Acordei com o coração em Mach 2 e uma sensação de peso que me começava no peito e se esgueirava, em veios finos, pelo pescoço acima, até às têmporas, antes de se espraiar, de forma mais potencial que real, numa espécie de raio largo que me descia da testa até à nuca. Pressenti que tinha vivido um grande pesadelo, daqueles que se infiltram na festa de um mundo que não é o seu, absolutamente virais e, mais ainda, conseguem ocultar perfeitamente a sua identidade no meio de tanta brutidão no estado puro. O facto de não me recordar de nada só contribuía para aumentar aquela opressão atordoada. Estaria de novo atacado da recorrência da piscina onde me afundava? Como sabê-lo? Ao meu lado, Christine dormia o sono profundo dos anjos após uma noite de boas acções. Mas eu via-me perfurado por um calor intenso e uma secura que se prolongava das entranhas à carne dos lábios fendidos. Toquei a boca com a ponta do indicador e retirei-a com um fio vermelho-claro de sangue fresco. Ainda ensonado, alarmei-me e dei um encontrão a Christine.
“Sinto-me mal...”, gemi.
Ela fitou-me e levou a mão à minha testa.
“Estás a ferver!”, exclamou. E levantou-se como se nunca tivesse estado, ainda momentos antes, a dormir. “Temos que tratar disso”.
Foi assim, com uma imensa gripe, que começaram os meus tempos em Étampes. E ainda bem! Durante os primeiros dois dias limitava-me a dormir, a dormitar e a gemer para quem tivesse a paciência de me escutar. Logo depois, tive a sorte de dar de caras com a biblioteca do avô de Christine... Recordo-me que comecei por me espantar com o espaço que tudo aquilo ocupava e como estaria mais bem aproveitado e acomodado em memórias artificiais ou em semis, como se chama aos computadores e psicoleitores cujo funcionamento imita o dos neurónios humanos. Mas precisamente todo aquele anacronismo, o odor que se desprendia daquelas folhas amareladas, a estética bizarra e imperfeita das capas muito bem conservadas, picavam-me no fundo de onde quer que eu guardasse a curiosidade. E dei comigo a manuseá-los, primeiramente, de seguida a folheá-los, então a ler frases soltas e a saltar páginas ou a começar por lhe ler o final e, finalmente, a lê-los com uma avidez que me ocupava o tempo e a gripe e que crescia a cada nova descoberta. Era, em tudo, algo semelhante à forma como de um perfeito desconhecido que ninguém nos apresenta, e que talvez até nem seja apresentável, se faz um amigo.
O certo é que, passados os primeiros momentos, a gripe parecia ir e voltar vezes consecutivas e, mais do que prisioneiro em Étampes, eu via-me encarcerado naquela casa, amarrado à minha convalescença. Uma prisão agradável, confesso... Seria fastidioso estar aqui a relembrar as miríades de autores com que travei conhecimento depois de, num primeiro momento, ter encontrado um exemplar do Spleen de Paris que fez as minhas delícias. Corri, assim, toda a galeria dos escritores presentemente desconhecidos ou apenas transformados em vagos ecos, aprendendo a reconhecer as culturas e histórias do proibido Médio Oriente através de nomes tão exóticos como Maalouf, descortinando as contradições do tradicionalmente inimigo gigante norte-americano em obras de Hemingway, D. J. Sallinger, Kerouac e tantos outros, aprendendo as lutas de classes de cores mornas dos mundos perdidos de Jorge Amado ou Erico Veríssimo. Mas já me alongo demasiadamente na descrição da minha descoberta fulcral daqueles tempos. E outras descobertas houve...
Embora sempre presente a meu lado, Christine encontrava-se fora frequentemente. Um dia, sentindo-me melhor, decidi sair ao exterior, ignorando o que poderia encontrar. A casa ficava próxima do que outrora deveria ter sido uma estação de caminhos de ferro. Segui à sorte pelas ruas que encontrava e dei com um pequeno largo centrado por um fontanário seco que me despertou a curiosidade. Onde vira já eu algo assim? Era um grupo de leões alados, de cor esmorecida, que pareciam rugir em uníssono uma marcação de território surda. Imobilizei-me por instantes na análise de cada pormenor da obra, simultaneamente simples e portentosa. Só então percebi que, precisamente no centro histórico do Porto, corria uma fonte em tudo igual, apenas de dimensões ligeiramente superiores! Qual teria brotado em primeiro lugar?
