sussurro. O sexo sempre foi a perdição da generalidade dos homens. Inclusive, no final do século XXI. Penso que o meu coração nunca batera num andamento especialmente forte por Anamaria, embora, a certa altura, me tenha chegado a convencer que sim. Mas ela era uma companheira quente como poucas e isso bastava para me convencer de todos os sentimentos. Tanto mais que, pelo menos até então, nunca me pautara por um espírito especialmente ousado, a começar pelas minhas capacidades que colocava ao serviço da Europa humanista, do meu conforto e da minha fama, sem me interrogar demasiado acerca disso ou, melhor, sem permitir que as minhas interrogações me fizessem cócegas. Engoliam-me e eu deixava-me engolir com gosto.
Um par de horas decorrido, Anamaria, com o sentido prático que caracteriza tantas mulheres, do género que eu mais dispensaria, afastou-me bruscamente. “Que horas são?”, perguntou. “Sete”, respondi. Ela abanou a cabeça e preparou-se para se levantar, puxando-me pelo braço. “Temos um jantar! Não nos podemos esquecer”, proferiu, subitamente séria. Saciada dos prazeres da cama, lembrava-se das obrigações da mesa. Obrigações, sim. Um jantar chato, com gente chata a falar de política e de negócios e a estragar os possíveis prazeres culinários que eu também não desdenhava. Isto é, num ambiente interessante. Não no meio de gente chata a falar de coisas chatas. “Vá, vamos!”, insistiu ela. “O António conta contigo. E deve aparecer lá o Director Regional da Cultura...”. O Director Regional!... um funcionário gordo, velho e chato, pensei. Mas conformei-me. Contra argumentos de peso, que fazer?
(continua)

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Prólogo

Tudo começou há muito tempo já. Não sei se na Antiguidade Clássica ou na idade da Pedra Lascada ou ainda no próprio momento em que a criação tenha rebentado com a bolinha inicial do Universo. No fundo, o que são o tempo e as coisas senão uma ideia mais abstracta e, possivelmente, permanente do que se nos oferece a nós, partículas ínfimas e enclausuradas da matéria, compreender? Despotismo e democracia, formas sociais de viver, poderão não ser mais do que as mesmas faces de uma moeda de valor relativo. A verdade é que nos dispersamos como o próprio Universo de que fazemos parte. E, mais ainda, que nos dispersamos com banalidades. Mas, que querem?, não sou filósofo. Assim, situemos antes o início bem mais perto do nosso entendimento, há cem, cento e tal anos. No século XX, tão próximo ainda e de que nos chegam, no entanto, imagens tão escolhidas e fragmentadas que nos poderemos interrogar se não farão parte de um outro universo. Afortunadamente, tive, durante a minha vida, acesso a fontes e locais negados à maioria dos europeus de finais do meu século. E é graças a isso que vos poderei narrar – é isso que sei fazer, já que, desde sempre, sonhei viver da escrita e que foi mesmo na escrita que baseei toda a minha carreira, abruptamente interrompida por um golpe do acaso, se é que ele existe – a história dos acontecimentos que transformaram toda a minha existência. Uma sorte, direi eu, passados os momentos mais dolorosos...
Corria o ano de 2062 na cidade do Porto, onde eu preenchia a minha existência como escritor-quadro do Governo Central dos Estados Unidos da Europa, sediado em Lisboa desde a década de trinta. Não me faltavam contratos. A capital considerava a minha actividade fundamental na educação contínua dos europeus e tivera a sorte de a minha eloquência, o meu poder argumentativo e a minha imaginação caírem nas suas boas graças. Não me faltavam, portanto, contratos. Podia criar, criar sim, ainda que dentro dos trâmites humanistas requeridos pelo Estado. E não me sentia particularmente mal com isso, já que nada mais conhecia e gozava não só de um estatuto invejável para muitos como ainda de um perfeito conforto material.
Nada mais conhecia mas desconfiava... Era, naturalmente, céptico. Por isso vivia uma vida secreta, feita de outras histórias, histórias só minhas, nada de Estado, mas cuidadosamente guardadas a sete chaves para evitar problemas. Era, naturalmente, curioso. Por isso, por mais que soubesse que o humanismo e a civilização constituíam uma ciosa herança europeia e que o resto do planeta mergulhara no caos e que Lisboa nos protegia do contacto com esse mesmo caos, ainda que pouco – e, sobretudo, poucas notícias fidedignas – transpirasse do lado de lá da nossa colmeia, sonhava com o mundo. Com um misto de temor e de exaltação. Por isso, transpunha a minha curiosidade e o mundo imaginado para histórias marginais, livres e escondidas de todos os olhares. Excepto do meu próprio. Para meus grandes prazer e frustração.
À luz do dia, entretanto, trabalhava exclusivamente para o Estado e para as suas glórias perenes. Tratava-se, aliás, de uma tradição de família. O meu pai trabalhava para o Estado. O meu tio paterno, um extremamente ortodoxo defensor do humanismo europeu, trabalhava para o Estado e construíra uma forte reputação enquanto defensor de primeira hora da grande nação europeia, participando em encontros, congressos e conferências, varrendo com o poder do seu discurso político todos os opositores e reduzindo-os à sua óbvia condição de traidores ingénuos ou viciosos, os quais, em qualquer dos casos, convinha reeducar. Ele próprio, directamente ligado à política educacional de Lisboa, encontrava-se entre os impulsionadores do desenvolvimento dos assim chamados chips cívicos e entre os fundadores dos chamados “Lares de Reabilitação”. A simples menção do seu nome, mesmo se os anos já o haviam afastado para uma vida menos activa, ainda causava admiração entre quem o escutasse. A minha tia materna devotara toda a sua vida útil a secretariá-lo com a convicção de quem encontra um mestre à sua altura. Também a minha namorada trabalhava para o Estado. E a minha irmã mais nova, para grande agrado da família. Fora isso, a minha mãe, uma personagem doce, dedicada e confiante, colocara todas as suas energias ao serviço do lar, uma tarefa meritória e esforçada, aliás, favorecida pela política de Lisboa de subsidiar o trabalho doméstico. No conjunto, só um nome seria cuidadosamente evitado nos círculos familiares, apagado das memórias como se nunca houvera existido: Paulo, o meu irmão, cinco anos mais velho que eu. Um contraditor teimoso, tanto mais irredutivelmente teimoso e contraditor que, um dia, simplesmente desaparecera e ninguém sequer pensou, ou mencionou pensar, em procurá-lo. Mesmo se, penso, com isso a minha mãe terá sofrido um abalo que apenas imagino ter decifrado no seu olhar a partir daquele momento. Ninguém mais mencionaria Paulo, a ovelha negra, o contraditor teimoso. Salvo eu e, ainda assim, apenas agora que sorvo os meus goles da verdadeira liberdade para que acabei por me ver empurrado, porque dele guardo as melhores recordações da minha infância e da minha juventude.
E foi assim que, para mim, tudo começou...

sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Início da publicação na próxima segunda-feira

A publicação de O Rodopio do Escorpião vai arrancar na próxima segunda-feira, com um pequeno prólogo. Depois, tenciono ir publicando o romance faseadamente, o que poderá incluir a não publicação de capítulos inteiros e sim a sua divisão de forma facilitar a leitura.
Teoricamente, todas as semanas sairá algo novo. Mas, claro, tudo depende do número de leitores que aqui acedam. É por isso que vos peço: divulguem o blog, de modo a que se alcance um número de visitantes que permita a inclusão lógica de algo novo todas as semanas... E, já agora, não deixem de visitar o meu blog Poesia para quem quiser, presentemente com mais de 400 entradas, já com uma longa história, cujo link se encontra mesmo aí ao lado.
Até lá, um abraço.

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Aproximadamente uma década após a sua finalização, eis enfim disponibilizado O Rodopio do Escorpião, um romance de Jorge Simões.
A obra, cuja acção decorre no Portugal e na Europa de meados do século XXI, é composta por um epílogo, onze capítulos e um prólogo, os quais irão sendo aqui publicados ao longo do tempo, como nos velhos e celebrados folhetins em continuação.
Perguntar-me-ão se a obra não foi proposta às tradicionais editoras... Com certeza que sim. A uma meia dúzia, talvez. Um dos comentários, dos pouco comentários que alguém se terá dignado fazer e que me ficou na memória foi algo como: "Não se percebe bem onde o autor quer chegar". Um comentário que fala mais de quem o profere do que da obra ou do autor... Como nitidamente fala do país que é Portugal.
É possível que já tenham lido melhor. Eu também. Um romance que compusesse neste momento seria, inclusive, diferente. Embora conte com uma larga obra poética, a prosa, muito diferente, muito mais cansativa, extremamente trabalhosa, área na qual em tempos publiquei o livro Ghost Dance - Histórias do surreal Americano, cuja totalidade dos exemplares que restam se encontra actualmente comigo e não nas livrarias, é uma área que ainda terei que continuar a desenvolver. Mas estou certo que a obra vale por si. É, pelo menos, literatura e não a assim popularmente chamada literatura light.
É por isso que vos digo: guardem este blog nos vossos favoritos e visitem-no regularmente. E não se esqueçam de me ir enviando opiniões...
Abraço,
Jorge Simões