Descobri ainda que Étampes era uma verdadeira cidade fantasma onde o rumorejar da brisa contra as arestas das casas perfeitamente intactas de telhados escuros e inclinados podia soar como o anúncio de um tufão. A todo o redor do casario, sob as nuvens recortadas que compunham odes sinfónicas silenciosas, corria o mato desbragado no que já deveriam ter sido campos cultivados. Por vezes, alarmava-me o ruído súbito da moldura de alguma janela a ecoar sem aviso. Outras, sentia-me como um animal selvagem a quem tinham cortado a trela e não desejava mais do que continuar a perder-me pelo pequeno labirinto daquelas ruazinhas até que a escuridão da noite por iluminar me levasse de volta a casa.
Quando regressei, estava a noite mais escura que jamais vira. Uma luzinha tremeluzente de candeia fantasmagorizava a janela do primeiro andar, o que significava que Christine regressara. Até aí, concentrado nos meus acessos recorrentes de tosse e em devorar o que fosse papel que me caísse das prateleiras daquele casarão, nunca me interrogara particularmente acerca do que ela poderia andar a fazer durante o dia... Desta vez, porém, sentado à mesa de jantar, um pouco mais tarde, interroguei:
“Que tal te correu o dia? O que é que fizeste?”
Ela não poderia ter sido mais evasiva.
“Andei a tratar dos nossos assuntos”, respondeu.
“Estiveste em Lisboa?”, lembrei-me.
“Hmm-hmmm”, acenou-me no meio de uma garfada, sem realmente dizer que sim nem que não.
Estava demasiadamente cansado para insistir e fiz-me de satisfeito com aquela resposta.
Nos dias que se seguiram, como um belíssimo sol insistisse em romper o cerco aéreo das grandes muralhas cor de cinza, habituei-me à minha volta de reconhecimento vespertina. A paisagem repetia-se mas contentava-me, de tão diferente e pela sensação de que, no meio do vazio e dos ecos, tudo aquilo era propriedade minha. Foi numa dessas ocasiões, quando precisamente agarrava uns raios de luz, debruçado sobre o meu fontanário dos leões alados, perfeitamente convencido do meu isolamento protector, que a figura surgiu de uma esquina. Parecia-se, ao menos na minha vaga noção do que isso poderia ser, com um profeta luminoso de outros mundos. Irradiava um sorriso permanente, quase colado a si, à sua longa barba branca e sedosa, ao cabelo escorrido sobre os ombros que reflectia a luz do dia em muitas direcções, aos seus olhos claros, de um azul pálido mas estranhamente fundo, à sua contrastante pele lisa que o revelava mais jovem do que poderia aparentar, aos seus dedos longos e finos, de unhas redondas em meia-lua, bem recortadas, à longa túnica quase etérea, de um rosa muito pálido, quase branco também, que lhe percorria o corpo magro e lhe recobria os pés, transmitindo a sensação de que saberia perfeitamente levitar.
“Boa tarde”, dirigiu-se-me num francês de sotaque correcto em que me pareceu detectar um suave acento alemão.
Por instantes, não encontrei em mim o fôlego para lhe dar uma resposta. Depois, acordei.
“Boa tarde”, meio respondi, meio repeti, intrigado por aquela figura tão diferente de qualquer que alguma vez se me tivesse deparado.
“Está um belo dia para a região e para a época do ano”, disse-me, num tom vocal de quase confidência, sempre fitando-me directamente nos olhos com aquele azul estranho e aquele sorriso dificilmente decifrável.
Na verdade, não tivesse ele transmitido tanta calma e tanta paz, ter-me-ia irritado. Nunca me sentira à vontade com as pessoas que aparentam alheamento das coisas do mundo, que é como quem diz, dos meus próprios problemas no mundo, ainda que só recentemente tivesse começado a perceber o que poderiam ser... Senti, também, um certo ímpeto de o interrogar pelos colarinhos, saber o que fazia no meu território. Por outro lado, eu não passava realmente de um recém-chegado. Limitara-me a concluir, apressadamente talvez, que tomava posse de terra virgem. E era natural que me tivesse equivocado.
“Vive em Étampes?”, interroguei da forma mais diplomática que encontrei.
“Vivemos. Neste momento... Amanhã, quem sabe?”, disse muito vagamente, quase me perfurando com aquela mistura letal de olhar e sorriso.
Vivemos? Nós? Podia muito bem faltar-lhe um ultrabyte...
“Mora com alguém?”, insisti.
“Nós somos um”, retorquiu. “Todos somos um”.
Pausou. De seguida, como se farejasse algo na brisa que se erguia como um redemoinho, recuou um passo. Diria que se assustara com algo se aquele sorriso etéreo não contrariasse inteiramente tal possibilidade. Penteou a barba com a palma da mão em concha e estendeu-ma:
“Bem. Tenho que ir. Espero voltar a ver-te...”
E desapareceu por uma esquina diferente daquela por onde surgira inicialmente.
Nos dias que se seguiram, esperava sempre, no meu íntimo, reencontrar aquela criatura das estrelas e talvez prolongar um pouco mais a conversa, desvendar os seus mistérios, o que o trazia àquele local abandonado. Habituei-me, inclusive, a levar comigo um ou outro livro que me fizesse companhia enquanto esperava que surgisse de uma sombra qualquer... Mas, à mesma hora e a outras, a praça dos leões alados mantinha-se empedernidamente, quase misteriosamente, silenciosa face ao meu desejo.
Numa dessas ocasiões, naquela altura do dia em que o sol se amarela e as paredes brancas parecem enrugar-se em tons mate de fotografias pioneiras, um torvelinho de poeira atacou-me de um acesso de tosse insustentável e empurrou-me psicológica e fisicamente para além da praceta, ruas adiante, em círculos cegos, até aos limites do casario. “Conservatório de Música de Étampes”, “Pâtisserie”, “Bistro”... O silêncio que brotava dos letreiros gastos e tombados como se se recusassem a acordar de um coma de mil anos obrigava-me a prosseguir. Mentalmente, chamava por alguém que se escondesse entre alguma fresta de vento sibilante, mas os meus passos ressoavam demasiadamente alto na calçada como a única resposta possível. É verdade que as repetidas ausências de Christine começavam a abandonar-me a um estado de solidão latente que me vinha de encontro às têmporas em marteladas ainda apenas vagamente perceptíveis mas tenazmente crescentes... Finalmente, dei comigo a percorrer uma estradazinha ascendente de terra onde o silêncio era ainda mais agudo. A passos dados, cheguei a um local onde, à minha esquerda, além de um muro, se estendia um pequeno cemitério, muito branco e abandonado, cujo portão, que a ferrugem fazia ocre, guinchava num lamento balançado para cá e para lá. Estranho que nunca nele tivesse reparado... Uma nuvem escura encobriu momentaneamente o sol tardio e decidi explorá-lo enquanto a luz mo permitia.
As grades gemeram e fecharam-se atrás de mim com um ruído surdo. Havia ali algo de história de terror! Mas a mim, habituado que estava aos truques da escrita e devorado por uma curiosidade que me parecia a única forma de escapar ao ócio excessivo, isso não impressionava. Ia lendo as inscrições cobertas de musgo das campas, espreitando para o negrume interior dos jazigos... Algumas datavam bem de períodos dos quais algumas leituras que vinha fazendo me davam conta de que pouco conhecia de facto. Outras estavam mais próximas no tempo, mas todas me pareciam romanticamente arcaicas na imobilidade intocada da sua ruína. Quantas lágrimas se tinham vertido sobre o mármore daquelas sepulturas? Lágrimas de mortos, no entanto... E, para mim, homem da segunda metade do século, estavam tão secas quanto, por vezes, o meu estado de alma. Os jogos de rendilhados das nuvens que se adensavam lentamente derramaram um foco ténue sobre uma das campas. “Como um sinal num palco”, pensei. Afastei a poeira acumulada com a palma da mão e sentei-me, à procura de meditar.
Nas histórias, não poucas vezes, as coisas mais estranhas acontecem de repente, quando já nada nos levava a contar com elas. E o mesmo, concluímos depois de uns bons anos de cepticismo juvenil, se pode afirmar da realidade... Voltei-me em direcção ao portão do cemitério num impulso intuitivo. Logo diante de mim estava o desconhecido da praça dos leões, como que flutuando num sorriso beatífico, embrulhado na sua longa túnica branca, os pés descalços cobertos de uma fina película de pó cinzento do chão. Saudou-me com um gesto suave, simultaneamente pedindo silêncio, e sentou-se sobre uma sepultura próxima. Mantivemo-nos estáticos e silenciosos durante um período de tempo que não contabilizei. O sol parecia teimar em não se pôr e prosseguia o seu jogo de luz e sombra entre as ameias das nuvens altas. Depois, uma pomba branca surgiu de entre aquela natureza deserta, voltejou três vezes sobre si e foi pousar no seu ombro.
“Boa tarde, Espírito Santo”, disse-lhe o desconhecido.
Não me contive:
“Espírito Santo?”
Fitou-me directamente e estendeu-me a mão:
“Pois claro. Bom nome para uma pomba branca, não?”
Pausa.
“O meu nome é Jesus”.
Nova pausa.
“Desculpa não me ter apresentado antes...”
Conhecia o suficiente das superstições que acompanharam o homem europeu até ao tempo do cataclismo para compreender que só ali faltava Deus Pai Todo Poderoso. Mas esse, aparentemente arredado do mundo desde a época da criação, era pouco provável que aparecesse. Tinha finalmente satisfeito a minha curiosidade. A personagem intrigante que me deixara pensativo não passava de um lunático a quem alguém se esquecera de implantar um chip e que me parecia, ainda assim, perfeitamente feliz... Envergonhei-me vagamente do meu cinismo. Mas não o suficiente.
Jesus retirou de um bolso dificilmente apercebível uma pequena garrafa de metal baço e amarelado e, com um gesto, convidou-me a beber. Como eu tardasse em responder, indagou:
“Não és daqueles que se opõem terminantemente ao álcool?...”
Abanei a cabeça negativamente, estendi a mão e emborquei um gole que me ardeu garganta abaixo. Ele riu-se da minha careta:
“Bom, hã?”
“Sim. Bom!”
Ficámos ali a sentir o frio das sepulturas, a observar as figuras que as sombras das nuvens desenhavam sobre o terreno, a trocar goles e a conversar...
“Jesus não é um nome comum...”, disse eu.
O meu interlocutor acenou que não, manteve-se pensativo por um instante, sorriu e começou a contar:
“Não é, de facto. Mas não penses que sou um desses fanáticos religiosos, cobertos de dogmas e preconceitos, que se escondem pelos muitos cantos da Europa... O meu pai já se chamava Jesus e o meu avô, que era espanhol, também. É, ou era, um nome comum em Espanha. Digamos, uma tradição familiar. Assim como não nos escondermos. De resto...”, largou a pomba que desapareceu numa revoada, “... esta pomba, adoptei-a aqui em Étampes. Achei piada a que voasse por paragens tão desoladas e comecei a alimentá-la. Assim se fazem amigos. Também por piada, baptizei-a com o nome de Espírito Santo...”
Disse-lhe que não sabia nada sobre esses “fanáticos religiosos”, que nunca tivera o prazer de conhecer nenhum.
“Tens a certeza? Certamente que não correriam o risco de andar por aí a propagandear ideias quando isso só lhes poderia trazer problemas e perseguições. De resto, o que é que tu fazes por cá?”, respondeu-me.
Lembrei-me, antes de mais, de tudo quanto fizera, de como vogara bem nas águas do regime, de quanta propaganda lhe fizera sem medir as palavras e o que as subjazia, de como me sentira vaidoso de cada vez que um livro chegava a best-seller e importante quando recebia prémios e me homenageavam. Pensei em quanto me julgara feliz e realizado. Surgiu-me a imagem-relâmpago de Anamaria... Ria, gargalhava e abraçava-se-me muito, com os olhos semicerrados em meia-luas castanhas, a respiração quente e arfante a chegar-me à nuca. Estávamos alongados, certa noite de Verão, na areia fina da praia privativa de um conhecido. Conseguíamos ver as estrelas todas, a Via Láctea inteira, o disco enorme da Lua, mas eu só tinha olhos para ela. De seguida, o rosto de Christine surgiu e diluiu o éden. Que afinal era o inferno... Quanto mudara a minha vida desde então! Senti um carinho triste por Christine. Mas a tristeza brotava inteiramente da minha sensação de perda do paraíso... Quando os meus olhos se refixaram no momento, notei que Jesus aguardava uma resposta.
“Os pais da minha namorada viveram aqui e ela quis vir em busca de recordações”, semi-menti.
Ele abanou a cabeça concordantemente.
“É um bom local para procurar recordações”, disse. “Como uma velha fotografia em que um dado tempo se escondeu”.
“Porque o sítio é perfeito para alguém se esconder...”, provoquei. “O medo das radiações... Ninguém se lembra de cá vir”.
Jesus ponderou:
“Toda a gente se esconde de alguma coisa. Mas eu não. Estou aberto ao mundo e até às radiações deste mundo. Mas este mundo não é meu. Ou então... gosto de andar assim de um lado para o outro. De procurar, tentar compreender o mundo. Gosta da solidão e da sensação de encontrar alguém inesperadamente em locais inesperados”.
A pequena garrafa continuava a rodar ao ritmo daquela conversa um pouco hermética. De repente, Jesus abriu-se, como que iluminado por uma ideia que eu próprio não ousava verbalizar:
“Devemos ser mais ou menos da mesma idade... Como tu, ensinaram-me a só acreditar no que vejo. Trouxemos a religião à baila... Se alguém se atreveu a falar dela, ridicularizou-a. Quem não se tiver atrevido, omitiu-a propositadamente” – traçava abstracções no solo com o dedo grande do pé direito – “Mas eu sou naturalmente curioso. E é por isso que acabei por perceber alguma coisa de religiões. Não acredito nas grandes cerimónias políticas, sociais ou religiosas, mas creio no indivíduo enquanto potentado capaz de ascender numa direcção positiva, quero dizer, generosa e desinteressada. Acredito, portanto, na religião que pode jorrar do interior de cada ser...”
Parecia que me arrancava do coração as palavras que gostaria de ser capaz de pronunciar se algo dentro de mim não me forçasse a achá-las ingénuas e inadequadas.
“Não creio que se trate de um ponto de vista ingénuo”, surpreendeu-me o meu interlocutor.
“Não, claro que não!”, atalhei, quase atrapalhado.
Mas a curiosidade aguçava-se-me mais do que a atrapalhação e perguntei:
“Já lhe... já te aconteceu encontrares religiosos?”
Ele sorriu e coçou o queixo de forma que, a mim, me pareceu enigmática:
“Já. Mas eles não sabiam”, respondeu.
“Não se apercebiam?”, especifiquei.
“É. Mais ou menos”.
A garrafa esgotava-se agora, o que começava a dar-me uma hilariante vontade de confessar o que, de facto, fazia em Étampes, de me escancarar. Se se tratasse de um esbirro do regime, talvez já tivesse dado conta de mim, o que quer que isso significasse. E se fosse algum hipócrita pronto a dar com a língua nos dentes, estaria eu pronto a dar conta dele. O que quer que isso pudesse significar... Se, por outro lado, pertencesse a algum eventual grupo desconhecido de resistentes, só me ficaria bem. Vagueava... Não tinha a certeza de que o raciocínio estivesse correcto mas o álcool ajudava-me a achar que sim ou que pouco importava. Além do mais, se tinha alguma glória na vida, talvez fosse exclusivamente essa e não só precisava de desabafar como também de me sentir um herói. Senti até vontade de o convidar a ir lá a casa... Será que Christine lhe acharia graça ou, pelo contrário, zangar-se-ia com a minha indiscrição? “Se quiseres, convido-te para jantar. Posso servir-te Bordeaux”, pensei antes de falar mas, entretanto, Jesus ergueu-se, estendeu-me o último gole e interrompeu-me a tempo:
“Fiquei com a divertida impressão de que o meu nome e a minha indumentária te puseram a pensar se eu não seria uma espécie de Jesus Cristo ressuscitado... Não terás uma ponta de misticismo nessa cabeça?”
“Misticismo? Não acredito em balelas! Vivemos num mundo material, certo?”, defendi-me. “Acredito na ciência e na razão”.
Vi-o lançar um olhar esguio, com um traço de tristeza nostálgica, às nuvens que agora se moviam mais rapidamente sobre nós.
“Hmm, também acho que Jesus não teria clientela nos tempos que correm. Vá, bebe...”, disse.
No momento em que me preparava para levar o gargalo à boca, sobressaltou-me a presença repentina de um pequeno escorpião junto aos meus pés. Ergui-me de um salto, a garrafa escapou-me das mãos e uma mancha de álcool foi aterrar precisamente no dorso do aracnídeo que, de imediato, se lançou em rodopios enlouquecidos sobre si mesmo até, por fim, cravar o espinho do seu veneno no próprio corpo e definhar, definhar, até tombar inerte ao lado de uma cruz inclinada e lascada no topo, onde um líquen espesso ocupava o espaço vago. Uma rajada de vento trouxe-o de volta até junto dos meus pés que o empurraram num esgar reflexo de estupefacção. Por instantes, o meu olhar colou-se àquele pequeno pedaço de suicida incompreensível e atirou-se, como ele, pela poeira do chão sem destino.
Foi então que me senti tomado de um pânico súbito... Como se uma compreensão que sempre tivera presente mas sempre me escapara, também ela atirada à toa nos recantos da minha mente, subitamente desandasse a gritar e a ecoar, dolorosamente amplificada contra cada osso do meu crânio. Eu era aquele escorpião! Convencido do meu poder, da minha vontade, da minha capacidade, irracional e iludido a esse ponto, eu vivera a minha vida às voltas sobre mim mesmo e era, na verdade, suicida. Pior ainda do que aquele escorpião, porque falhara até no suicídio, eu era aquele escorpião! Procurei conter o coração que repentinamente me acelerara, racionalizar o sangue que subia e se me cravava no calor do rosto com tenacidade. Jesus deve, nessa altura, ter percebido que algo se passava, já que pousou a mão no meu ombro e eu, ainda que tenha sentido vontade de repelir violentamente aquele corpo estranho, não fui capaz de o fazer. Pelo contrário, o toque humano acalmou-me, trouxe-me de volta a mim, lenta mas seguramente. Creio que o tempo que tudo isto tomou deve ter sido muito menor do que aquele que efectivamente me pareceu tomar. Por fim, respirei todo o ar que os meus pulmões puderam conter e afastei a sua mão. Estava praticamente sob controlo, salvo pela descoberta súbita e dolorosa que se me colava ainda, não como uma segunda pele, mas sim como uma única pele impossível de apagar. O rodopio do escorpião! Era eu...
“Tens problemas com escorpiões?”, inquiriu Jesus com seriedade.
Limpei o suor que se me colava à testa com as costas da mão.
“Não... Sim, acho que talvez...”
“Não te preocupes... É normal ter fobias”.
A minha fobia, acabara de o descobrir, era eu mesmo ou aquilo que tinha sido. Mas, no fim de contas, não teria eu feito algo de útil, pelo menos a partir do momento em que me apercebera das injustiças do humanismo e agira, mesmo tendo perdido tudo dessa forma, o contacto com a família, os amigos e os conhecidos mais agradáveis, os meus bens materiais? Não. Nem isso... Até aí eu tinha sido arrastado e talvez nem me tivesse apercebido de imediato das consequências exactas das minhas acções. E, no fundo, estava farto, aborrecido, tinha curiosidade em conhecer a vida além da vida e nem sequer era capaz de mais do que de escrever textos proibidos e guardá-los nas frechas aparentemente mais seguras da minha casa... A minha verdadeira fobia, acabara de a descobrir... Eu às voltas comigo mesmo, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos, até me acabar. Com toda esta cascata de ideias a rodopiar-me no cérebro como o escorpião, só encontrei presença para responder:
“Obrigado”.
“Não tens nada por que agradecer”.
Estendeu-me a mão e senti-lhe o aperto firme, enquanto me dizia:
“Está a escurecer. Vou-me embora...”
E quando acabávamos de deixar para trás o ronco do portão:
“Como não nos veremos mais... boa sorte para o futuro!”
“Podemos sempre encontrarmo-nos por aí. Pelo menos, durante algum tempo...”, contrariei.
Jesus fixou-me por breves instantes com um olhar que, até então, não percebera de facto até que ponto era claro e penetrante. De tal forma que tive que desviar o meu próprio olhar.
“Não...”, disse por fim. “Basicamente já vi o que queria ver e está na hora de mudar de poiso”.
Encolhi os ombros. Agora que o conhecera um pouco, ficava com pena de não o poder vir a conhecer um pouco melhor. Mas apertei-lhe uma vez mais a mão e fiz meia volta desejando-lhe, por meu turno, boa sorte.
Não me tinha afastado uma dúzia de passos e voltei-me para trás com a ideia repentina de que poderia, eventualmente, querer dizer-me para onde iria a seguir. Se é que tinha um plano... As paredes brancas do cemitério, folhas secas empurradas pelo vento, o caos da vegetação verde-escura do fim de tarde, o caminho por onde chegara, o céu e as nuvens, o bulir sereno da natureza deserta, tudo estava no sítio como que para me garantir que havia uma ordem no universo... Tudo menos o homem de trinta e tal anos que acabara de deixar naquele mesmo local. Teria estado a falar com um morto?
“Bizarro”, pensei. E daí, talvez tivesse seguido por algum atalho...